O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 4 de 47

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O Chamado do Anjo

Primeira parte: O gato e o rato

1

A troca

 

Há criaturas cujo destino é se conhecerem. Onde quer que estejam.

Aonde quer que se dirijam. Um dia elas se encontram.

— CLAUDIE GALLAY

 

NOVA YORK

AEROPORTO JFK

UMA SEMANA ANTES DO NATAL

ELA

 

— E depois?

— E depois o Raphaël me deu um anel de diamantes da Tiffany e me pediu em casamento.

Celular grudado no ouvido, Madeline caminhava sem rumo em frente às altas sacadas envidraçadas que davam para o asfalto. A cinco mil quilômetros dali, em seu pequeno apartamento no norte de Londres, sua melhor amiga escutava, impaciente, o relato minucioso de sua aventura romântica na Big Apple.

— Você realmente tirou a sorte grande! — constatou Juliane. — Fim de semana em Manhattan, quarto no Waldorf, passeio de carruagem, pedido de casamento à moda antiga...

— Pois é — rejubilou-se Madeline. — Foi tudo perfeito, como num filme.

— Talvez um pouco perfeito demais, não acha? — fustigou-a Juliane.

— Pode me explicar como alguma coisa pode ser perfeita “demais”, senhora despeitada?

Juliane tentou se redimir, meio sem jeito:

— Quero dizer, talvez tenha faltado a surpresa. Nova York, Tiffany, o passeio na neve, o rinque de patinação do Central Park... É um pouco previsível, meio clichê, caramba!

Maliciosa, Madeline contra-atacou:

— Se bem me lembro, quando o Wayne pediu você em casamento, foi voltando do pub, numa noite de bebedeira. Ele estava totalmente chumbado e saiu para vomitar na privada logo depois de pedir a sua mão, não foi?

— Ok, dessa vez você ganhou — capitulou Juliane.

Madeline sorriu, enquanto se aproximava da área de embarque para tentar encontrar Raphaël no meio da multidão compacta. Naquele início de férias de fim de ano, milhares de viajantes se comprimiam no saguão do aeroporto, que zumbia como uma colmeia. Alguns encontrariam a família, outros viajariam para o fim do mundo, para destinos paradisíacos, longe da melancolia de Nova York.

— A propósito — continuou Juliane —, você não me disse qual foi sua resposta.

— Está brincando? É claro que eu disse sim!

— Não fez nem um suspensezinho?

— Suspense? Tenho quase trinta e quatro anos, Juli! Não acha que já esperei muito? Eu amo o Raphaël, saio com ele há dois anos e estamos tentando ter um filho. Dentro de algumas semanas, vamos nos mudar para a casa que escolhemos juntos. Juliane, pela primeira vez na vida, me sinto segura e feliz.

— Por acaso você está falando isso porque ele está do seu lado?

— Não! — exclamou Madeline, rindo. — Ele foi despachar as bagagens. Estou falando isso porque é o que penso!

E parou em frente a uma banca de jornais. Dispostas lado a lado, as primeiras páginas esboçavam o retrato de um mundo à deriva que hipotecara seu futuro: crise econômica, desemprego, escândalos políticos, tensão social, catástrofes ecológicas...

— Não tem medo de levar uma vida previsível com o Raphaël?

— Mas isso não é um defeito! — retorquiu Madeline. — Preciso de alguém firme, confiável, fiel. Tudo à nossa volta já é tão frágil e inseguro. Não quero isso no meu relacionamento. Quero voltar para casa à noite e ter certeza de encontrar calma e equilíbrio. Sacou?

— Hum... — fez Juliane.

— Não tem nada de “hum”, Juli. Pode começar a visitar as lojas para comprar o vestido de madrinha!

— Hum — repetiu ainda assim a jovem inglesa, dessa vez mais para disfarçar a emoção do que para traduzir o ceticismo.

Madeline consultou o relógio. Atrás dela, nas pistas de decolagem, aviões esbranquiçados esperavam em fila indiana para tomar impulso.

— Bom, vou desligar, meu voo decola às cinco e meia e ainda não encontrei meu... meu marido!

— Futuro marido... — corrigiu Juliane, rindo. — Quando vem me fazer uma visitinha em Londres? Por que não esse fim de semana?

— Eu adoraria, mas é impossível. Vamos chegar muito cedo a Roissy. Mal vou ter tempo de passar em casa para tomar um banho antes de abrir a loja.

— Mas você não para, caramba!

— Sou florista, Juli! O período de Natal é o mais corrido!

— Tente pelo menos dormir durante a viagem.

— Está bem! Ligo amanhã — prometeu Madeline, antes de desligar.

 

* * *

ELE

 

— Não insista, Francesca. Está fora de questão me encontrar!

— Mas estou a apenas vinte metros de você, bem na saída da escada rolante...

Celular colado no ouvido, Jonathan franziu o cenho e se aproximou da balaustrada que dava para a escada rolante. Ao pé dos degraus, uma morena do tipo mulher fatal falava ao celular enquanto segurava pela mão uma criança envolta numa capa meio grande demais. A mulher tinha cabelos compridos, usava um jeans de cintura baixa, uma jaqueta acolchoada com cinto e imensos óculos escuros de grife, que, como uma máscara, lhe escondiam parte do rosto.

Jonathan agitou um braço na direção do filho, que retribuiu timidamente a saudação.

— Mande o Charly para cá e dê o fora! — ele ordenou secamente.

Sempre que via a ex-mulher, sentia-se invadido por um misto de raiva e mágoa. Um sentimento poderoso que ele não controlava e que o deixava ao mesmo tempo violento e deprimido.

— Você não pode continuar falando comigo desse jeito! — ela protestou, com uma voz que traía um ligeiro sotaque italiano.

— Quem é você para dar lição de moral?! — ele explodiu. — Você fez uma opção, assuma as consequências. Você traiu sua família, Francesca! Você nos traiu, a Charly e a mim!

— Deixe o Charly fora disso!

— Deixá-lo fora disso! Quando é ele que paga o preço! É por causa dos seus acessos que ele só vê o pai algumas semanas por ano!

— Sinto mui...

— E o avião! — ele a interrompeu. — Quer que eu te lembre por que o Charly tem medo de viajar sozinho de avião, o que me obriga a atravessar o país todas as férias escolares? — perguntou, subindo o tom de voz.

— O que está acontecendo conosco é... é a vida, Jonathan. Somos adultos, não existe um lado bonzinho e outro vilão.

— Não foi o que o juiz achou — ele observou, subitamente cansado, aludindo ao divórcio pronunciado em detrimento da ex-mulher.

Pensativo, Jonathan pousou os olhos no asfalto. Não passava de quatro e meia da tarde, mas não demoraria a anoitecer. Nas pistas iluminadas, uma fila impressionante de jatos de grande porte esperava o sinal da torre de controle para decolar com destino a Barcelona, Hong Kong, Sydney, Paris...

— Bom, chega de conversa — ele decretou. — As aulas começam no dia 3 de janeiro, levo o Charly na véspera.

— Tudo bem — aceitou Francesca. — Uma última coisa: comprei um celular para ele. Quero poder falar com ele a qualquer hora.

— Está brincando! Mas nem pensar! — ele explodiu. — Ninguém tem um celular aos sete anos.

— Isso é discutível — ela objetou.

— Se é discutível, você não deveria ter tomado a decisão sozinha. Podemos até discutir isso um dia, mas por enquanto guarde a sua geringonça e deixe que o Charly venha.

— Tudo bem — ela abdicou mansamente.

Jonathan se debruçou sobre a grade, franziu os olhos e viu Charly devolvendo a Francesca um pequeno celular colorido. Em seguida, o menino beijou a mãe e, num passo inseguro, subiu na escada rolante.

Jonathan esbarrou em alguns passageiros para receber o filho.

— Oi, pai.

— Oi, mocinho — ele disse, apertando-o nos braços.

 

* * *

ELES

 

Os dedos de Madeline corriam rapidamente pelo teclado. Empunhando o celular, ela percorria as vitrines do duty free enquanto escrevia quase às cegas uma mensagem para responder a Raphaël. Seu companheiro já fizera o check-in, mas agora estava na fila para passar pelo controle de segurança. Na mensagem, Madeline sugeriu se encontrarem na cafeteria.

— Papai, estou com um pouquinho de fome. Será que eu

poderia comer um panino? — pediu educadamente Charly.

Com a mão no ombro do filho, Jonathan atravessava o

labirinto de vidro e aço que levava aos portões de embarque. Detestava aeroportos, particularmente naquela época do ano — Natal e saguões de aeroporto lhe lembravam as circunstâncias sinistras em que soubera da traição de sua mulher, dois anos antes —, mas, exultante por encontrar Charly, fez com que ele decolasse do chão, agarrando-o pela cintura.

— Um panino para o mocinho! — disse com entusiasmo,

mudando de direção para entrar no restaurante.

A Porte du Ciel, principal cafeteria do terminal, ficava numa praça em cujo centro diferentes balcões ofereciam um leque de especialidades culinárias.

Uma musse de chocolate ou uma fatia de pizza?, perguntou-se Madeline, examinando o bufê. Claro, uma fruta seria mais razoável, mas ela estava com uma fome de leão. Colocou o doce no prato, depois o devolveu quase instantaneamente, tão logo seu Grilo Falante lhe sussurrou ao ouvido o número de calorias que continha aquela pequena tentação. Um pouco decepcionada, catou uma maçã na cesta de vime, pediu um chá com limão e se dirigiu ao caixa para pagar a conta.

Pão ciabatta, molho pesto, tomate seco, presunto de parma

e mozarela: Charly salivava diante de seu sanduíche italiano. Desde a mais tenra idade, acompanhara o pai na cozinha dos restaurantes, o que aguçara seu paladar e desenvolvera sua curiosidade por tudo que é tipo de sabores.

— Cuidado para não derrubar a bandeja, ok? —

aconselhou Jonathan, depois de pagar o lanche.

O menino assentiu com a cabeça, concentrado em manter

o equilíbrio entre o panino e a garrafa de refrigerante.

O restaurante estava lotado. A sala oval se estendia ao

longo de uma parede de vidro que dava diretamente para as pistas.

— Onde vamos ficar, papai? — perguntou Charly, perdido

em meio ao fluxo de passageiros.

Jonathan analisou detidamente a multidão compacta que

se esbarrava entre as cadeiras. Visivelmente, havia mais fregueses do que lugares disponíveis. Então, como num passe de mágica, uma mesa ficou livre perto da sacada envidraçada.

— Direção leste, grumete! — bradou, piscando para o filho. Enquanto apertava o passo, seu celular tocou em meio ao

burburinho. Jonathan hesitou em atender. Embora estivesse com os braços ocupados — a mala de rodinhas numa das mãos e a bandeja na outra —, tentou arrancar o aparelho do bolso do paletó, mas...

Quanta gente!, desanimou Madeline ao ver a horda de passageiros invadir o restaurante. Ela, que esperara relaxar um pouco antes do voo, não encontrava sequer uma mesa livre!

Ai!, evitou gritar, enquanto uma adolescente distraída a pisoteava sem uma palavra de desculpa.

Sua pestinha, pensou com veemência, dirigindo-lhe um olhar irritado, ao qual a menina respondeu com um discreto dedo em riste cujo significado não deixava margem à dúvida.

Madeline não teve nem tempo de se deixar atingir por aquela agressão. Acabava de ver uma mesa livre ao lado da sacada envidraçada. Apertou o passo com medo de perder aquele excelente lugar. Estava a apenas três metros do objetivo quando o celular vibrou dentro da bolsa.

Justo agora!

Primeiro decidiu não atender, depois voltou atrás: provavelmente era Raphaël, querendo saber onde ela estava. Desajeitadamente, segurou a bandeja com uma das mãos — Caraca, como esse bule é pesado! —, enquanto com a outra vasculhava na bolsa para pegar o celular, afogado entre o volumoso molho de chaves, a agenda e o romance que estava lendo. Contorceu-se toda para ligar o aparelho e levá-lo ao ouvido quando...

 

* * *

Madeline e Jonathan bateram de frente. Bule, maçã, sanduíche, garrafa de Coca, taça de vinho: tudo voou pelos ares antes de cair no chão.

Surpreso com o encontrão, o próprio Charly deixou a bandeja cair e começou a chorar.

Que idiota!, irritou-se Jonathan, levantando-se com dificuldade.

— Olhe por onde anda! — gritou.

Que grosseirão!, irritou-se Madeline, recobrando-se.

— Ah, então a culpa é minha? Não inverta os papéis, meu amigo! — ela o desafiou, antes de recolher do chão o celular, a bolsa e as chaves.

Jonathan se inclinou para ficar mais perto do filho e tranquilizá-lo, recolhendo o sanduíche protegido por uma embalagem plástica, bem como a garrafa e o celular.

— Eu vi a mesa primeiro! — ele se indignou. — Estávamos praticamente sentados quando você irrompeu como uma avalanche sem nem...

— Está brincando? Eu vi a mesa muito antes!

A raiva da moça acusava um sotaque inglês até então imperceptível.

— Seja como for, você está sozinha, enquanto eu estou com uma criança.

— A desculpa de sempre! Não vejo como o fato de ter um fedelho lhe dá o direito de me dar uma trombada e estragar minha blusa! — ela se lamentou, mostrando a mancha de vinho que lhe maculava a roupa.

Contrariado, Jonathan sacudiu a cabeça e ergueu os olhos para o teto. Abriu a boca para protestar, mas Madeline foi mais rápida:

— E depois, para começo de conversa, não estou sozinha! — ela garantiu, percebendo a aproximação de Raphaël.

Jonathan deu de ombros e pegou a mão de Charly.

— Venha, vamos procurar outro lugar. Idiota... — ele resmungou ao sair do restaurante.

 

* * *

O voo Delta 4565 deixou Nova York em direção a San Francisco às cinco horas da tarde. Feliz da vida por encontrar o filho, Jonathan não percebeu o tempo passar. Desde a separação dos pais, Charly tinha fobia de andar de avião. Era impossível para ele viajar sozinho ou pregar o olho durante o voo. As sete horas que duravam a viagem foram então dedicadas a trocar piadas, contar histórias engraçadas e assistir pela vigésima vez ao filme A dama e o vagabundo na tela do laptop se lambuzando com potinhos de sorvete Häagen-Dazs. Aquela mordomia era reservada à classe executiva, mas uma comissária de bordo compreensiva, que se encantara com o rosto de Charly e a simpatia canhestra do pai, resolvera transgredir as regras.

O voo Air France 29 deixou o Aeroporto JFK às cinco e meia

da tarde. No conforto acolchoado da business class — decididamente, Raphaël trabalhara direito —, Madeline ligou a câmera fotográfica e fez desfilar as fotos de sua aventura nova-iorquina. Grudados um no outro, os dois namorados reviveram alegremente os melhores momentos de uma viagem com gostinho de lua de mel. Depois Raphaël cochilou, enquanto Madeline, fascinada, via pela enésima vez A loja da esquina, a velha comédia de Lubitsch, oferecida na programação.

Em virtude do fuso horário, não eram nem nove horas da noite quando o avião de Jonathan pousou em San Francisco.

Livre da angústia, Charly dormiu nos braços do pai assim que saiu da aeronave.

No saguão de desembarque, Jonathan ficou à espera do amigo Marcus, com quem tocava uma pequena brasserie francesa no coração de North Beach e que deveria ir buscá-los de carro. Pôs-se na ponta dos pés para inspecionar a multidão.

— Seria uma surpresa se ele estivesse no horário! — resmungou.

Já desistindo, resolveu consultar o celular para verificar se havia alguma mensagem. Assim que desativou o modo avião, um texto comprido se estampou na tela:

Bem-vinda a Paris, minha querida! Espero

que tenha conseguido descansar durante

o voo e que Raphaël não tenha roncado

muito ;-)

Desculpe por ainda há pouco. Adorei saber que você vai se casar e que encontrou o

homem capaz de fazê-la feliz. Prometo

fazer todo o possível para cumprir com

seriedade e solenidade meu papel de

madrinha!

Sua eterna amiga, Juliane

 

Que baboseira é essa?, pensou, relendo a mensagem. Uma piada extravagante de Marcus? Acreditou nisso durante alguns segundos, até inspecionar o aparelho: mesmo modelo, mesma cor, mas... não era o seu! Uma rápida espiada no aplicativo de e-mail lhe permitiu descobrir a identidade da proprietária: uma tal Madeline Greene, que morava em Paris.

Porra!, praguejou. É o celular daquela destrambelhada do JFK!

Madeline consultou o relógio reprimindo um bocejo. Seis e

meia da manhã. O voo levara pouco mais de sete horas, mas, com o fuso horário, o avião aterrissara sábado de manhã em Paris. O Aeroporto de Roissy despertava freneticamente. Como em Nova York, os turistas de Natal tinham tomado posse do aeroporto, mesmo àquela hora da manhã.

— Tem certeza de que vai trabalhar hoje? — perguntou

Raphaël diante da esteira de bagagens.

— Claro, querido! — ela respondeu, ligando o celular para

consultar as mensagens. — Aposto que já tenho várias encomendas à minha espera.

Escutou primeiro a secretária eletrônica, na qual uma voz

arrastada e com sono que lhe era totalmente desconhecida deixara uma mensagem: “Oi, Jon, é o Marcus. Éhh... tive um

pequeno problema com o 4L, um vazamento de óleo que... Bom, eu explico mais tarde. Enfim, tudo isso para dizer que posso me atrasar um pouco. Desculpe...”

Que palhaçada é essa?, ela se perguntou, desligando. Alguém

que teria discado o número errado? Hum...

Em dúvida, examinou o celular com atenção: era a mesma

marca, o mesmo modelo... mas não era o seu.

— Merda! — deixou escapar bem alto. — É o celular

daquele maluco do aeroporto!