O Jogo em Vermelho
Capítulo 01
Uma garota, simplesmente uma garota pendurada em um gancho no matadouro supostamente mal-assombrado. Os pulsos amarrados em uma corda e a ponta desta corda fixada em um gancho no teto. As costas cobertas de pequenos cortes, alguns com um caco de vidro enfiado na carne. Joelhos esfolados, pernas com arranhões e marcas roxas. Os braços com marcas nítidas de dedos, perto e no ombro marcas de mordidas. A barriga e os seios com cortes e cortes. O nariz quebrado, maxilar deslocado, olho roxo, pequenos arranhões.
E os olhos fitavam o vazio pareciam mortos mesmo que ela ainda respirasse.
Camile Simons abriu os olhos e só viu escuridão, não enxergaria a própria mão na frente do rosto. Demorou segundos para entender que estava com o rosto enfiado em um travesseiro, por isso a escuridão e a dificuldade para respirar. Esfregou o rosto, tentando se orientar. Os números brilhantes em seu relógio indicavam que estava atrasada, então logo saiu da cama com movimentos lentos. Percebeu que fora acordada por um peso quente na base das costas, peso este que caminhou dali até seu ombro para acordá-la.
O frio sob seus pés a acordou um pouco mais, como sempre. Kriss, um gato preto com alguns pelos brancos no pescoço, desceu miando e e passou a se esfregar entre suas pernas enquanto ela caminhava em direção a cozinha, tentando não cair com a agitação do gato em pedir atenção.
O apartamento era grande para alguém como ela, que morava sozinha — ou quase sozinha. Sétimo andar, ou penúltimo. Era perto do trabalho, dois quarteirões, dava para ir caminhando. Ela era detetive, mas apesar disso seu escritório era em um prédio comercial ao lado do Instituto Davis Archer, que era quase a mesma coisa que um IML. Oficialmente, era considerada uma subordinada do legista-chefe de lá. Vários policiais trabalhavam por ali, a maioria como parceiro de legistas, como ela.
O gato subiu na bancada e se sentou no lugar habitual, a frente de um pote destinado à ração. Camile pegou seu pote para cereal, pôs os pequenos flocos e o leite. Depois pegou um punhado de ração e serviu à Kriss.
Comeu enquanto observava seu gato pegar cada grão de ração e mastigá-los antes de engolir. Algumas vezes balançando levemente a cabeça para facilitar o trabalho. Não reclamou quando o bichano enfiou a cabeça em seu pote para beber um pouco do leite, apenas riu pelo nariz pelo hábito do animal.
Depois do café da manhã e de ter limpado a sujeira, tomou seu banho gelado para sair.
Estavam no inverno, então o vento frio da manhã castigou seu rosto quando ela saiu do prédio. A noite havia nevado, o chão estava coberto com uns dois centímetros de neve, e alguns flocos ainda caiam. Mesmo depois de anos em um lugar que nevava no inverno, mesmo com quase trinta anos, Camile precisava controlar o impulso de pôr a língua para fora e pegar um floco de neve todas as vezes que estivessem caindo.
Ao invés de caçar floquinhos, ela apertou mais o casaco em volta do corpo e saiu caminhando em direção ao Norte. Não havia muitos pedestres, a maioria preferia andar de carro ou em um transporte coletivo ao invés de enfrentar o frio, mas ela não se importava.
Seu rosto, ela sabia, estava corado, ficava avermelhado fácil por ter a pele clara. O vento mudava de direção e às vezes lançava os fios negros presos em um rabo-de-cavalo em direção ao seu rosto. Ela tinha quase 1,80 m e não reclamava disso, na verdade isso ajudara muito em seu trabalho. Com certeza as pernas longas ajudavam a se locomover mais rápido, consequentemente aumentando sua capacidade de corrida. Além de aparentemente fazer ela parecer um pouco ameaçadora.
Como era rotina, ela primeiro iria ao Instituto antes de ir para seu escritório. Logo que entrou no hall, sentiu seu braço ser puxado e segundos depois estava dentro da sala de triagem, antes que pudesse ofender quem havia arrastado viu que era Vincent Brown.
Vincent era o legista-chefe e raramente estava lá antes das dez da manhã, e sequer eram oito. O homem tinha a mesma altura que ela, os cabelos ruivos estavam salpicados com fios grisalhos. Os olhos acinzentados dele mostravam agitação.
— Onde está Cooper?
— Não faço ideia, eu moro bem longe
— Precisamos dela aqui
— Ligue para ela
— Não atende
— Bem, ela sempre chega atrasada. O que houve, senhor?
— Temos um novo caso, Camile — ela ergueu as sobrancelhas, o tom de voz dele e o fato de ter a chamado pelo primeiro nome a preocupou
— O que há de errado?
— Foi um assassinato brutal e eu acredito que não será o único
Camile apenas concordou com a cabeça, começando a pensar sobre isso. Vincent pegou uma pasta e a entregou, na etiqueta dizia “Katherine S. Cooper”, e depois saiu da sala. Camile caminhou até a mesa de centro e olhou a relação legista-caso e viu que apenas aquele fora designado à sua parceira. Conhecendo a rotina da legista, saiu e foi para o escritório dela. Era no nono andar, sala 97, era pequeno. As paredes eram pintadas de um cinza muito claro e não havia janelas. Tinha um arquivo, uma estante com alguns livros variados, uma escrivaninha incrivelmente bem organizada. Pilhas perfeitas de papel e de fichas, dois potes cheios de canetas e marcadores e um bloco de notas. Duas cadeiras, uma para quem trabalhava ali e a outra em frente à mesa. Havia um ventilador de teto que na verdade era apenas uma espécie de acessório, já que todas as salas tinham sua temperatura controlada pelo sistema de ventilação do andar, nas salas ou no corredor, o andar inteiro tinha a mesma temperatura ideal.
Camile sentou na cadeira de visitas e cruzou as pernas e abriu a pasta para começar a ler enquanto esperava.
Quase quarenta minutos depois, entrou na sala uma mulher tirando a neve dos ombros e resmungando. Tinha o cabelo loiro, em um tom de bronze, a pele levemente morena, como bronzeada. Os olhos azuis, cerca de quinze centímetros mais baixa que Camile. Estava usando botas de salto alto que fizeram Simons erguer a cabeça ao ouvir o som
— Faz o que aqui, senhorita Simons?
— Está atrasada
— Problema meu
— Temos um caso novo — ergueu a pasta que lhe foi arrancada da mão — Sorte sua, essa é a única autópsia do dia
— Ótimo — se jogou na própria cadeira
— Por que demorou tanto?
— Não interessa
— Cooper, pelo que Brown disse, não é um caso comum
— Caso comum — ergueu uma sobrancelha e abriu a pasta — Já deu uma olhada?
— Já li umas dez vezes
— Hm — olhou as fotos, leu as poucas informações — Violento, parece passional, apesar de ter deixado o bilhete
— Esse bilhete me deixa confusa — franziu o cenho — Parece confirmar ser algo passional e ao mesmo tempo parece confirmar que pode haver outros. E sabemos que comuns passionais são casos com um ou dois mortos
— Sim, sim — esfregou o rosto
— Ressaca, uh? — reprimiu um riso — Quer um analgésico?
— Não — suspirou — Vai pro seu escritório ou quer me acompanha?
— Eu deveria ir para o escritório — olhou o relógio de pulso — Mas não acho que Brown vai ficar incomodado
— Provavelmente não — e deu de ombros
O fosso era como chamavam o necrotério, ficava no subsolo, logo abaixo do prédio. Ao todo, eram doze andares. Dez 'comuns' e os outros dois ficavam abaixo do solo. No segundo subsolo era aonde ficava as geladeiras, os caixões simples para enterro de indigentes e o almoxarifado. Eram doze macas no morgue, sete delas ocupadas e com legistas trabalhando. Assim que entraram, depois de vestir as roupas adequadas, um dos técnicos se aproximou. Katherine entregou a pasta e ele foi buscar o corpo, alguns minutos depois o corpo estava pronto para ser examinado e ela o dispensou, Camile poderia ajudar.
O homem estava em um estado deplorável. Nariz esmigalhado, faltava muitos dentes, o rosto inchado quase irreconhecível. Havia marcas de espancamento em todo o corpo, os órgãos genitais haviam sido arrancados e não encontraram sinais deles perto da área do crime. Depois de examinar cuidadosamente, Katherine abriu o corpo. Pelo exame interno, viu que duas costelas do lado esquerdo e uma do lado direito haviam se partido e perfurado o pulmão, além das costelas flutuantes estarem rachadas. O baço fora rompido e havia muito sangue. Ela viu que o fígado estava muito danificado, indicando que provavelmente o homem era um alcoólatra.
A causa da morte, aparentemente fora hemorragia interna.
Vendo tudo aquilo, Camile teve uma sensação estranha. Como se soubesse que aquele seria o caso que mudaria tudo a sua volta e a si mesma. Sua experiência de vida dizia que coisas que mudam vidas quase sempre não são boas.
E aquela era uma dessas.
O bilhete dizia: é tudo relativo.