O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 8 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 08

A mulher resmungou de dor quando tentou se levantar, a enfermeira a obrigou a se deitar novamente.

— Fique deitada aí, precisa descansar

— Eu não quero descansar — tentou se levantar

— Por favor, faça o que é melhor para a senhorita

— Eu vou fazer o que eu quiser — ela tentou arrancar o tubo que colocava soro e medicamento em sua corrente sanguínea, mas a enfermeira segurou seus pulsos — Me largue, quero ir para casa, onde estão minhas roupas?

— O seu amigo as levou, disse que traria novas quando a senhorita pudesse sair

— Que amigo? Eu não tenho amigos

— Foi o que ele disse, senhorita

— Pare de me chamar de senhorita

— Desculpe, fique deitada, já disse que precisa descansar

— E eu já disse que não quero ficar deitada, não quero descansar, quero sair daqui

— Fique deitada, pare de ser tão teimosa — um homem disse, o que fez as duas olharem para ele, a enfermeira se afastou e a mulher deitada ergueu as sobrancelhas, não o conhecia, ele fez um gesto indicando que a enfermeira podia deixar o quarto — Você não quer se machucar ainda mais, não é?

— Quem é você?

— Seu futuro chefe

Nenhuma palavra, nenhuma frase, nenhum monologo poderia ser o suficiente para descrever o que o homem morto no centro da sala sofreu para estar naquele deplorável estado.

Essa merda dava agonia apenas de pensar sobre ela.

Abigail rodeou lentamente o corpo, analisando e imaginando o que o carrasco fez, aonde era o laboratório de tortura dele e como seria estar no inferno dele. Aquele homem viveu um pesadelo, um dos piores pesadelos que uma mente humana pode criar, antes que sua vida fosse finalmente ceifada.

— Ele está pior do que eu imaginei — Carter disse enquanto se agachava

— Assim parece que você não viu os outros corpos — Katherine rebateu

— Eu vi as fotos, ele não está pior?

— Como se algum estivesse bonito

— Não precisa ser tão… antipática

— Não estou sendo antipática, o que você queria que eu fosse?

— Talvez a mesma Cooper que eu conheci, não acha?

— Não sou mais adolescente há muito tempo

— Você não era adolescente

— E você não deveria achar que eu ia ser para sempre daquele modo — se levantou e tirou as luvas

— Por que não? As pessoas com vinte e cinco anos normalmente tem sua personalidade formada

— Talvez eu não tivesse — se virou e caminhou para fora, sendo seguida de perto pelo quarto

— Claro que tinha, duvido que você seja assim com todo mundo

— Por que se importa em como eu trato as pessoas?

— Porque não é agradável trabalhar com alguém assim e sua parceira não parece ter problemas com você

— Não estou obrigando ninguém a trabalhar comigo

— Você realmente trata todos assim?

— Do que isso importa? — começou a procurar as chaves do carro no bolso — Não é como se eu quisesse ser amiga de todos, eu não tenho a obrigação de ser a rainha da simpatia

— Não precisa se irritar comigo

— Então não fique enchendo a minha paciência — destrancou o carro — Apenas me deixe fazer o meu trabalho

O vestiário feminino era imaculadamente limpo e tinha um leve odor de lavanda, Cooper entrou em um dos cubículos de troca de roupas. Ela gostava de ser uma legista, mas detestava a roupa que era obrigada a vestir. Vestimentas sufocantes: roupa cirúrgica, avental cirúrgico, luvas, a bota branca, cobertura para o calçado e o protetor facial de plástico transparente. Ela vestiu tudo em um ritmo desanimado, o frio fazia isso com ela. Tornava seus movimentos lerdos, sua mente trabalhava mais devagar do que o comum.

Era uma merda.

O necrotério não era lá o lugar mais belo do mundo para trabalhar, mas ela realmente gostava do silêncio que era pontuado apenas por respirações e os sons metálicos dos instrumentos. Era tranquilizador, era relaxante, era perfeito.

Katherine conferiu se estava tudo perfeitamente alinhado, limpo e brilhante. Holly Hernandez, que além de ser a garota das apostas era uma das assistentes, iria ser a ajudante da vez. Cooper agradeceu mentalmente quando Camile, ao invés de Abigail, se postou ao seu lado, com os braços cruzados sobre o peito e o olhar fixado em todos os movimentos de Holly, como se estivesse evitando olhar para o cadáver do estuprador, que vestia a mesma roupa que a legista e se concentrava em fazer o exame externo. A detetive, já que não era obrigada a vestir o traje completo, usava apenas a máscara e as luvas. Sua postura mostrava o quanto estava tensa com o caso.

Hernandez estava procurando e colhendo qualquer evidência, qualquer objeto estranho encontrado poderia ajudar a estar mais perto do sádico assassino em série. Era um trabalho meticuloso, detalhista e Katherine queria que fosse o mais perfeito possível, então se pôs a ajudar. Podia sentir o olhar atento da detetive sobre si, parecia que a outra queria entrar em sua mente e investigar cada canto. Katherine abriu os sacos, as mãos do morto foram ensacadas na cena do crime, e removeu resíduos que estavam localizados debaixo das unhas. Os sacos foram removidos, dobrados e guardados junto com as outras evidencias.

Aquele era apenas o começo do trabalho.

Não precisavam o despira, já que estava nu, os ferimentos foram examinados, antes da limpeza do cadáver. Logo após, o corpo foi limpo, pesado e medido antes de ser colocado na mesa de autópsia para um novo exame. A mesa era de alumínio e inclinada, com as beiradas mais altas e com várias torneiras e drenos. Esses equipamentos eram usados para lavar o sangue acumulado durante a investigação interna. O corpo foi virado de frente e foi colocado um suporte embaixo de suas costas. O suporte era um "tijolo" de borracha que fazia com que o tórax do morto fique para frente, enquanto os braços e o pescoço caem para trás.

Essa posição era para facilitar a abertura do tórax.

Katherine fez uma descrição geral do corpo. Todas as características que o identificam anotadas, como a etnia, sexo, cor e comprimento do cabelo, cordos olhos, idade, qualquer característica identificadora.

Holly entregou um bisturi para Katherine. Ela começou exame interno com uma incisão larga e profunda, em forma de Y, que foi feita de ombro a ombro, passando pelo osso esterno e foi até o osso púbis. O próximo passo era soltar a pele, músculos e tecidos moles, usando um bisturi. Depois disso, o retalho torácico foi puxado para cima do rosto, expondo a caixa torácica e os músculos do pescoço.

Foram feitos dois cortes de cada lado da caixa torácica. Os tecidos que ficam por trás foram dissecados com um bisturi e, então, a caixa torácica foi afastada do esqueleto. Com os órgãos expostos, Katherine fez vários cortes que descolaram a laringe, o esôfago, várias artérias e ligamentos.

Em seguida, a legista afastou a ligação dos órgãos na medula espinhal, assim como a ligação da bexiga e do reto. Depois disso, o órgão inteiro foi puxado para fora e dissecado para a investigação adicional e coleta de amostras.

Durante a dissecção, os órgãos foram examinados e pesados. Também foram retiradas amostras de tecido. Essas amostras tinham a forma de "fatias", para serem facilmente visualizadas com um microscópio. Os vasos sanguíneos principais também foram cortados e examinados. A legista abriu o estômago, examinou e pesou os conteúdos. Isso era ser útil para descobrir a hora da morte e se aprofundar nos hábitos do homem. Então, a legista removeu o suporte das costas e o posiciona atrás do pescoço, como se fosse um travesseiro, levantando a cabeça do cadáver para que seja mais fácil remover o cérebro

Ela fez uma incisão com o bisturi, passando atrás de uma orelha, através da testa, chegando até a outra orelha e dando a volta. A incisão seria dividida e o couro cabeludo afastado do crânio, em dois retalhos. O corte da frente ficou sobre a face do paciente e o de trás sobre a parte de trás do pescoço. O crânio foi cortado com uma serra elétrica para criar uma "tampa" que deveria ser levantada, expondo o cérebro. Quando a tampa foi levantada, a dura-máter (membrana de tecido mole que cobre o cérebro) permaneceu presa à base da tampa craniana. O cérebro estava perfeitamente exposto. A conexão do cérebro com a medula espinhal e o cerebelo foi cortada e o cerebelo retirado do crânio para ser examinado.

Através de todo esse processo, a legista buscava evidências de trauma ou de outras indicações da causa mortis. O processo era bastante detalhado. A patologista forense estava se dedicando a um procedimento complexo e aprofundado, para se assegurar de que os indícios serão coletados e documentados corretamente.

Após o exame, o corpo se encontrava com a cavidade torácica aberta e vazia, com retalhos de tórax que pareciam duas borboletas. Falta a parte de cima do crânio e os retalhos que cobrem o rosto e o pescoço. Para liberar o corpo e a autópsia estar terminada, os órgãos foram colocados de volta no corpo; os retalhos do tórax foram fechados e costurados; a tampa do crânio foi recolocada.

Quando a autópsia foi finalizada e as amostras devidamente rotuladas, Camile se ofereceu para levá-las para o laboratório. Katherine não rejeitou a proposta, era a rotina. Katherine se dirigiu ao vestiário para se trocar e Holly guardou o corpo.

O laboratório de toxicologia era a parte mais moderna do Instituto. Tudo limpo e branco, uma aparência de paz. O oposto do morgue, que mais parecia o cenário de um filme antigo de terror, com o chão de cimento manchado e paredes gastas. Até os jalecos dos técnicos que ali trabalhavam pareciam mais brancos e engomados do que o do resto da “população” do prédio.

Camile Simons gostava de passar mais tempo ali do que em seu escritório, isso não era segredo para ninguém. Talvez por isso a maioria não entendia como diabos ela entregava todos os relatórios sempre dentro do prazo, nunca se atrasava em uma entrega. Ainda por cima ajudava Laurie a entregar resultados aos legistas que não iam buscar por conta própria já que sempre estavam afundados em trabalho burocrático, ou seja, ajudava a entregar nove em cada dez resultados.

Naquele momento não era diferente.

Fazia mais de duas horas que havia levado amostras do corpo para serem analisados e decidira fazer uma “pausa” no lugar e agora estava sentada na banqueta ao lado de Becker observando cada movimento dela. Laurie achava divertido, realmente gostava, aquilo lhe lembrava seu irmão caçula. Irmão esse que sempre sentava ao lado dela e a observava, ela sentia falta dele.

Uma espécie de vazio.

Vazio que era um pouco preenchido pela detetive.

Era estranho, mas era um estranho bom e reconfortante. Quase uma sensação de estar em casa com alguém importante. Por isso que Camile havia se tornado importante, por isso que a cientista se importava com a australiana. Elas se tornaram amigas, Laurie gostava disso. Tinha dias que ela via a detetive deixar transparecer sua fofura, e isso fazia ela querer por a garota na mochila e levar pra casa.

Camile seria um ótimo bicho de estimação.

Laurie podia adota-la?

— Você parece estressada

— É um assassino em série, Laur

—Se precisar conversar, você sabe que estou aqui — sentiu a movimentação ao lado e soube que Camile puxou a camisa para cima e enfiou o rosto para dentro, olhou pro lado e confirmou — Não adianta se esconder, me diga o que há de errado

— É um maldito assassino em série

—Que tem como padrão estupradores — Camile soltou o ar com força pelo nariz, Laurie coçou a nuca — É isso?

— Por que seria?

— Porque não é a primeira vez que você está em um caso desse tipo, você está estranha

— Eu não gosto desse tipo de caso

— Eu também não — levantou e a abraçou, envolvendo seus ombros — Mas você é boa, Katherine é boa e tudo vai ficar bem

Tudo precisava ficar bem

Por ter ocupado sua madrugada em ler centenas de páginas cheias de informações sobre todas as vitimas do assassino em série, ela simplesmente não consegui sentir um misero pingo de pena dos homem mortos. Ela sabia que nenhum dos homens da lista eram inocentes, era a porra de um padrão.

Era errado, muito errado, mas ela não podia evitar. Ela não podia reprimir o mínimo sorriso que se desenhou em seus lábios ao pensar que havia um assassino em série, torturador que matava estupradores. Era satisfatório. Ela não podia evitar de jeito nenhum, até tentou, mas não podia. Havia uma pontada minúscula de prazer lá no fundo do seu ser, um ponto de maldade, um ponto de ódio irracional por homens como aqueles que fazia o lado escuro da sua mente e do seu coração pensar na possibilidade de deixar o carrasco solto pelo mundo.

Entretanto, também havia medo.

O lado certo, o lado policial e racional estava com aquele ínfimo risco cinzento de medo em sua claridade. Em sua visão de bondade aquilo tudo era errado, quase demoníaco. Mais errado ainda por sua parte má estar gargalhando no canto de sua mente. Isso a deixava confusa, coisa que ela detestava estar.

Stean sacudiu o bisturi, sorrindo. O homem estava amarrado e amordaçado, completamente preso na maca, e nu também. Com amarras nos pulsos, nos tornozelos, na cintura, nos ombros e na testa. Completamente imóvel, ele observou seu carrasco e sentiu um arrepio quando o bisturi dançou pelo seu peito em direção ao abdomem. Gemeu quando Stean abriu um corte na altura de seu estômago, depois desceu e o abriu o suficiente para enfiar a mão ali dentro.

Seu grito foi abafado.

Stean remexeu a mão dentro dele, causando tanta dor quanto era possível. Ele arrancou parte do intestino e começou a puxar, o fazendo sangrar e sentir uma dor excruciante. Enquanto sofria, o homem tentava se lembrar de algum motivo, qualquer motivo, para estar sendo torturado.

Ele nunca tocou uma garota, ou um garoto, à força, nem crianças. Talvez uma ou duas vezes, enquanto estava bêbado, talvez seja isso. Mas, pelo discurso que Stean havia feito, era um assassino de estupradores. É, um erro, um deslize, não havia sido consumado, mas era o suficiente.

E agora estava pagando.