O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 22 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 22

O homem apertou mais a pasta entre os dedos e empurrou a porta com a mão livre, estava destrancada e isso o incomodou profundamente. Mesmo sendo uma cidade pequena, ainda era perigosa. Não era uma boa ideia deixar a porta do seu apartamento aberta. Isso o incomodou, a garota normalmente era cuidadosa e aquilo mostrava o quanto ela não estava se importando com mais nada.

Ele ficou alguns segundo parado perto da porta, olhando e estudando ao redor. Estava acostumado com bagunça, sabia que ela não conseguia deixar tudo arrumado. Mas havia uma diferença entre bagunça e sujeira. Havia latinhas amassadas de soda, garrafas vazias de cerveja, pacotes rasgados de salgadinhos. E o que mais o preocupou foi o cheiro de fumaça e os maços amassados no chão.

A dona do apartamento estava no sofá, as pernas esticadas e apoiadas na mesa de centro. Uma mão enfiada no pacote de salgadinhos e a outra segurando uma garrafa de cerveja. Sem tirar os olhos da TV, que passava um programa de algum esporte que o homem não foi capaz de reconhecer, ela comia e bebia.

— Aqui está precisando de uma limpeza — ele chutou algumas latinhas para fora do caminho, a garota apenas encolheu os ombros e continuou comendo — Você deveria levantar e fazer alguma coisa

— Não tenho motivos — o salgadinho acabou, ela amassou o pacote e jogou para trás

— Você sabe que essas coisas não te fazem bem — ele sentou no braço do sofá — Salgadinhos, refrigerante, cerveja e cigarro são as coisas que te matam

— Não me importo — terminou a cerveja, colocou no chão e empurrou para que rolasse até se juntar a outras garrafas, levantou e foi para a cozinha — Mande sua cientista devolver minha arma, acabo com isso rapidinho

— Você vai ter sua arma de volta — a seguiu com o olhar, ela ergueu as sobrancelhas enquanto o encarava desconfiada — Mas, apenas porque você vai trabalhar

— Não vou trabalhar

— Vai sim — ele ergueu a pasta, ela franziu o cenho por não ter percebido que ele segurava aquilo — Você tem dois dias

— Quem disse que vou aceitar? — ela abriu a geladeira e pegou uma latinha de soda, o homem saiu do braço do sofá e jogou a pasta no balcão — Não vou trabalhar

— Você precisa

— Tenho mais que dinheiro o suficiente para viver um bom tempo sem trabalhar

— Não é sobre dinheiro, é sobre fazer alguma coisa

— Estou bem assim

— Você é muito mais útil do que isso

— Não quero ser útil — olhou para a pasta com certo desprezo — Muito menos ser guarda-costas de alguém

— Você não vai ser guarda-costas — ele se apoiou no balcão — Eu consegui convencer ela, vou conseguir convencer você também

— Ela? — ergueu as sobrancelhas, seu olhar mudou de desprezo para curiosidade, abriu a pasta, sua atenção foi captada antes que ela pudesse fugir

— Tinha certeza que você ficaria assim — ela assentiu sem erguer os olhos, estava mais interessada em ler — Consegui te convencer?

— Você é um filho da mãe, sabia? — colocou a soda no balcão — Mas... por que eu? Não sou a única pessoa disponível

— Você ainda vai entender — ela o encarou confusa — Confie em mim. Agora, você precisa arrumar esse apartamento. Quero você no meu escritório, segundas às duas da tarde

Katherine acordou lentamente e sua mente demorou alguns segundos para entender o porquê dela estar vendo a parte inferior da sua mesa no escritório. Se sentou, percebendo que a detetive não estava mais ali, nem mesmo o casaco dela. A única prova física de que a detetive havia estado lá era a pilha de pastas perto da porta. Se sentiu estúpida por ter esperado que pudesse acordar e a garota ainda estivesse lá. Saiu do chão, pegou o casaco e o colocou nas costas da cadeira, pegou as pilhas e colocou em cima da mesa.

A detetive apareceu quando Katherine, ainda se xingando e imaginando como deveria agir, estava começando a arrumar a mesa. Em uma mão, ela segurava um saco de papel e na outra ela segurava uma bandeja com dois grandes copos de papel. A legista reparou que era do restaurante que ficava na rua atrás do Instituto e não da lanchonete no segundo andar. Também reparou que o casaco estava fechado até o pescoço e havia alguns flocos de neve nos ombros da detetive.

— Era para você acordar depois que eu chegasse — ergueu as sobrancelhas e entrou no escritório — Não queria que você pensasse que sou uma mulher sem coração

— Não pensei nisso

— Prefiro acreditar que tenho um voto de confiança — colocou o saco e a bandeja na parte que a legista ainda não havia ocupado com papeis — Como não sei o que você gosta de comer e beber, comprei o que a mulher disse que vendia mais — tirou a neve dos ombros — Eu sei que policiais americanos adoram donuts, legistas também?

— Faz um tempo que eu não como um desses — viu ela abrir o pacote — Você realmente saiu daqui para comprar café-da-manhã?

— Sim, o café da lanchonete não me parece adequado para a primeira refeição do dia.

— Isso é adorável — sorriu de leve

— Eu só estou sendo uma pessoa legal — entregou o donut e o copo de café — Agora, você não pode mais fugir de mim

Katherine riu baixo, talvez ela não quisesse mais fugir.

Laurie sabia que a probabilidade de estar errada era quase nula. Quando viu Camile, teve certeza de que alguma coisa havia mudado. Aparentemente, a nevasca havia obrigado ela e Katherine a ficarem sozinhas no escritório por tempo o suficiente para conversarem.

— Soube que você dormiu aqui — disse quando viu a garota ajudá-la a separar os resultados

— Não quis me arriscar nessa nevasca — deu de ombros

— E nem Cooper, certo? — Camile ergueu as sobrancelhas e a olhou — Vamos lá, você não deixaria ela sair

— Estava nevando demais, era perigoso sair

— Eu sei — olhou para a detetive — Se resolveram?

— Laur... — alinhou os papeis

— Perguntei se vocês conversaram, não se vocês transaram

— Okay, conversamos. Feliz?

— Conversaram e...?

— Você estava certa, ela não me odeia

— Apenas isso?

— E o que mais você quer?

— Cam, Cam, vamos lá. O que ela disse?

— Está bem — bateu os dedos na pilha de papéis — Ela disse que... — corou levemente — Que estava me tratando daquele modo, como se me odiasse porque não queria se aproximar

— E 'se aproximar' significa 'se apaixonar', certo? — a detetive assentiu — E o plano dela de não se apaixonar falhou

— Aparentemente

— Seja sincera

— Falhou miseravelmente — riu baixo — Você estava certa

— Eu sempre estou certa

— Isso não é justo

— A vida pode ser um pouco clichê. E você?

— Eu o que?

— O que você sente por ela

— Eu não sei... eu não sei bem

— Você gosta dela, no mínimo, ou não teria passado tanto tempo insistindo

— Eu sei, Laur. Eu sei que gosto dela, só não sei quanto

— Você não precisa quantificar

— Claro que eu preciso

— Não seja tão racional — esticou a mão e apoiou em seu ombro — Apenas sinta

Camile assentiu, talvez ela devesse apenas sentir. Era o tipo de coisa que parecia combinar com ela, deixar as coisas acontecerem e ver qual o resultado. Ela nunca foi boa em planejar, parecia muito mais simples deixar as coisas acontecerem. Então ela tentaria não ser tão racional, apenas sentir.