O Jogo em Vermelho
Capítulo 33
Sarah precisou envolver a cintura de Camile e puxá-la para longe dele antes que ela o transformasse em apenas restos humanos sangrentos. Depois disso, a levou de volta para o quarto, Margo desamarrou Katherine, tirou o pano da sua boca e também a levou de volta ao quarto.
A detetive sentou na cama, encostada na cabeceira e puxou as pernas para ficar abraçada nelas e escondeu o rosto ali. Katherine sentou na beira da outra cama, os cotovelos apoiados nas coxas e o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas. Sabia que o grito angustiado daquele homem ficaria marcado como ferro em brasa dentro da sua mente. A legista observou enquanto a australiana ficava encolhida na cama, ela parecia querer desaparecer.
— Eu não deveria ter feito aquilo, não é? — ela sussurrou, sua voz rouca e baixa
— Ninguém vai te julgar — Katherine disse com um tom de voz gentil — Não é culpa sua se ela fez você perder o controle
— Eu só... eu deveria ter me controlado — ela apertou as mãos — Não é o tipo de coisa que eu deveria fazer... muito menos na sua frente
— Está tudo bem — ela levantou e sentou perto da detetive, esticou e colocou a mão em sua perna — Você não deveria se culpar
— Mas...
— Olhe aqui — se ajoelhou na frente dela, segurou seu rosto e fez ela olhar para si, Camile tinha lágrimas nos olhos — Você não deveria se culpar, é o tipo de coisa compreensível
— Compreensível? —fungou — Eu torturei um cara, não diga que é compreensível — passou a língua entre os lábios
— Não é como se ele fosse inocente — ergueu as sobrancelhas — Você não teria feito nada se ele fosse inocente — ela podia ver que Camile sabia mais do que havia dito — Você já sabia quem ele era, não é?
— É... — apertou mais os braços ao redor das pernas, Katherine escorregou a mão para sua nuca e massageou
— Tem algo a ver com as cicatrizes? — Camile arfou e assentiu — Foi ele que fez isso?
— Eu não quero conversar sobre isso
— Está bem — murmurou e se afastou
— Não, não, não — esticou a mão e agarrou o braço da legista — Não, por favor, fica — colocou a outra mão em seu rosto — Não quero conversar agora... mas quero você perto, por favor
— Okay
Camile se arrastou um pouco para o lado, Katherine se enfiou no espaço entre a detetive e a parede. Ela passou o braço ao redor do seu pescoço e começou acariciar seu cabelo. A detetive deitou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos.
— Já fazem quatorze malditos anos — Camile murmurou — E eu ainda não consigo falar sobre isso sem me sentir doente
— Você não precisa falar se não se sentir confortável
— Não acho que vou me sentir confortável algum dia — respirou fundo — Eu deveria ter evitado, eu poderia ter feito isso se não fosse tão teimosa
— Não é culpa sua — enfiou o nariz em seu cabelo — Nada é culpa sua
Camile estava quase dormindo quando Katherine a sacudiu levemente. Margo entrou no quarto com uma bandeja.
— Hora da comida — colocou a bandeja em cima da mesa cabeceira — Vocês deveriam comer antes de dormir, casal fofo do ano
E saiu com um pequeno sorriso no rosto.
Katherine se arrastou para fora da cama e abriu o pote, viu que estava cheio de macarrão com molho. Ela ergueu as sobrancelhas, o cheiro fez ela perceber o quanto estava com fome. Abriu a lata de refrigerante e sentou em frente a detetive. Pegou uma porção do macarrão.
— Mais fácil comer se não continuar encolhida assim
— Não estou com fome
— Vamos lá, Simons
— Cammy — murmurou — Você pode me chamar de Cammy, okay?
— Okay — se inclinou um pouco mais para perto — Vamos lá, Cammy, já está tarde
— Estou enjoada
— Está bem... — olhou para a bandeja — Pelo menos coma o chocolate — esticou o braço e o pegou — Por favor
— Okay, okay — pegou o chocolate
Sarah, tentando ser o mais silenciosa possível, se esgueirou para dentro do apartamento. Viu que Camile estava jogada no sofá, em uma posição que claramente causaria dor nas costas e na nuca, a cabeça jogada para trás, Kriss estava deitado em suas pernas e ela ainda estava segurando os resultados de algum exame do trabalho. Sarah suspirou, tirou os sapatos e colocou a bolsa no chão. Se aproximou da garota, aquele não era o tipo de cena realmente incomum.
Ver aquilo fazia ela pensar nos novos planos. Por um lado, dava mais certeza a ela que realmente deveria fazer aquilo. Afinal, uma das piores coisas que ela havia visto era o que Adam havia feito, as consequências daquilo na garota jogada no sofá. E pelo outro lado, ela não queria ficar longe. Não queria desistir de cada plano perfeito que haviam feito, poderia muito bem ficar com aquela mulher até morrer.
Mas aquele desejo de vingança era forte demais. Ela tentou ignorar por anos, esconder debaixo do relacionamento quase perfeito que as duas tinham.
Sabia que seria impossível deixar Camile realmente longe daquilo, além de fazer parte do tempo, a garota era basicamente o motivo de tudo. Ficou alguns segundos admirando a detetive antes de empurrar Kriss, tentando fazer ele sair. O gato grunhiu e pulou para o chão. Sarah sabia que, quando estava realmente cansada, a detetive dormia como uma pedra.
Estava relativamente acostumada a carregar a garota no colo, Camile resmungou baixo quando foi erguida do sofá. Sarah carregou ela até o quarto, colocou na cama e cobriu com o cobertor. Tomou banho, vestiu o pijama (que na verdade era apenas calcinha e sutiã), voltou para o quarto e escorregou para debaixo do cobertor. Envolveu a cintura da detetive, cheirou seu cabelo.
— Eu amo você — murmurou antes de relaxar o suficiente para conseguir dormir