O Jogo em Vermelho
Capítulo 03
Frio, muito frio. Ela sentia o sangue escorrer de um corte na testa. Havia cacos de vidro no seu colo e o cinto de segurança sufocava, o carro havia parado de capotar com o lado esquerdo no chão. Cuspiu sangue e tentou olhar em volta, mas a dor era paralisante, ela simplesmente não conseguia se mover. Seu pulmão queimava, era difícil respirar. Tinha vaga consciência do que aconteceu. Discussão, um erro, algo batendo no seu carro. A sua vida parecia não ter valor, como areia, o tempo escorria. Cada segundo ela se sentia mais perto do fim. Ela fechou os olhos e pediu perdão para cada pequeno erro cometido, se arrependeu do que deixou de fazer. Lembrou dos momentos bons, como se um filme passasse em sua mente.
Fechou os olhos e deixou a escuridão vir.
— Edgar Thompson, acusado de estuprar a sobrinha de nove anos. E David Carp, acusado de estuprar duas garotas — largou a pasta em cima da mesa — Acho que é isto, Simons, o nosso padrão
— Estupradores
— Acusados de estupro
— Estupradores do mesmo modo, Cooper — se jogou na cadeira — Por que não conseguiram condenar eles?
— Falta de provas — esfregou o rosto — Os exames não apontaram nada no corpo de Thompsom, acredito que não haverá nada no de Carp
Camile jogou a cabeça para trás, os olhos fechados, os casos a intrigavam. Dois homens acusados de estupro, com sinais de tortura, com um padrão de posicionamento e bilhetes. Era como se alguém quisesse passar uma mensagem, e ela não enxergasse. Como se estivesse em sua visão periférica, ela apenas via a sombra do seu conteúdo. E ela tinha impressão de que Katherine sentia o mesmo, a mesma sensação de não ver o que está realmente acontecendo.
—Stean — Katherine apoiou o queixo na mão — O que significa Stean?
— Não faço ideia — começou a brincar com o punho da camisa — Pode significar qualquer cosa
— Ou significar nada — deu de ombros — Não é isso que importa, nós ainda não temos sequer certeza do padrão
— Estupradores?
— Acusados, já falei
— É a mesma coisa, já falei também — Katherine sacudiu a cabeça, desistindo antes mesmo de começar a discussão, estava de ressaca e seu humor não era dos melhores — Quantos mortos vamos esperar para termos um padrão? Vinte? Cinquenta?
— Você está exagerando
— Você sempre diz que estou exagerando — resmungo, rodando o botão que tinha no punho — Olhe bem, é um padrão, pronto
— Está bem, é um padrão, acusados de estupro ou estupradores, que seja — juntou as mãos — Como vamos pegar ele antes de mais mortes, não nenhuma pista
— Eu não disse que vamos pegar ele antes de mais mortes, eu apenas disse que não precisamos ter dezenas de cadáveres antes de dizer o padrão
— E como vamos encontrar ele? — revirou os papeis — Eu nunca vi assassinatos tão limpos
— Nenhum crime é perfeito, sabe disso — apesar de alguns anos mais jovem, Camile estava há mais tempo em investigações do que Katherine e havia visto mais casos complicados do que a legista — Pensei que já havia aprendido isto nos últimos anos
— Não é preciso trabalhar por aqui para saber disso —arrumou em uma pilha perfeita o material do caso — Só é preciso assistir algumas séries policiais
— E é por causa delas que está aqui? —ergueu as sobrancelhas, com o meio sorriso irônico que irritava a parceira — Ou nunca vou saber o porquê?
— Vai saber no dia em que eu souber o seu
— Precisa de um porquê?
— Bem, precisa de um porquê? — retrucou com a mesma pergunto, fazendo Camile perceber que não seria fácil conseguir resposta
Fazia quase um ano que trabalhavam juntas e Katherine não sabia nada sobre a detetive, apenas que não era americana, isso percebeu pelo sotaque levemente britânico, mas isso não fazia dela britânica, principalmente porque a garota parecia não conseguir se acostumar com o frio da pequena cidade. E pelo que Cooper sabia, britânicos não tem muito problemas com frio. Não sabia idade, se era formada em alguma coisa, se tinha família, sequer sabia o nome completo.
Em contraste, Camile sabia tudo — ou quase tudo — sobre a legista. Já tinha perdido as contas de quantas vezes leu a ficha completa. Até mesmo o motivo da mulher ter mudado de carreira era quase explicito na ficha, mas Camile tinha curiosidade de ouvir da boca dela o porquê.
De certa maneira, ela entendia. Normalmente pessoas não entenderiam porque alguém saiu de uma cidade grande, onde tinha toda a chance de construir uma boa carreira como neurocirurgiã para ser legista — não que seja uma especialização ruim, apenas não é tão 'honrosa' quanto neurocirurgia — em uma cidade pequena e fria como Beschi. Onde não importava o dia, estava frio, e no inverno todos os nevava pra burro.
Não fazia sentido sair de Washington D.C., a capital, para uma cidade praticamente no meio do nada.
Isso não importava, eram poucos legistas, pessoas o suficiente para cobrir a demanda de mortos de uma cidade pequena. Não que fossem muitos, nessa época tão gelada, muitas pessoas morriam por doenças causadas pelo clima. Havia até mesmo hipotermias, principalmente de moradores de rua.
Simons levantou e conteve o impulso de esticar o corpo, já que o insano pé direito da sala era de apenas 2,20m, o teto ficava a apenas quarenta centímetros da cabeça da detetive. Era mais baixo do que deveria, o que fazia Camile se sentir mais alta do que realmente era. E o portal não era muito diferente, 1,90m de irritação toda vez que ela passava. Katherine segurava o riso pelo fato da garota bater com as mãos na parte de cima todas as vezes que passava, ela não sabia o porquê, mas era engraçado ver o quão pequeno o lugar realmente era.
Era um prédio antigo, mas mesmo assim não havia explicação para andares tão baixos. Essa altura era o motivo de irritação de muitos e o de risada para outros, irritava principalmente os altos distraídos que sempre acabavam batendo no teto. Camile já havia feito parte deste grupo, mas os quatro anos trabalhando ali havia feito com que ela se acostumasse com o problema técnico.
Pegou a cópia do relatório e se despediu da legista, que agora estava concentrada em relatórios da semana anterior.
Seu escritório era maior que o do Instituto, mais novo também. As paredes perfeitamente brancas e lisas. Uma estante ao lado da porta com não muitos livros, a maioria relacionada com medicina e psicologia forense, também alguns sobre filosofia e os outros relacionados a assuntos diversos. Ela já havia lido quase todos, havia realmente muitos poucos que não foram lidos ou utilizados de alguma forma.
A estante era a única coisa organizada.
O arquivo estava abarrotado com papeis que já estavam por ali há anos, desde que havia chegado. Folhas e mais folhas saiam das gavetas, estavam amontoados em cima. As duas cadeiras de espaldar reto destinadas a visitantes também estavam cheias de papéis, fichas e pastas. Ela não sabia com ainda não havia caido tudo aquilo. A escrivaninha estava com pilhas de papéis oficio, blocos de notas, bloquinhos de post-it, canetas e marcadores. As gavetas cheias de mais canetas e marcadores, apenas uma gaveta era organizada, com três fichas completas.
Era uma bagunça.
Mas Camile conseguia sobreviver na própria bagunça. Precisava fazer relatórios do caso anterior e abrir um novo sobre o caso atual. Então juntou as folhas em uma pilha, junto aos blocos de notas e aos post-it, e colocou no chão ao pé da mesa. Jogou quase todas as canetas e marcadores na gaveta já lotada, precisou de tapas e muita insistência para fechar.
Tinha muito a fazer.
O homem gritou.
A dor confundia sua mente, era excruciante. O cheiro de carne queimava o enojava, podia sentir bolhas se formarem em sua pele nos locais em que o óleo fervente tocava. O seu carrasco se inclinou para encarar ele.
Os olhos eram escuros, não pela cor, um castanho claro, e sim pelo ódio que havia neles. Ódio, raiva, sede de morte, eram negros como um buraco sem fundo. Não havia traços de humanidade neles, eram quase demoníacos.
Isso aterrorizou o homem.
Enquanto a dor entorpecia seu corpo, ele lembrava de todos os pecados. De todos os erros cometidos. Estava pagando, sabia disso. Quase implorava pelo fim, para que a tortura acabasse.
Era um fim.
— Toda derrota gera ódio
O carrasco sussurrou, segurando a panela quente e vazia um pouco acima da cabeça.
—Toda derrota gera ódio
O golpe desceu, esmagando o nariz do homem, espalhando sangue pelo rosto dele e sujando a camisa
— Toda derrota gera ódio
A pele chiou com o calor, o carrasco golpeou outra vez.Mais uma vez, e outra, outra, outra e mais uma vez.
— Toda derrota gera ódio
O homem não respirava mais, seu coração não batia. Mais um estava morto. Uma última vez o carrasco repetiu:
— Toda derrota gera ódio