O Jogo em Vermelho
Capítulo 51
Camile estava errada sobre seus pesadelos.
Mesmo com o calor seguro de Katherine perto do seu corpo, com a segurança que ela sentia, os pesadelos chegaram. Em um minuto, ela estava com Laurie, se divertindo na pizzaria, no outro, estava presa em uma cadeira e Sarah torturava ela. Conseguia sentir o bisturi cortando sua pele, o sangue escorrendo lentamente e ouvia uma voz. Longe, como se ela estivesse debaixo d'água e alguém chamasse ela insistentemente.
Acorda, acorda, acorda.
A voz chamava. Outra e outra vez. Mas ela continuava sentindo o bisturi cortando sua pele, arrancando sangue e causando dor. Ela queria que Sarah enfiasse logo aquilo na sua garganta, que acabasse logo com toda a dor.
Cammy, acorda.
Mas ela estava presa. Acorrentada aos sonhos, as cordas se enterravam em sua carne, arrancavam sangue e não deixavam ela sair. Algo prendia ela no fundo do mar negro, o desespero e a agonia tomava conta do seu corpo.
Então ela sentiu uma mão em seu rosto. Não é Sarah, é um toque delicado demais. E novo. Não o toque de alguém que ela passou anos ao lado. era o de quem ela havia acabado de conquistar. E então ela consegue escapar das garras escuras de dor e respirar. Quando abre os olhos, a primeira coisa que vê são os dois olhos azuis como o mar. Depois de um segundo, percebe o resto.
— Cammy?
— Kathy... — podia ver preocupação nos olhos azuis.
— Você teve um pesadelo, não foi? — Katherine acariciou seu rosto, do mesmo jeito que ela fazia quando Nicki tinha um sonho ruim.
— Tive — ela estava ofegando, fechou os olhos — Fica comigo?
— Fico — beijou sua testa — Fico até quando você quiser.
— E se isso significar para sempre?
— Então fico para sempre.
Camile queria acreditar, parecia um pouco difícil. Mas ela tentaria. Havia sinceridade genuína nos olhos azuis de Katherine. A australiana estava quase dormindo quando ouviu a mulher sussurrar, mas podia jurar que escutou um "eu amo você".
E Camile estava certa, ela não passou no primeiro teste. Katherine passou, mesmo que tenha pensado que não conseguiria, em alguns dias voltaria ao trabalho, com Abigail substituindo Camile. A australiana teria que fazer terapia segunda, quarta e sexta. Fazer o teste a cada duas semanas até conseguir passar e ter seu cargo de volta.
— Eu não gosto disso — Camile disse, batucando os dedos na perna enquanto o elevador descia. Ela estava na cadeira de rodas, não que precisasse, era apenas regras do hospital que ela fosse até a porta em cima da cadeira. Abigail estava atrás dela, Katherine estava no prestando depoimento.
— De ter que ser empurrada em uma cadeira de rodas?
— Não. De ficar sem minha pistola.
— Assim você não tenta se matar — era para ser uma pequena piada, mas Carter percebeu que a mão dela se fechou e então pediu desculpas rapidamente — Desculpe.
— Tudo bem — abriu a mão, mexeu os dedos tentando relaxar — Você poderia me dizer como o processo está indo.
— Indo bem, estamos apenas esperando o seu depoimento. Parker vai ser deportada de volta para Austrália, Steele vai ter a pena reduzida por ter ligado para a polícia e pelos depoimentos que ela deu — as portas do elevador se abriram e empurrou ela.
— E Feltre? — Camile não sabia como ela estava, da última vez que ela o viu, ele parecia bem perto da morte.
— Se ele acordar, vai ser deportado e preso. Provavelmente nunca mais vai sair da prisão, só o seu caso já é suficiente para deixar ele muito tempo preso.
— Espero que não acorde — disse entredentes.
— Eu espero que acorde — Abigail ofereceu o braço para a australiana.
— Por que? — aceitou, suas pernas não estavam tão firmes, mas ainda conseguia andar.
— Você sabe o que fazem com estupradores na prisão.
— Isso parece um pouco cruel.
— Nada é cruel o suficiente pra gente como ele — pararam perto do carro, Carter segurou o pulso dela, e virou o braço para que a parte interna ficasse visível e viu as linhas finas, regulares que ela viu serem feitas no vídeo — Como consegue conviver com isso?
— Eu ignoro elas a maior parte do tempo — observou Abigail passar a mão pelo seu braço, o polegar acariciando delicadamente as cicatrizes — Elas não doem, então é fácil esquecer.
— Acho que você merece um parabéns — Camile sorriu levemente, Abigail continuou movendo o polegar sobre as cicatrizes quando murmurou — Obrigada.
— Pelo que?
— Por descobrir quem era Stean, por ter coragem de ir atrás. Por se sacrificar para salvar Katherine. Por levar um tiro e sobreviver.
— Eu só fiz o meu trabalho.
— E fez ele muito bem. Eu não conseguiria.
— Você é uma agente, eu sou só uma policial, você faria muito bem.
— Não — negou com a cabeça — Você enfrentou sua ex-noiva, quase morreu. Eu não conseguiria olhar para minha ex-namorada sem querer sair correndo — Camile riu levemente — Vamos, mal dá pra olhar para a sua cara de fofa e pensar que você é capaz dessas coias.
— Você está exagerando.
— Não estou — subiu as mãos até os ombros da australiana e a abraçou. Camile demorou alguns segundos para retribuir, envolvendo a cintura da ruiva. Ela abraçava a garota com força.
— Você realmente se importa comigo?
— Sim, claro que me importo — Abigail enfiou o rosto na curva do pescoço,. Então uma coisa ocorreu a Camile.
— Posso fazer uma pergunta?
— Faça.
— Katherine parecia te odiar... por que?
— Bem, nós tivemos um caso — isso fez Camile erguer as sobrancelhas.
— Mas ela não era casada?
— Era.
— Isso não é muito ético.
— Eu sei.
— Você gosta dela?
— É uma boa pessoa.
— Estou falando além de amizade.
— Não importa.
— Claro que importa, se você sente algo por ela... deveria não gostar de mim.
— Mas você sabe o que dizem, Camile, tem pessoas que amam a ponto de deixarem quem elas amam ir embora se isso for o melhor. Mais ou menos o que Sarah fez com você. Algumas vezes dá certo, outras não — desfez o abraço e abriu a porta do carro, Camile a olhava confusa — Agora, entre no carro.
— Mas...
— Vamos, Kriss deve estar morrendo de saudades da dona.
Durante todo o caminho, Camile observou Carter dirigir. Como estavam conversando sobre como a primavera estava perto, ela tinha uma desculpa para olhar a agente e memorizar cada detalhe.
O modo como o cabelo vermelho combinava com a personalidade e o rosto dela. As sobrancelhas loiras que se moviam enquanto ela falava, como se tivessem vida própria. As mãos delas que saiam do volante para gesticular, mas logo voltavam a segurá-lo. A voz, o sorriso, a risada, Camile estava registrando cada detalhe.
Ela fazia isso quando alguém chamava sua atenção, e Abigail captou toda sua atenção quando falou sobre amar. Sobre deixar ir. Sarah tentou proteger, mas no final, apenas destruiu um pouco mais.
— Simons.
— Fala.
— Você parece no mundo da lua.
— Estava pensando no que você falou sobre amor. Eu sou o tipo que fica grudada.
— Combina com a sua fofura — Camile corou levemente , pararam na frente do portão do condomínio — Como entramos?
— Abaixe o vidro — Abigail o fez, Camile se curvou sobre ela e acenou para o porteiro, quando voltou, reparou em Carter soltando o ar — Prendeu a respiração.
— Você estava perto de mais de repente, só travei um pouco — acelerou para a vaga, nos dias em que Camile estava fora, alternou com Laurie a função de manter o apartamento limpo, sem cheiro de necessidades felina, e Kriss bem cuidado — Quer que eu suba com você ou vai sozinha?
— Não confio muito nas minhas pernas, ainda estão um pouco dormentes.
Abigail saiu o carro, abriu a porta do passageiro e ajudou a australiana. Camile segurava seu braço com força, mas não se apoiava nela, era apenas uma espécie de segurança. Kriss gritou e gritou até ela pegar o bichano. Apertou, beijou, mordeu, o gato ronronou alto e feliz com a volta da dona. Se jogou no sofá, o gato preso nos braços e o rosto enfiado no pelo dele.
— Você sentiu falta dele mesmo — Camile assentiu, mas continuou parada ali, respirando cheiro e pelo de gato — Quer algo para comer? Ou tem alguma alguma recomendação médica?
— Vou ter que viver a base de sopa por algum tempo, eu me viro — ela riu, sua voz estava abafada pelo corpo quente em seus braços. Ela olhou para Carter por cima do pescoço peludo — Obrigada.
— Só estava fazendo o meu trabalho — encolheu os ombros, se aproximou da australiana. Se inclinou e beijou sua testa, murmurou — Se cuida.
— Você também.
Abigail sorriu, afagou o gato e saiu do apartamento.
Camile fechou os olhos, encostou as costas na almofada. Kriss se aconchegou melhor em seus braços, o focinho enfiado em seu peito. Em duas horas Katherine estaria lá, ela só precisava não dormir. No dia seguinte daria seu depoimento, na próxima semana seria o julgamento.
Finalmente a tempestade acabou.
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Charlie F. Grosskopf