O Jogo em Vermelho
Capítulo 29
Katherine sempre havia imaginado que ser sequestrada por um assassino em série seria um inferno, um pesadelo, mas talvez fosse apenas sorte. Ela não esperava que fosse ser tão simples, imaginava que seria algo frio. Que a prenderiam em uma cadeira, deixariam ela em uma sala escura e talvez batessem ou gritassem com ela. Mas não era assim, ela estava numa cama relativamente confortável (principalmente considerando como realmente poderia ser), com as costas na cabeceira e as pernas esticadas enquanto Margo estava sentada no chão, as costas encostadas na lateral da cama e resolvia um jogo de palavras cruzadas (às vezes perguntando a Katherine se ela sabia alguma palavra).
O quarto era relativamente pequeno, mobiliado apenas com duas camas e uma penteadeira. Era tranquilo, Stean ainda não havia parecido e Katherine já havia descoberto que Steele não sabia de muita coisa sobre a assassina, apenas que seu dinheiro parecia inesgotável e que havia motivos e objetivos muito específicos.
Steele estava no quinto ou no sexto jogo quando a porta do quarto foi aberta. As duas ergueram a cabeça em direção ao som, uma loira entrou com um pouco de dificuldade. As duas mulheres arregalaram os olhos de surpresa quando registraram que a mulher estava carregando alguém. Com cuidado para não bater a cabeça dela, passou pelo portal e foi até a cama, deixou ela deitada ali e saiu sem falar algo ou olhar para as duas mulheres.
— O que acha que aconteceu? — Margo perguntou, olhando para a garota encolhida e de costas para elas
— Não faço ideia — Katherine sentou na cama e pôs as pernas para fora
— Melhor você acordar ela — encolheu as pernas, Katherine a encarou por alguns segundos — Vai lá
Katherine saiu da cama e se aproximou da outra cama. Camile parecia frágil daquele modo. Apoiou uma mão na cabeceira e com a outra sacudiu levemente seu ombro. A garota apenas resmungou e se encolheu mais, enfiando o rosto no colchão. A legista suspirou, sacudiu mais um pouco e se aproximou do seu ouvido.
— Hey, acorde — a garota resmungou mais — Vamos lá
Se afastou, não sabia exatamente o que havia acontecido, mas foi algo bem eficiente para deixar a detetive inconsciente.
— Menina difícil de acordar — Margo riu, se levantou e pegou a garrafa d'água que ficava na penteadeira — Se afasta um pouquinho
Katherine deu dois passos para trás, a ruiva ficou ao seu lado, destampou a garrafa. Tampou com o polegar parte do buraco, com um movimento de pulso, jogou um bocado da água fria nela. Como Margo parecia ter previsto, a reação da detetive não foi nem um pouco delicada. Ela pulou da cama, ficou de pé e de repente parecia perigosa. Socou o ar violentamente, não atingindo as duas mulheres apenas porque estavam a dois passos de distância. Ela demorou segundos para parar, estava ofegando começou a tentar se acalmar.
— Kathy... — murmurou, impulsivamente deu um passou a frente, se curvou para abraçar sua cintura e apertou os braços ao seu redor com força
— Ei, calma — riu baixinho, enlaçou o pescoço dela, podia sentir o quanto de desespero havia dentro dela
— É só que... eu fiquei preocupada com você — afastou o rosto para encarar a legista
— Está tudo bem — acariciou sua nuca — Fica calma
— Ela te machucou? — segurou os ombros da mulher e deu um passo para trás, seus olhos estudando atenciosamente
— Não, não — ergueu as sobrancelhas, a detetive a puxou para abraçá-la
— Kathy, Kathy, Kathy... — murmurou várias vezes com o rosto enfiado em seu pescoço
— Está tudo bem — deu passos para frente, empurrando a detetive para cama — Senta aí — a garota sentou, Katherine sentou ao lado e envolveu seu ombro
— Ninguém vai machucar ela — Margo falou, pela primeira vez a detetive pareceu notar que a garota estava ali — Pelo menos se colaborarem
— Colaborar? — Camile se levantou, já que a preocupação com com Katherine foi resolvida, a raiva tomou seu lugar, agarrou as lapelas do casaco da ruiva — Que porra vocês querem?
— Olhe, eu não sei, okay? Apenas cumpro ordens
— Que tipo de ordens?
— Seduzir os caras que ela pedia, comprar algumas coisas, nada demais
— E você sabe porque ela nos trouxe aqui?
— Não — ergueu as mãos — Já falei, só cumpro ordens. Eu nem sabia que ela te traria, teoricamente era apenas para que você viesse atrás de Katherine, não que ela te carregasse desmaiada pra cá
— E por que trazer Katherine?
— Não sei... eu só sei que ela não gosta muito dela — Camile soltou a ruiva e se sentou pesadamente na cama
— Merda — cobriu o rosto com as mãos — Merda, merda,merda
— Ei... — Katherine colocou a mão em seu ombro — Isso tudo deve ter uma explicação
Camile assentiu. Margo pegou sua revista de palavras cruzadas e a caneta.
— Preciso ir — abriu a porta do quarto — Fiquem aqui
Elas realmente não poderiam sair, afinal, Steele trancou a porta com um giro da chave. Katherine deitou, puxando a detetive consigo. A cama era pequena, ficaram uma de frente para a outra, usando o próprio braço como travesseiro. Katherine aproveitou a luz para estudar a garota, esticou o braço livre e tocou as marcas de dedos que começavam a ficar evidentes na pele branca.
— Ela que fez isso, não é?
— É um bom método de fazer alguém desmaiar
— Você conhece ela, não é? Stean — Camile assentiu — Há muito tempo?
— Mais ou menos, alguns anos — mordeu a parte interna da bochecha, fazendo um certo esforço para que as lágrimas involuntárias não caíssem — Ela é minha ex-noiva