O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 18 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 18

Ela já havia perdido muitas coisas em sua vida, isso era algo que a fazia perguntar se existia alguma razão para ela continuar a ter esperança que um dia ficaria bem. Se algum dia seria definitivamente feliz. Todas as vezes que as coisas davam certo, alguma merda acontecia.

O que dava motivos o suficiente para ela desistir de tudo.

Ela estava na poltrona, seu apartamento era frio e vazio. A única outra coisa quente, além do motor da geladeira, era o gato preto que estava deitado no sofá e a observando. Ele parecia compreender que sua dona estava sofrendo. Em uma mão estava a garrafa de cerveja, na outra mão estava sua arma. Ela encarava a pistola, pensando se deveria realmente desistir.

Parecia justo, uma vida por uma vida. Ela havia falhado miseravelmente no seu trabalho, na sua única função, não havia feito a única coisa que deveria fazer. E ela não se achava forte o suficiente para aguentar tudo aquilo.

Bem, poderia aguentar bem um término de namoro. Poderia aguentar perder um amigo. Poderia aguentar perder o irmão. Mas não tudo tão perto, com dias de diferenças entre as perdas. Isso, ninguém aguentaria. Por isso, mesmo que tivesse sido forte nas duas últimas semanas, meter uma bala na própria cabeça parecia a opção mais viável.

Respirou fundo e colocou a arma encostada na têmpora, sentindo o frio do metal lançar arrepios pela sua coluna. Seu dedo encaixava perfeitamente no gatilho. E ela nunca se sentiu tão pronta para morrer.

— Simons! — Camile ergueu os olhos quando ouviu Laurie a chamando — O que você fez?

— Nada — mordeu a ponta da caneta, olhando sua amiga com confusão estampada no rosto — Pelo menos que eu me lembre

— Tem certeza? — ergueu as sobrancelhas — Katherine está mau humorada

— Ela está sempre de mau humor — voltou a olhar para seu relatórios — E eu nem a vi hoje, então a culpa não é minha

— Talvez seja esse o problema — disse e entrou no escritório — E você chegou atrasada

— E o que isso tem a ver com o mau humor crônico dela? E ela não gosta de mim, tenho certeza que faz muito bem a ela não me ver — mordeu a caneta com mais força, essa ideia não era a mais agradável — Todo mundo pode chegar atrasado e eu também

— Cam, Cam, o que está escondendo?

— Nada — bufou e continuou anotando o que deveria colocar em seu relatório, Laurie deu a volta na mesa, empurrou algumas pastas e sentou — O que quer?

— Saber o que você fez ontem?

— Eu fui atrás dela tentar convencer ela de parar de beber e, para a grande surpresa, ela não quis saber

— Tentou falar sobre falou com ela sobre a noite de vocês?

— O que queria que eu falasse? Não tem nada para falar

— Claro que tem, Cam — deu um tapa fraco em sua testa — Sua besta, ela devia estar esperando que você falasse alguma coisa — Camile revirou os olhos — Vamos lá, você emprestou roupas pra ela

— Porque as dela estavam cheirando a cigarro

— E ela te deu uma carona e dormiu no seu apartamento

— Porque estava tendo uma nevasca

— Você não deu carona pra ela ontem

— Não

— Vamos, o que você fez?

— Eu já disse

— Mas ela ficou irritada, o que você fez?

— Ela não se decide — largou a caneta e encarou Laurie, começando a se irritar — Se eu insisto, ela fica puta comigo. Se eu deixo ela beber em paz, ela também fica puta comigo. O que você quer que eu faça?

— Que converse com ela

— Ela não gosta de conversar

— Beije e depois converse

— Por que está tão obcecada com essa história?

— Você levou ela pra cama

— Sexo casual

— Você é puritana demais para isso

— Não sou não

— É sim

— Não duvide — se levantou — Você não me conhece

— Conheço o suficiente, Cam — encarou a garota com desafio no olhar — Você não faz sexo casual

— É tão difícil assim acreditar?

— É só olhar para você

— Pois saiba, querida Becker — apoiou uma mão de cada lado da garota — Que tinha uma ruiva muito gostosa no bar ontem

— E que tenho sérias dúvidas sobre o que fizeram. Você não levou ela para sua casa, você não emprestou sua roupa para ela e nem a deixou ver as suas cicatrizes — Camile cerrou os dentes — Mesmo que você tenha emprestado a jaqueta, isso não muda o fato que com Cooper não foi casual

— Laurie

— Olhe — desceu da mesa e empurrou a detetive pelos ombros — Há uma grande diferença entre transar com uma ruiva que você conheceu no bar e com uma mulher que você passou o último ano tentanto conseguir a amizade — deu um tapa leve na bochecha dela — E é por isso que Katherine está de mau humor

— Bobagem

— Não, expectativa e ciúmes. Ela esperava que você falasse alguma coisa e o que você fez? Fodeu tudo levando uma ruiva aleatória para cama

Sorriu para a detetive e saiu da sala, a deixando plantada no lugar com a mente cheia de pensamentos sobre o que ela havia acabado de dizer.

Vincent Brown era um homem paciente, Katherine sabia disso e admirava essa característica do homem. Ela se lembrava de como foi a primeira vez em que conversaram. De como ele eplicou que não o trabalho no Instituto Davis Archer era um pouco diferente do trabalho dela na cidade. Sua função não era muito diferente, continuaria sendo a médica-legista, a mulher que abria corpos e descobria o que os mortos tinham a dizer. Mas, dessa vez, ela trabalharia com uma detetive. Com uma parte mais policial da coisa toda. Seria a primeira a ser chamada quando houvesse alguma morte suspeita.

Não trabalharia mais apenas com casos simples, assassinatos também aconteciam em uma cidade pequena. Seus relatórios não seriam mais mandados diretos para o legista-chefe, ela precisava entregá-los para sua parceira. Essa era seu pequeno problema, antes de aceitar, ela ficou mais tempo pensando sobre aquela história de trabalhar com alguém do que para onde iria.

Mesmo depois de um ano, ainda não entendia porque Brown havia procurado em outra cidade, em outro estado, por ela. Por alguém para trabalhar com Simons. Havia outros legistas em Beschi, havia muitos outros em Minessota, porque ir atrás dela? Ela não sabia o que havia de tão interessante em si, mas não podia reclamar. Nem por um segundo pensou em negar, afinal, não tinha mais nada a perder. Era a oportunidade de se afastar, de tentar esquecer tudo em outro lugar.

Passaram-se sete meses entre o dia em que ele apareceu em seu quarto de hospital até o dia em que ele a levou para Beschi. Sete meses entre a frase “seu futuro chefe” até “essa é a sua parceira”. E agora, um ano e algumas mortes depois, Katherine estava puta consigo mesma por ter aceitado. Ela poderia ter ficado, poderia trabalhar em algum hospital. Poderia apenas fazer autópsias de doentes, de mortes acidentais e não precisaria fazer relatórios de homens torturados.

E não estaria irritada por um motivo idiota. Nem confusa, nem com medo e nem com vontade de chorar. Poderia estar tranquilamente abrindo o corpo de um garoto que morreu com uma bola de baseball em seu peito em vez de estar pensando em uma ruiva no bar que havia seduzido uma detetive que ela detestava. Ou talvez não detestasse tanto e era aí que morava o problema. Estava irritada por ter ficado com ciúmes.

E mais ainda por saber que ciúmes, quando ela sentia, era sinal de que estava começando a gostar de alguém.

Sentimentos nunca foram o forte de Katherine, eles nunca estavam em seus planos. Entretanto, eles existiam, eles nasciam em horas inoportunas e por pessoas que acabavam indo embora. Ela nunca tinha a chance de pensar, de escolher, eles simplesmente brotavam em seu peito. E o ciúmes era o primeiro sinal que eles estavam lá, estavam apenas esperando ela aceitar, admitir e correr atrás da pessoa por quem eles existiam.

Quando ela aceitou a proposta de Vincent, ela não pensou que poderia sentir alguma coisa pela detetive. Ela imaginava, na época, que estava tão destruída que seria indiferente, que seria apenas profissional. Entretanto, ela não gostou da garota. E não fez questão de esconder, foi o mais rude que conseguia ser. Foi fria do modo que aprendeu que deveria ser enquanto era a criança que ninguém adotava, a adolescente que ficavam afastados.

Com dezoito anos, ela já havia desistido de alguém gostar dela. E por causa disso, sentimentos não era bem vindos. Claro que ela podia ser simpática, podia ser adorável, fofa, gentil e carinhosa. Mas, assim que chegou em Beschi. ela fez questão de ser fria e antipática, assim, ela acreditava, faria a detetive não tentar ser sua amiga.

E falhou miseravelmente, pois, mesmo com tantas patadas, Camile havia insistido. No começo, apenas não gostava, Depois, começou a detestar. Chegou ao ponto de odiar. Até Stean aparecer e foder tudo. Até o inverno fazer ela ver uma garota ser gentil ao ponto de tirar neve semicongelada de perto dos pneus do seu carro. Um corpo no açougue fazer ela ver uma garota frágil. A bebida e o tesão fazer ela ver uma garota sexy e boa de cama. Uma nevasca e a teimosia fazer ela ver uma garota ferida.

Até uma ruiva no bar fazer ela ver que Katherine Cooper era um clichê estava definitivamente apaixonada pela parceira.

Aquilo era nojento e doentio até para ela, mas repetir demais torturas era entediante. Stean, com seu estômago se revirando, abriu o pote cheio de baratas, estavam sonolentas, o que era menos nojento Se perguntava como a mulher delicada que Margo era havia conseguido os insetos. O homem amarrado arregalou os olhos quando viu o pote, ele se contorceu.

Ela colocou o pote na mesinha ao lado da cadeira, sorrindo com o pânico que causava nele. Pegou a silver tape e arrancou um pedaço, prendeu a ponta na beira da mesa. Tirou o pano que amordaçava o homem, tateou em busca do ponto de pressão na mandíbula e o obrigou a abrir a boca. Com nojo, mesmo usando luvas de látex, pegou um dos insetos e enfiou na boca dele.

Ele gemeu, quase chorando, e tentou fugir da tortura. Ela deixou ele fechar a boca e tapou com a mão. Ele grunhiu enquanto sentia o bicho se movimentar em sua língua.

— Mastigue — ela rosnou e sacudiu a cabeça do homem — Mastigue agora, porra

Ele choramingou e obedeceu, triturando o inseto com os dentes e sentindo seu estômago protestar. Ela riu da agonia dele, sentia prazer com a dor dele. Fechou seu nariz com o polegar e o indicador, fazendo ele sufocar.

— Engula

Ele tentou fugir, mas percebeu que ela o deixaria sufocar se não obedecesse a ordem. Engoliu. Ela ficou dois segundos o deixando sufocar antes de tirar a mão de seu rosto. Esperou alguns instantes, ele ameaçou vomitar e ela tampou sua boca. Quando conseguiu garantir que ele manteria o inseto dentro do estômago, forçou outra vez sua boca a abrir e repetiu o processo.

Era a tortura mais nojenta que ela havia feito, quando sobrou (depois de obrigar ele a comer e aguentar a ânsia de uns quinze insetos) umas dez baratas asquerosas dentro do pote, ela parou de obrigá-lo a comer. Rapidamente, enfiou as restante, fechou a boca dele e colocou a tira de silver tape sobre seus lábios. Ele choramingou e se contorceu, balançou violentamente a cabeça, como se isso fosse fazer elas saírem.

Stean sorriu, ela adorava saber que causava dor em alguém como ele.