O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 15 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 15“

“O homem estava ajoelhado. Apenas de cueca, um pedaço de fita adesiva prateada cobria sua boca. Havia hematomas e cortes espalhados pelo corpo. Ele era magro, sempre dizia que não precisava ser um homem musculoso por não trabalhar em algo que exigia boa forma física. E também confiava o suficiente na policial, que havia acabado de ser promovida para detetive, para acreditar que ela poderia ajudá-lo em qualquer coisa.

O carrasco parecia um homem de negócios extremamente charmoso. O paletó cinza claro, com uma gravata azul, faziam ele parecer poderoso, e combinavam com os olhos cinzentos e gelados. Era um homem bonito, o queixo quadrado como um galã de televisão. O cabelo negro estava penteado perfeitamente, uma barba por fazer fazia ele ser quase sexy. Seria o sorriso não fosse tão sádico... ou se não tivesse um martelo em sua mão.

Adam Feltre era um psicopata de marca maior.

Ele ergueu o martelo e o desceu em direção a cabeça do homem. O sangue espirrou, manchando a perfeição de suas vestes. O homem gemeu baixo de dor antes de fechar os olhos. Adam deixou o homem cair no chão, sem tirar o martelo, tinha certeza que ele estava morto. Passou por cima do corpo em direção ao outro quarto, onde estava mais uma diversão.

A mulher tentou inutilmente se afastar dele. Estava tão machucada quando o outro homem. A diferença era que Adam a mantinha nua e sem um fita cobrindo sua boca, afinal, ele não era apenas um psicopata. Ele era um maníaco sexual. E ela era um bom brinquedo para ele.

— Está na hora — ele agarrou o cabelo loiro-bronze e a puxou para perto, encarou seus olhos azuis intensamente — Vamos brincar mais um pouco, Susan...”

Se havia uma coisa no mundo que Camile Simons odiava, essa coisa era acordar no meio da noite com a cabeça latejando e a garganta ardendo por causa de um maldito pesadelo. A respiração descompassada, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito, o corpo quente e tremendo descontroladamente.

Cobriu o rosto e tentou se acalmar.

Seu coração pareceu bater ainda mais forte e rápido quando sentiu mãos em seus ombros, teria se encolhido e corrido para longe se a voz suave de Katherine não sussurrasse algo em seu ouvido. Mesmo que tenha sido no seu ouvido ruim, ela conseguiu reconhecer aquela voz que ouvia todos os dias, mas não foi capaz de distinguir as palavras.

Não era o tom habitual, frio, sarcástico ou rude. Era suave, delicado, preocupado e quase carinhoso. Isso fez Camile se sentir confusa, sem saber se deveria aceitar aquela demonstração de gentileza ou se deveria levantar e fugir do momento.

— Ei... — Katherine sussurrou, Camile sentiu ela se movimentar para ficar a sua frente, as mãos ainda em seus ombros — Está tudo bem?

— Sim — não queria olhar para legista, não queria ver pena nos olhos azuis — Não foi nada...

— Você não parece bem

— Mas eu estou — encarou a legista e viu a pena que tanto detestava, o monstro de orgulho em seu peito rugiu e fez ela dizer — Pare com isso!

— Parar com o que?

— Pare de me olhar com pena, eu não preciso disso

— Eu só...

— Você não se importa, Cooper, só está com pena de mim — Camile tirou as mãos da legista de seus ombros, se levantou e foi em direção a porta — Volte a dormir.

— Espere — Katherine se levantou e seguiu a detetive — Você não precisa ficar zangada comigo

— Eu não estou zangada — parou na soleira da porta e girou em direção a mulher e controlou o tom de voz — Eu só... eu não quero isso, okay? Por que todos sempre acabam me olhando com pena em algum momento? Eu pareço tão frágil e fraca que preciso de alguém cuidando de mim o tempo inteiro?

— Não, não é isso — se aproximou, o quarto era aquecido, mas o resto do apartamento não e agora estava entrando ar frio no quarto, o que deixou Katherine arrepiada — Você parecia tão... indefesa. Me desculpe, okay? Não era minha intenção te chatear — Katherine sabia que estava se arriscando, saindo demais das suas muralhas quando parou perto de Camile e não desviou o olhar quando murmurou — Você parecia sentir dor e eu... e eu não sei explicar.

— Você queria me ajudar? — Katherine assentiu e abaixou a cabeça Camile estava surpresa — Mas... mas você me detesta

— Talvez não... eu não sei mais — bufou e esfregou o rosto

— Desculpe — Camile sussurrou — Desculpe

Katherine ergueu a cabeça para encarar a detetive. Respirou fundo, segurou os pulsos da Camile e começou a puxar ela para dentro do quarto. Camile não protestou, Katherine empurrou a porta para fechá-la. Empurrou ela para a cama.

— Katherine...

— Apenas deite

— Mas...

— O chão está gelado demais

Camile desistiu de insistir e deitou na cama, se encolheu. Odiava aquela sensação, parecia que era frágil e quebradiça. Como se um toque pudesse quebrar tudo ao seu redor. Quebrá-la em minúsculos pedaços de dor. Agradeceu mentalmente por não precisar falar nada para que Katherine não fosse embora.

A legista deitou na sua frente e cobriu ambas com o cobertor. A cama era pequena, não havia espaço o suficiente para ficarem sem se tocar. Katherine não poderia culpar a bebida por estar sendo quase adorável.

Carinhosa demais.

Esticou a mão e tocou o braço dela, Camile fechou os olhos e se aproximou. Katherine prendeu a respiração quando os braços da detetive envolveram sua cintura e ela escondeu o rosto em seu pescoço. A legista passou a acariciar suas costas.

— Camile... — murmurou e a detetive grunhiu em resposta — Posso fazer uma pergunta?

— Faça — sua voz estava abafada

— Seu sonho ruim, ele tem algo a ver com as cicatrizes? — perguntou, receosa que isso fizesse Camile se sentir mal outra vez — Não precisa responder se...

— Tem um pouco — sussurrou — É um pouco complicado — e questionou — Por que você continua aqui?

— Eu não sei — seu tom foi completamente sincero — Quer que eu vá?

— Não! — apertou mais os braços ao redor da legista — Por favor...

Katherine sentiu a imagem cuidadosamente construída de mulher fria derreter naquele momento.

Katherine acordou com o telefone berrando ao lado da cama, apalpou a mesa até encontrá-lo e atendeu sem abrir os olhos.

— Cooper

— Temos um novo corpo — a voz de Abigail soou extremamente estressada — No matadouro, outra vez

— Eu achei que tinha policiais por perto — se sentou e massageou a nuca

— A central mandou eles voltarem quando começou a nevar mais forte

— Como alguém carrega um corpo naquela nevasca?

— Eu não sei, esses caras fazem qualquer coisa em qualquer tempo. Agora, venha

Carter encerrou a ligação antes que Katherine pudesse falar algo. A legista bufou e, depois de alguns momentos, percebeu que Camile não estava no quarto. Se sentiu estúpida por não ter percebido isto quando se moveu para pegar o telefone. Saiu da cama, pela iluminação do quarto, havia acabado de amanhecer. O chão frio sob seus pés a acordou completamente.

Respirou fundo e sentiu o odor de café, ovos e bacon no ar. Vestiu o jeans e seguiu o cheiro até a cozinha ainda ajustando o cinto, encontrou Camile tirando um par de fatias de pão de dentro da torradeira. No balcão, ela viu dois pratos, cada um com dois ovos e algumas fatias de bacon. Camile colocou os pães em outro prato e o colocou em cima do balcão. E também duas canecas de café saindo a fumaça.

— Finalmente acordou — a detetive sorriu levemente em direção a legista antes de pegar açúcar e leite na geladeira

— Eu sempre durmo muito — encolheu os ombros e subiu no banco — Você sempre acorda cedo assim?

— Não, mas alguém precisa fazer o café da manhã — subiu no banco e puxou um dos pratos — Coma antes que esfrie

Katherine puxou o outro prato e obedeceu. O café era realmente bom, melhor do que o do Instituto. A legista ainda não tinha percebido como era agradável ter um café da manhã que era algo mais que um copo de café doce demais. Por isso, ela tinha que admitir que sentia falta de viver com alguém.

— Camile — observou a detetive, as costas dela na verdade, lavar os pratos e as canecas

— Hm

— Temos um corpo novo

— A essa hora da manhã? Depois de uma nevasca?

— É...

— Esse cara é bom — secou os pratos — Quer dizer, insistente

— Eu entendi — bateu os dedos no balcão — O problema é o lugar...

— O lugar? — ela continuava de costas e guardou os pratos

— O matadouro — viu os ombros da detetive ficarem tensos — Você não precisa ir...

— É o meu trabalho — fechou as portas do armário com mais força do que era preciso — Eu posso ir

— Simons... — ela registrou o uso do sobrenome como a tentativa de Katherine em ser profissional — Não seja teimosa

— Não estou sendo teimosa — se virou, apoiou as mãos no balcão e encarou Katherine com uma certa irritação no olhar — Esse é o meu trabalho

— Eu sei — cruzou os braços e sustentou o olhar — Estou tentando te ajudar

— Não preciso de ajuda — sua respiração se acelerou — Eu sei me virar sozinha

— Ótimo — saiu do banco e foi em direção a sala — Espero você lá embaixo

Camile observou a mulher pegar as botas e calçá-la, vestir o french coat antes de agarrar a mochila e sair do apartamento. Não se importou se deveria tomar banho antes de sair. Poderia fazer isso no Instituto. A detetive esfregou o rosto e suspirou frustrada.

Se arrumou o mais rápido que foi capaz e desceu.

Katherine não falou uma única palavra no caminho inteiro, mesmo que estivesse desejando falar algo, mas não queria causar outra discussão.

Estacionou na frente do matadouro, a neve nas ruas atrapalhou o caminho, mas Katherine estava acostumada o suficiente a dirigir para conseguir chegar ao local . Havia duas viaturas e um furgão do Instituto.

Katherine rodeou o homem, o observando e analisando seu estado. Ela havia imaginado algo pior, considerando como Stean havia sido agressivo no corpo anterior. Ele estava de bruços, o rosto virado em direção a porta, seu corpo estava cheio de cortes e hematomas. Pela gravidade dos ferimentos, não parecia que ele estava morto por isso. Parecia o tipo de coisa que um homem daquele tamanho aguentaria. O que mais incomodou a legista foram os cortes que seguiam a coluna,perfeitos e alinhados.

Aquilo não era nada bom.