O Jogo em Vermelho
Capítulo 02
Os dedos da garota se entrelaçaram com os fios da outra, que gemeu baixo, quase como um rosnado. O lugar era quente, abafado, pequeno. Pequeno demais para conseguirem realmente tirar a roupa. Então, basicamente, podiam apenas se apertarem uma contra a outra. Cada segundo, o lugar parecia mais quente. Como um vulcão prestes a entrar em erupção e elas não podiam controlar
Stean, esse era seu nome 'artístico'. Essa palavra apenas veio em sua mente e ele não poderia dizer o porquê. Mas um dia, no meio da noite, enquanto observava a cidade, este nome simplesmente veio a sua mente e ele o pronunciou. A palavra saiu de sua boca suave, leve e fria. Quase tinha um gosto, e era um gosto contraditório. A doçura de um cubo de açúcar, azedo como limão puro. Ácido, amargo. Escuro. Naquele instante, seu plano estava completo. Sua teia de aranha estava formada em sua mente, apenas precisaria executá-la com perfeição e cuidado.
Todos têm uma rotina, por que um assassino em série não teria? Ele era um humano, tinha as necessidades de um humano, e também tinha os sentimentos de um humano. Alguns o chamariam de psicopata, de psicótico, de louco. Mas ele sabia que não era assim, mas também não era um justiceiro vingador. Tinha plena consciência de que era errado.
E era essa consciência que o motivava.
Caminhou até a cozinha, queria um café bem quente com canela. Pôs a máquina para funcionar, era antiga e barulhenta, mas nunca se importou com isto. Esse barulho o fazia se lembrar de quando não era tão solitário, era algo até agradável.
Enquanto esperava, caminhou até a sala. Na mesa havia dezenas de papeis, desenhos, fotos. Seu plano, cada detalhe e cada vertente estava detalhadamente anotada naquelas folhas pouco organizadas. Ficou olhando alguns segundos antes de pescar uma folha. Uma antiga folha de caderno, arrancada, levemente amarelada. Era um rosto masculino, o queixo quadrado e forte coberto com uma barba rala. Careca, o nariz torro, os olhos negros e ameaçadores. Era perfeito, como uma fotografia.
Stean sabia que quem desenhou aquilo era muito talentosa e tinha o sonho de ser desenhista, mas sua vida foi tão bruscamente mudada que ela se afastou desse sonho para se tornar outro tipo de profissional. Era boa naquilo, mas nunca foi seu sonho. O assassino sabia que estava feliz, mas também sabia que ela seria mais feliz ganhando a vida desenhando.
Pôs a folha de volta na mesa quando a cafeteira apitou avisando que seu café estava pronto. Pegou sua caneca, que tinha 'S' desenhado, colocou a dose de canela e açúcar antes de voltar para a sala.
Sentou no sofá, observando a massa de papéis. Em um canto, havia algumas folhas de um pequeno bloco de notas, eram os bilhetes. Cada um com uma frase, um pensamento. Stean queria que vissem o que pensava, suas opiniões, e seu modo não era exatamente limpo, mas era o suficiente. Pegou uma folha e escreveu sua segunda mensagem antes de pôr mais um detalhe no jogo.
Katherine Cooper focou o olhar em sua respiração enquanto esquentava as mãos as pondo dentro do bolso, apoiando a pá na lateral da perna, antes de conseguir voltar a sua pequena missão: tirar o excesso de neve em volta do carro. Nevou mais naquela noite do que na noite anterior, então a camada de neve era bem maior. E a temperatura baixara o suficiente para quase compactar a neve. Havia conseguido apenas tirar da roda dianteira esquerda, ainda faltava as outras três e a frente. Era um trabalho árduo e ela se sentia cada segundo mais perto de uma hipotermia, suas orelhas pareciam duas pedras dos lados de sua cabeça.
— Precisa de uma ajuda? — a legista se virou rapidamente em direção a voz e viu Camile caminhando até ela
— O que faz aqui?
— Eu sei que você vai de carro até o trabalho, caiu muita neve esta noite então achei uma boa ideia vir até aqui
— Bancar a boa samaritana?
— Eu sei que você não gosta de mim, mas estou aqui para ajudar — pegou a pá — Temos um corpo novo — enfiou a pá na neve ao lado do pneu traseiro — Bilhete, estado deplorável e um nome. Ou apenas uma palavra
— Qual o nome?
— Stean
— Stean — repetiu, tentando descobrir de onde vinha este nome — Qual o bilhete?
— A vida não é justa — enfiou a pá com mais força — Como se eu não soubesse, uh?
— Sim, como se você não soubesse — observou a detetive tirar o excesso de gelo, a velocidade e a leveza com o que ela fazia a ação fez parecer fácil —Como você consegue?
— Consigo o que?
— Fazer isso com tanta facilidade
— Facilidade aparente — parou alguns segundos, com o corpo reto — Assim como você faz uma autópsia parecer algo simples, mas não é — voltou a tirar montes de neve — Você estudou anos para ser capaz disso. Aposto que passou muitas noites sem dormir para estudar, teve muita dor de cabeça. Trabalhou muito para chegar aonde chegou, uma das melhores legistas do país
— Bem, é verdade
— Então, não é fácil fazer uma autopsia, e não é fácil tirar gelo daqui. Eu apenas tenho uma boa forma física, sou uma policial, policiais precisam ser assim
Katherine cruzou os braços e continuou observando, quando Camile terminou aquela roda foi para o outro lado. Uma nuvem de vapor também saia de sua boca, seu rosto estava levemente corado. Por minutos, os únicos sons eram o vento e as batidas fortes com a pá. Quando terminou de tirar o gelo, a detetive devolveu a pá para Katherine, que a guardou em seu lugar: ao lado da porta de entrada do prédio.
— Por que essa cara de tédio? —Camile bateu levemente na porta do carona — Vamos, temos que trabalhar
— E quem disse que vou te dar uma carona?
— Eu acabei de desatolar o seu carro, Cooper, onde está seu espírito de colaboração
— Você não faz nada de graça, não é? — destrancou o carro e entrou
— Eu fiz duas coisas por você e apenas quero uma carona — Katherine ergueu uma sobrancelha e a observou entrar e por o cinto de segurança enquanto esperava uma resposta — Primeiro, vim até aqui. Segundo, tirei toneladas de neve compacta.
— Por que veio até aqui? — ligou o aquecedor — Eu sei o caminho para o Instituto, ok?
— Claro que sabe, mas nós não vamos para o Instituto
— Vamos para onde? — deu partida no carro para sair e entrar na rua vazia
— Host's Hill
— Estamos no inverno, ninguém vai a Host's Hill no inverno
— Um assassino em série vai
A Host's Hill é uma colina nos limites de Beschi, em Minessota, e era um dos pontos mais frios da cidade. No pico, havia uma grande e antiga casa que pertenceu a família Beschi, que fundou a cidade e lhe deu este nome. Alguns costumam dizer, principalmente os de idade avançada, que a grande casa era mal-assombrada, por isso era tão frio. Havia muitas lendas envolvendo a colina.
No inverno, era difícil alguém ter coragem o suficiente para ir lá.. À noite nevava, durante o dia parte derretia e depois se solidificava. O que formava um solo difícil, com neve por todos os lados e poças escorregadias por baixo. Por isso carros não conseguiam subir, mesmo com tração e correntes nas quatro rodas, por mais que acelerasse, acabava escorregando e voltando a descer. O único jeito de chegar no topo era subindo a pé e com muita força de vontade.
Katherine parou o carro entre um veículo de policia e um furgão do Instituto e pulou para fora. A subida não era muito íngreme, mas era difícil. A legista escorregou algumas vezes precisou agradecer mentalmente a presença da detetive logo atrás de si, pois se não houvesse os reflexos rápidos por perto teria rolado colina abaixo, mas não iria admitir.
A casa era enorme, havia tanta neve sobre o telhado que dava a impressão de que iria despencar. As paredes um dia foram azuis estavam desgastadas, com limo crescendo na base das paredes. Elas entraram, havia três peritos procurando pistas no hall. Camile perguntou ao que estava mais próximo e ele apostou para o corredor:
— Última a esquerda
O quarto estava vazio, apenas com o corpo no centro. O homem era um afro-americano um pouco acima do peso. Estava completamente nu, deitados de costas com os braços e as pernas bem abertas, o que fez a detetive lembra imediatamente do homem vitruviano. Estava no mesmo estado do caso do dia anterior, o que mais incomodava era o cheiro, uma mistura de fezes, urina e sangue. A legista se agachou próxima ao corpo e ficou quase quinze minutos observando ele, o que deus tempo de Camile xingar todas as gerações da familia do serial killer. Por ser um assassino em série, por ter colocado um cadáver em um lugar frio, mesmo que por dentro a casa tivesse uma temperatura relativamente agradável, do lado de fora estava frio e era difícil subir a colina, por estar fazendo uma série de assassinatos na época mais gelada do ano.
Estavam perto do Natal, mas não era isso que incomodava, o que fazia isso era o fato tudo parecer um plano muito bem arquitetado para afetar quem se envolvia no caso. Ela tinha uma sensação estranha quanto aos motivos das mortes. Mas ainda não havia como determinar o padrão, foram duas vitimas diferentes e aparentemente sem ligações uma com a outra. Entretanto, aquele tipo de assassino não deixava pontas, não deixava fatos sem motivos. Havia algo grande por trás, e elas queriam descobrir.
Talvez os bilhetes fossem a chave: 'la vie n'est pas juste