O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 25 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 25

Leonard Krieg trabalhava como guarda noturno no prédio de escritórios (que a maioria das salas eram alugadas para a polícia e para o Davis Archer) já fazia quase quinze anos. Nesses anos, viu inúmeras nevascas violentas. E também várias vezes alguém precisava entregar algo para alguma pessoa que trabalhava lá e não tinha autorização para entrar. Por isso, não estranhou quando uma loira apareceu na recepção, flocos de neve amontoados em seus ombros cobertos com uma jaqueta de couro (que era apenas um pouco maior que ela) e na touca que cobria a maior parte dos fios dourados, e tirou um envelope vermelho vivo de dentro de um dos bolsos e pediu para ser entregue a Abigail Carter.

Ele aceitou o envelope das mão enluvadas delas, ela se inclinou um pouco sobre o balcão para frisar que deveria ser entregue à Carter e ele reparou que seu hálito quente cheirava a café e canela e teve a impressão que já havia sentido aquele odor antes. Krieg assentiu, a viu voltar apressadamente para a nevasca no exterior. Pegou um bloco de post-it e anotou rapidamente um pequeno recado, procurou na relação de salas para encontrar o escritório que Carter estava e, depois de revirar o envelope algumas vezes para tentar descobrir se havia algo perigoso dentro, ele subiu e enfiou a entrega pela fresta que tinha entre a porta e o chão.

Krieg não imaginava que a entrega no envelope atrapalharia seu descanso. Estava dormindo quando seu filho, um garoto de quase doze anos que era simplesmente viciado em desenhar, o sacudiu dizendo que tinha uma mulher ao telefone querendo falar com ele. O guarda demorou poucos segundos para estar desperto e andando em direção ao telefone, curioso para saber quem queria tanto falar com ele.

A primeira coisa que a mulher falou foi um pedido sincero de desculpas por estar atrapalhando seu descanso, ele agradeceu e garantiu que estava tudo bem. Ela se identificou, ele lembrou que já havia visto ela algumas vezes. Não muitas, afinal seu turno começava mais ou menos no mesmo horário que o dela terminava. Ele se lembrava que o guarda do turno anterior dizia que a detetive passava mais tempo no Instituto do que no escritório. Ela fez algumas perguntas, como o que a loira falou e se ele se lembrava claramente de como ela era. A detetive ficou alguns segundo calada, parecia estar pensando no que fazer e então perguntou se poderia ir ao seu apartamento para que ele dissesse exatamente como a loira era e ela pudesse fazer um retrato falado. Krieg respondeu que não seria incômodo, ele podia perceber o quanto parecia importante para ela.

Depois que disse seu endereço, precisou esperar cerca de quinze minutos para que ela aparecesse na sua porta. Ela sorriu gentil e agradeceu por ele ter deixado, o guarda deu espaço para que ela entrasse. Ofereceu água, café, ela negou educadamente e sentou no sofá que ele apontou. A detetive colocou a bolsa de carteiro entre os pés, ela tirou um caderno e uma lapiseira de dentro da bolsa. Ela batucou a lapiseira sobre o papel e pediu para ele descrever o mais detalhadamente possível a loira.

O filho de Krieg, tímido e curioso, ficou encostado perto na soleira do corredor observando seu pai e a mulher morena. Seus olhos se fixaram no modo como a mão dela dançava sobre o papel seguindo as instruções que o guarda dava. Ele estava fascinado pelo modo que ela se movia. A detetive ergueu os olhos em sua direção ao se sentir sendo observada, o garoto corou e deu um passo para trás, ela riu baixo. Fez um gesto o chamando para perto, ele cruzou os braços e sentou encolhido ao lado dela.

Ele observou como ela desenhava, como fazia os traços até que eles formassem um rosto feminino e delicado. O garoto viu como ela conseguia colocar a descrição do pai naquela folha branca de papel.

Depois de quase meia hora, ela finamente terminou de desenhar. Era o tipo de coisa que ele desejava ser capaz de fazer. A detetive sorriu gentil para ele, agradeceu e pediu desculpas outra vez antes de ir embora. O guarda riu ao ver como os olhos do filho estavam brilhando, saiu da poltrona, passou pelo filho e bagunçou seu cabelo antes de voltar para o seu quarto e descansar.