O Jogo em Vermelho
Capítulo 27
O guarda estava bebendo seu café e usava a mão livre para apalpar o pacote vermelho vivo que havia acabado de ser entregue, pelo tamanho e textura, ele supôs que era alguma peça de roupa. Ergueu os olhos e viu Camile entrar, tirando os flocos de neve dos ombros como sempre, ele estava acostumado a sempre vê-la no Instituto.
— Ei, Simons! — chamou, ela desviou do seu caminho até os elevadores para ir até o balcão
— Oh, olá, sr... — leu a plaquinha no uniforme dele, sua mente estava cheia demais para que ela ligasse o rosto sorridente dele com algum nome — Kinsella
— Temos uma entrega — pegou o pacote vermelho e colocou em cima do balcão
— Quem entregou? — ela pegou o pacote e começou a revirá-lo nas mãos, o guarda viu que ela parecia intrigada e preocupada
— Uma loira — ela ergueu os olhos — Há uns dez minutos
— Merda — rosnou, colocou o pacote no balcão, tirou um papel do bolso, desdobrou e mostrou ao guarda — Alguma semelhança?
— Exatamente igual... a srta. conhece?
— Mais ou menos
O guarda decidiu não perguntar mais coisas, não queria ser intrometido. Camile pegou o pacote e rasgou o papel para abrir. A suspeita do guarda foi confirmada, ela tirou uma jaqueta de couro que ele teve a impressão de já ter visto antes. Ela conferiu se havia algo mais no pacote e vasculhou os bolsos,encontrou um pequeno papel no bolso interno que ficava mais ou menos na altura do peito, pendurou a jaqueta no ombro e leu o recado: Eu pensei que você fosse uma guarda-costas, Fletcher.
Camile enfiou o papel no bolso do jeans e respirou fundo.
— Sr. Kinsella — o guarda tirou os olhos da pequena televisão que ficava debaixo do balcão
— Sim
— Cooper está lá em cima?
— Não, ela saiu
— Disse para onde ia?
— Não
— O senhor não pergunta sempre?
— Sim, mas estava ocupado com a loira
— Ela estava aqui quando a Katherine saiu?
— Estava, na verdade, saiu nem um minuto depois — viu a detetive cerrar os dentes — Algo de errado?
— Não, está tudo bem — bateu os dedos no balcão — Preciso ir
Camile saiu do prédio, havia mais neve caindo e ela sabia que outra nevasca forte estava a caminho. Estava preocupada, caminhou em direção a rua paralela ao Instituto, onde sabia que Katherine costumava estacionar. Talvez a legista ainda estivesse tirando a neve acumulada ao redor das rodas. Assim que fez a curva, viu o carro coberto de neve. Respirou fundo e se aproximou, a única prova que alguém havia se aproximado era o fato de haver alguma neve retirada do lado da roda dianteira que ficava mais perto dela e a pá jogada no chão.
Vasculhou a neve, havia resquicíos de dois pares de pegadas.
Camile chutou a pá, a roda e o monte de neve em um ataque de raiva e frustração. Quando parou, estava suando por baixo do casaco, o rosto quente e a respiração ofegante. Parou por alguns segundos, colocou a jaqueta dentro da bolsa. Colocou o capuz sobre a cabeça e começou a caminhar em direção a um novo objetivo.
O porteiro estranhou ao ver a detetive aparecer tão cedo, e estranhou mais ainda quando, cinco minutos depois sem a bolsa e com a habitual jaqueta e luvas, ela saiu com a moto e acelerou na direção contrária de onde trabalhava.
Mesmo com as correntes nas duas rodas, a moto ainda vacilava algumas vezes sob o seu controle. Conhecia cada rua, beco e atalho da cidade. Beschi era pequena o suficiente para que ela a conhecesse melhor do que a própria cidade. Ela sabia que havia mais de um modo de entrar em prédios antigos. O seu objetivo tinha porteiro, não seria simples, mas a segurança apenas cobria a entrada comum e não a parte traseira do prédio.
Camile deixou a moto entre dois latões de lixo. Sentiu um pequeno arrepio ao perceber o quanto o beco era escuro e fétido, mas ignorou as sensações e torceu para que não houvesse baratas por ali. Com as mãos enluvadas, tirou o máximo de neve que podia de cima da tampa de uma caçamba de lixo, flexionou as pernas e usou toda força para ter impulso e pular para cima da caçamba. Seus pés escorregaram por um instante antes dela se firmar.
O muro de tijolos tinha falhas, pequenos buracos que ela podia usar para escalar. Conseguiu subir, ficou na beira do muro e, usando todo seu equilíbrio, caminhou pela beirada escorregadia até estar atrás do prédio que precisava ir. Era arriscado pular, mas ela esperava que metros de neve acumulada fossem o suficiente para suportar seu peso. Fechou os olhos, preparou mentalmente seu corpo para um impacto forte e pulou.
Não foi tão ruim, a neve fez seu trabalho.
Andou até a escada de incêndio, pulou para alcançar a ponta e puxá-la para baixo. Subiu rapidamente, o ferro estava tão frio que ela sentia o gelo debaixo da sua mão. Se encolheu com o barulho que a primeira escada fez o voltar para seu lugar. Subiu até a cobertura, pulou a mureta e, por causa do vento forte e congelante, até a porta. A maioria das portas eram abertas apenas pela parte interna, mas os prédios antigos de Beschi eram abertos pelos dois lados, apenas se precisava de uma chave. Claro que ela não tinha, mas tinha a chave que todos os policiais tinhas: arma.
Tirou a pistola do bolso, pegou o pequeno silenciador em um dos bolsos da jaqueta, encaixou no cano, mirou na fechadura e atirou. O som dela estourando com três tiros foi mais alto que os próprios tiros. Camile entrou , tirou o silenciador, o guardou e encaixou a pistola no coldre. Desceu as escadas e entrou realmente no prédio.
Último apartamento à direita.
Ela não sabia se estava certa, mas tinha que ao menos tentar. Talvez pudesse fazer algumas perguntas. Apertou a campainha e esperou. Segundos depois, ouviu um voz resmungando e a porta foi aberta. A loira arregalou os olhos ao reconhecer a garota, tentou fechar, mas Camile foi rápida o suficiente para segurar a madeira e impedir o ato.
— Solte ou esmago seus dedos — a loira forçou mais
— Vai esmagar porra nenhuma — espalmou a outra mão na madeira e começou a empurrar — Você tem muito o que explicar, Sarah