O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 43 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 44

— Você sabe, Sarah, eu realmente prefiro ficar dormindo na minha cama — Camile disse e se jogou na cama.

— Vai ser legal, eu já te levei uma vez e você gostou.

— Mas eu quero dormir — cobriu os olhos com os braços.

— Você sempre quer dormir — Sarah subiu na cama, engatinhou para ficar em cima dela — Não sei se percebeu, é só eu e você.

— Você sempre sai com seus amigos.

— E você não é minha amiga?

— Acho que sim.

— Acha?

— Se você diz.

— Se eu digo? — apertou o nariz da garota — Camile Fletcher Simons, você realmente disse isso?

— É, eu disse — tirou os braços dos olhos, com um leve sorriso ela encarou a garota — Vou ser punida por isso?

— Vou te obrigar a comer duzentas pizzas.

— Duzentas?

— Quer mais?

— Quero saber desde quando isso é um castigo.

— Você é uma idiota.

— Eu posso lidar com isso.

— Muito idiota.

— Ainda posso lidar com isso.

— Minha idiota linda.

— Ah — arregalou levemente os olhos e corou — Com isso eu não posso.

— Então levante sua bunda branca desta cama, vista alguma coisa, coloque sua jaqueta e saia comigo.

— Mas Sarah...

— Vamos — agarrou seus pulsos, puxou, Camile sentou e segurou sua cintura para não deixar ela cair da cama — Vai ser bom.

— Por que você tem essa fixação para me tirar de casa?

— Porque você tem que socializar, tem que sair desse casulo e respirar ar puro.

— Eu gosto daqui.

— Mas tem que sair, se divertir, vamos!

— Você é uma chata — envolveu a sua cintura e apoiou a cabeça no seu ombro, Sarah sentiu uma diferença de sentimento na garota.

— Ei, o que foi, Mile?

— Nada.

— Você sabe que pode me falar.

— É só... eu não gosto de sair, eu não gosto de ir para a rua.

— Você tem medo? — Camile fungou levemente — Ei, querida não tem problema nenhum em sentir isso.

— Eu sou uma covarde.

— Não, não é — acariciou sua nuca delicadamente — Considerando o que aconteceu, seria estranho você não ter medo.

— Mas quais são as chances de acontecer algo parecido?

— A mínima possível — Sarah achava estranho o modo como era confortável estar tão perto da garota, sentia, ao mesmo tempo, que estava protegida e que deveria proteger, como uma troca, e queria que Camile sentisse ao menos que estava segura — Mas não vai acontecer.

— Por que acha isso?

— Porque eu não vou deixar — a garota riu baixo, afastou o rosto para encará-la.

— Você é a Mulher Maravilha para me salvar?

— Está mais para Batman

— Você é uma idiota.

— Que você adora.

— Mas uma idiota.

— Eu sei, você também é — Sarah sorriu, estava perto o suficiente para ver seu reflexo nos olhos castanhos da garota, murmurou — E linda.

— Você realmente gosta de falar isso.

— Para você não esquecer.

— Todas as amizades.

— Talvez as melhores.

— Você é amiga assim de mais alguém?

— Não — enfiou os dedos no cabelo dela — Não acho que eu queira outra amizade assim.

— Isso é realmente bom — Camile respirou fundo e falou mais baixo — Gosto das coisas assim.

— Eu também gosto — acariciou sua nuca — E muito.

— Isso é estanho.

— Por que?

— Você sabe, ninguém nunca foi... foi legal assim comigo.

— Seu irmão e seu pai nunca foram legais?

— Foram, mas estou dizendo legal sem que fosse uma obrigação.

— Olhe para si, é humanamente impossível não gostar de você ou não ser legal.

— Então tem muito não-humanos por aí.

— São filhos da puta, é diferente.

— Já pensou que talvez a pessoa diferente seja você?

— Eu?

— É, você que seja diferente por gostar de mim.

— Por que diabos você acha tão difícil de entender que você é uma pessoa legal?

— Porque eu sempre fui a estranha.

— Você não é estranha, pequena.

— Pequena?

— Você é pequena.

— Eu tenho quinze anos, claro que eu sou pequena. Mas eu vou crescer.

— Sim, vai crescer, mas por enquanto é pequena.

— Idiota.

— Outra vez me chamando assim?

— Eu gosto de te chamar assim.

— Eu já notei.

Camile apoiou a testa no ombro da garota e fechou os olhos, sentindo como era confortável e seguro estar ali. Ela se perguntava se algum dia se sentiria assim com alguém. Ou se sentiria assim se tivesse conhecido Sarah de algum outro modo. Se havia alguma relação com o fato de ter sido salva por ela.

— Vai sair comigo ou não? — Sarah perguntou, podia sentir a respiração quente dela no seu ombro.

— Vou, Sarah — “vou fazer tudo o que você pedir”, Camile pensou, se sentindo um pouco idiota por se sentir assim — Você sabe que eu vou.

— Só porque eu insisti.

— Ou só porque é você.

— E depois sou eu que tenho mania de fazer alguém corar...

— Fique calada.

— Idiota.

— Acho melhor eu parar de tentar.

— Também acho.

Camile havia acabado de colocar a arma no coldre, pronta para sair de casa, ela estava um pouco (ou muito) irritada por ter acordado sozinha na cama. E ainda mais por não ter percebido quando Sarah havia escorregado para fora por estar verdadeiramente exausta. Ela já havia xingado a namorada com todos os palavrões que existiam quando Sarah se esgueirou para dentro do apartamento silenciosamente, deixou a caixa que carregava na mesa de centro, se aproximou da garota e envolveu sua cintura com os braços.

— Hey, baby.

— Oi — resmungou e enfiou o celular no bolso.

— Está de mau humor?

— Não.

— Mentirosa — riu — Admita!

— Não tenho nada para admitir.

— Ah, meu amor — riu, beijou seu pescoço levemente — Isso é por que eu não estava na cama de manhã?

— Claro, Sarah — ela bufou.

— Eu não esqueci que é o seu aniversário — segurou sua cintura e fez ela ficar de frente para si — Eu fui buscar seu presente.

— Não poderia ser depois?

— Não, eu pretendia chegar antes que você acordasse — Camile revirou os olhos — Não fica assim comigo.

— Eu odeio acordar sozinha

— Eu sei, amor, eu sei — soltou ela e pegou a caixa — Mas eu precisava buscar seu presente hoje de manhã — Camile ergueu as olhas quando viu a caixa, tinha o tamanho de uma caixa de sapatos e era cheia de buracos — Acho que você vai gostar.

— O que tem aí? — ela tirou a tampa da caixa, o pequeno filhote de gato preto com pelos brancos no pescoço/peito miou baixo e olhou para ela — Meu Deus, que criatura mais fofa!

— Pega ele — Sarah disse sorrindo, ela adorava ver os olhos castanhos brilharem — Vamos, meu amor, pega.

— P-posso? — sorriu, a mulher sorriu também, ela adorava ver como a namorada podia ser fofa, adorável e quase infantil.

— É seu — Camile pôs as mãos dentro do da caixa, envolveu o pequeno gato.

— Como você sabia?

— Uma vez você disse que queria ter um gato, porque eles são fieis e fofo. Não precisam de espaço e nem fazem sujeira quanto cachorros.

— Você se lembrou...

— Claro — Sarah colocou a caixa na mesa atrás de si — Eu sempre ouvi tudo o que você falou.

— Isso é amável — ela apertou um gato contra si, segurando ele com uma mão.

— É só atencioso — encolheu os ombros, Camile riu baixo, com a mão livre, segurou a nuca da namorada e a puxou para um beijo delicado — Eu adoro quando você me beija assim.

— Eu tenho que trabalhar, não vou te beijar de algum outro modo.

— Você pode me beijar de qualquer modo a qualquer hora — riu quando o gato escalou o ombro de Camile e enfiou o focinho no cabelo dela — Qual o nome dele?

— Depois eu penso — segurou o gato e puxou, para que ele parasse de enfiar as unhas minúsculas em sua camisa — Ele está tentando me furar.

— Ele gostou de você.

— Essa é a coisa mais fofa do mundo.

— Combina perfeitamente com você.

— Os anos passam e você continua uma idiota.

— Eu sei — passou os dedos pela linha da mandíbula da garota — E louca de amor por você.