O Jogo em Vermelho
Capítulo 09
A grama era verde, macia e confortável. A garota e o garoto estavam deitadas na grama, um do lado do outro olhando para o céu, observando as nuvens brancas na vastidão azul clara.
— Você já sabe o que vai fazer depois do colégio? — ele perguntou
— Medicina, talvez
— Parece bom — ele sorriu — Você vai ser a melhor da sua turma
— Assim você me deixa sem graça
— Qualquer um te deixa sem graça
— Seu idiota — ela levantou — A culpa não é minha
— Sei, sei, volta aqui — ele agarrou seus ombros e a puxou de volta ao chão — Prometo que vou parar
— Você parece irritada — Camile disse assim que entrou na sala de Katherine, depois de empurrar a porta com um pé, carregando relatórios
— Isso não é surpresa
— Parece mais do que o comum
— Hm — ela sequer ergueu os olhos para a detetive
— Não diga que isso tem algo a ver com eu não ir com você para a cena — Katherine ergueu os olhos
— Talvez
— O que? Não, não, não e não. Não diga isso
— Por que? Você sempre vai e dessa vez não foi, poderia ter ido, a única vez que realmente deveria ir
— Você reclama toda maldita vez que vou, agora vai reclamar quando não vou? Sério, Cooper? Você reclama de tudo o que eu faço, o que diabos quer de mim? — Camile estava irritada agora, muito irritada — Vamos, me diga.O que eu fiz de errado dessa vez? Está bem eu não fui com você para cena do crime, mas você sempre reclama e diz que é desnecessário que eu vá. Estou tentando ajudar, esse é o meu trabalho, ajudar você. Entende? — se aproximou, jogou os relatórios em cima da bagunça de papéis e apoiou as mãos na mesa — Eu não sou mais uma babaca com músculos que pode tirar a neve que se acumula ao redor do seu carro. Eu não sou só uma policial burra que acha que pode fazer qualquer coisa só porque tem uma arma. Então abra a porra da boca e diga o que quer que eu faça
— Quero que saia daqui — apoiou o queixo no punho — Saia agora
— Ótimo, vai continuar a mesma merda
— Saia
— E se eu não quiser?
— Você perguntou o que eu quero que você faça e estou respondendo
— Não foi nesse sentido que perguntei
— Eu quero que você pare de tentar ajudar, seu trabalho não é ser minha terapeuta
— Não estou tentando ser sua terapeuta
— Parece
— Estou tentando ser sua amiga
— Como se você se importasse de verdade
— Talvez eu me importe
— Você está tentando ser legal comigo
— Estou sendo sincera, é diferente
— Que seja, Simons, que seja, eu não me importo
Camile não respondeu, agora estava tão frustrada e irritada que poderia esganar Katherine, quebrar o nariz dela parecia uma boa ideia. Saiu e bateu a porta com força, por que ela continuava tentando? Se sentia um idiota total, era quase como tentar socializar com uma porta. E uma porta que tinha o péssimo hábito de dar foras e respostas rudes. Era uma porcaria completa ser tão teimosa, ela sabia que assim que ficasse calma iria tentar uma nova aproximação.
Ela desceu para seu esconderijo habitual, o laboratório de toxologia.
— Por que essa cara?
— Adivinha — sentou na banqueta em frente a Laurie, que terminava um relatório
— Katherine te dando coices outra vez?
— Exato — Laurie deixou o relatório de lado — Por que eu não desisto?
— Porque você se importa
— Por que eu me importo?
— Porque você é uma boa pessoa
— Resposta errada
— Você quer que eu te chame de idiota
— Apenas que diga a verdade
— Eu acabei de dizer
— Eu… — fez um som parecido com rosnado — Às vezes eu tenho vontade de quebrar a cara dela, sabe? Pra ver se ela vai aprender que talvez eu seja mais forte que ela
— Talvez, Cam? Já viu o seu tamanho? Você é bem mais forte que ela
— Eu sei, é só… — suspirou e deixou os ombros caírem, cansada — Eu só…
— Não, não, esse olhar não vale — Laurie tombou a cabeça observando a garota — Olhos de cachorro abandonado são golpe baixo
— Eu não tenho olhos de cachorro abandonado
— Filhote de gato jogado na rua
— Isso não soa agradável… sério, Laur — batucou os dedos na bancada — Eu só queria saber o porquê dela me odeia tanto
— Ela não te odeia, não dá pra te odiar, nem ao menos não gostar de você. Olhe, você é tão amável, adoravelmente fofa por trás dessa sua fachada de detetive
— Ou você está mentindo ou ela é uma exceção
— Não estou mentindo e ela não é exceção, ela apenas está tentando fugir da obrigação de gostar de você
— Obrigação? Parece mais obrigação de me odiar
— Está bem, já ouviu falar que as pessoas fingem odiar quando amam muito alguém, que às vezes sabem e às vezes não sabe desse fato?
— E você já ouviu falar que a vida não é um clichê?
— Talvez exista um motivo para existir clichê
— Talvez a imaginação de quem os escreve
— Okay, talvez ela não esteja apaixonada por você
— Finalmente
— Mas talvez ela queira transar com você
— O que? — se ela estivesse bebendo algo provavelmente esse liquído iria para do outro lado do país — Eu era fofa e agora eu sou alguém… não sei, que desperta desejo sexual?
— Isso você nunca deixou de ser
— Ela não quer transar comigo
— Não sabe o que perderia, pelo menos a parte de dormir
— A parte de dormir?
— Seus seios são ótimos travesseiros, quentes e macios
— Eles são normais
— Continuam quentes e macios
— Está bem, você nunca vai esquecer isso?
— Quase ter feito sexo com você? É claro que não, principalmente a parte de você desistir antes mesmo que ficássemos completamente sem roupa
— Eu disse que não podia beber — Camile apontou o dedo indicador, a acusando do fato — Eu te avisei que poderia desistir se ficasse alterada demais
— E se não ficasse tanto?
— Você não teria dormido aquela noite
— Isso parece ameaçador
— Pare com essa cara de tarada
— Pare com essa cara de tarada — repetiu, sorrindo do olhar que a detetive lhe lançou
— Idiota
— Insana
— Babaca
— Louca
— Imbecil
— Tesão
— Está bem, pare, esqueça isso
— É só uma brincadeira
— Você precisa trabalhar
— Você também
— E tirar da sua cabeça essas ideias idiotas
— Não são idiotas
— Claro que são, Katherine não está apaixonada por mim e nem quer transar comigo, ela apenas me odeia
— Se quer acreditar nisso, acredite, eu vou continuar achando que ela que algo com você
— Para você todo mundo quer alguma coisa comigo
— Por que não iriam querer?
— Deixe pra lá — revirou os olhos — Eu não preciso de um relacionamento, então eu não preciso achar que as pessoas quando me odeiam na verdade estão apaixonadas por mim
— Tudo bem — ergueu as mãos — Desisto, você ganhou
Alguns dias eram realmente difíceis, e aquele foi. Katherine demorou alguns minutos para encontrar um canivete para conseguir tirar o lacre da garrafa. Ela passou no mercado enquanto voltava para casa, o objetivo era comprar algum estoque de comida, mas isso não aconteceu. Acabou comprando uma garrafa de leite, uma lasanha de legumes congelada e uma garrafa de vodka. A mais barata da loja, provavelmente seria a pior coisa para se beber, mas ela não se importava. Ela abriu a garrafa enquanto esperava a lasanha terminar de esquentar, encheu um copo de vidro e sentou na bancada mesmo para comer e beber.
Era uma porcaria, tinha gosto de cera de ouvido.
Mas era algo alcoólico, isso era o importante. Se pudesse manter ela bêbada até a hora de dormir e não deixar sua mente viajar em sonhos, era bom. Mesmo que cada gole quase a fizesse vomitar e estivesse acabando com seu estômago, que se dane, era uma fuga do mundo. Quando percebeu, já tinha bebido metade da garrafa. Se deitou no sofá, com a barriga para baixo e o rosto imprensado contra uma almofada.
Não pensar, era melhor não pensar.
Abigail trazia memórias boas e ruins, o problema de memórias era o fato delas nunca mais poderem voltar. Ela tinha a sensação de que nunca mais seria feliz. Era por isso que não iria deixar Carter se aproximar outra vez, e também deixar Camile se aproximar. Mesmo que a detetive fosse incrivelmente insistente, ela iria continuar chutando a garota para fora.
Katherine não queria que alguém se importasse com ela e queria menos ainda se importar com alguém.
O modo como agiu no açougue foi uma puta escorregada do seu comportamento. Não deveria agir daquele modo, foi gentil demais. Entretanto, pareceu quase desumano não ajudar. Ela não queria ser um monstro desumano, ela só queria ser fria e distante.
Estava curiosa para saber o porquê de Camile parecer tão enjoada, quase doente, no açougue. Mas, para descobrir, teria que aceitar a proposta de amizade. Não, péssima ideia.
Sua única amiga era a bebida.