O Jogo em Vermelho
Capítulo 48
Silêncio quase absoluto.
O bisturi caiu e quicou levemente. Dois segundos depois, Camile caiu de joelhos. As mãos pressionando com força o buraco em sua barriga por onde saia uma assustadora quantidade de sangue. Ela não planejava levar um tiro, foi apenas seu instinto de manter as pessoas ao seu redor protegidas. Ela morreria por Katherine, não era isso que ela estava fazendo?
Podia ouvir os sons que escapavam da garganta de Katherine enquanto ela tentava gritar com o pano sujo enfiado em sua boca, o som dos pés da cadeira sendo arrastados no chão enquanto ela tentava escapar. Fugir, se livrar do que a prendia para poder se aproximar. Ela se debatia desesperadamente. Por dois motivos. Poderia tentar ajudar Camile, afinal, ela era médica. Clinica geral, aquele cara que te atende primeiro, que pode resolver algumas coisa. Ela era capaz, ela podia ajudar Camile, ela só precisava escapar daquela maldita algema.
E o segundo motivo era, bem, a mulher por quem ela estava apaixonada estava sangrando no meio da sala aos pés da ex-noiva.
Camile sentiu o sangue quente subir pela sua garganta e encher sua boca, ela abriu e vomitou o líquido vermelho. Sarah estava paralisada, segurando a pistola com tanta força que sua mão tremia. O silêncio, antes cortado pelo som de Katherine completamente desesperada em sua cadeira, foi interrompido por passos pesados na escada. Camile deitou de lado, sem se importar com o vômito de sangue, a poça que se formava da sua hemorragia era mais preocupante do que o quanto ela ficaria suja. Ela se encolheu como uma bola, cuspindo sangue que subia pela garganta e tentando conter o sangramento.
— Abaixe a arma — uma voz masculina e forte soou da porta, um homem grande e forte apontava sua pistola diretamente para Sarah e era coberto por dois outros homens, os três vestiam o uniforme policial oficial —Ou eu atiro!
Sarah engoliu seco e deixou a arma cair. O homem avaliou a situação. Nenhuma das três pareciam realmente ameaçadoras. A garota com a pistola parecia em estado de choque, como se não pretendesse machucar ninguém e tivesse o feito. A garota na cadeira parecia completamente desesperada para se ver livre. E a garota no chão precisava urgentemente de atendimento médico, ou morreria naquela poça de sangue.
Por sorte, a denúncia havia avisado que poderia haver algo assim no local. O homem à sua esquerda, Erick, chamou pelo rádio e logo haveria uma equipe de paramédicos atendendo ela. A loira alta era a ameaça, mesmo em seu aparente estado de choque. Há muito tempo Bryan Young não tinha uma situação dessa para resolver.
Erick era o que tinha uma aparência mais simpática, então ele se aproximou de Katherine para libertá-la. Poderia tentar acalmá-la, tentar fazer ela não ter uma crise, não surtar. E se não pudesse, ela era pequena o suficiente para ele segurar sem a chance de machucar. E ele sabia que precisava ser cuidadoso, podia ver cortes nela e hematomas. Ela estava machucada também.
David, o detetive, pegou a algema presa em seu cinto e se aproximou de Sarah. E como Bryan passou anos trabalhando como segurança em um hospital, ele sabia lidar com pessoas feridas. Se ajoelhou ao lado de Camile, que havia desistido de esconder a dor e gemia em agonia. Ele pôs a mão em seu ombro e ela o olhou.
Talvez fosse uma ilusão, algo causado pela dor de morrer, mas o homem que ajoelhou ao seu lado disposto a ajudá-la se parecia assustadoramente com seu pai. Os olhos castanhos claros, que perto do mar nos dias ensolarados pareciam azulados, no parque perto das árvores tropicais eles pareciam esverdeados. E no sol, eram dourados. Eram lindos e perfeitos. O cabelo, em corte militar, era negro como carvão. Ela podia imaginar como ele era ao toque, macio e sedoso, viciante. Ele tinha o queixo quadrado, sem nenhum pelo e deveria ser macio como a pele de um bebê.
A mão dele era quente, apertava levemente seu ombro, tentando deixar ela confortável e segura. Então ele abriu a boca e falou, ela teve certeza absoluta de que estava enlouquecendo. Era como chocolate, grave, mas suave. Forte, mas delicada. Ele fixou os olhos no dela, tentando mantê-la consciente e ajudou a pressionar o ferimento. Ele ouviu a mulher que Erick soltou gritar desesperadamente tentando se aproximar, mas ela parecia desesperada e histérica demais para ter alguma utilidade.
— Ei, não feche os olhos — escorregou a mão pelo seu braço e segurou uma mão, apertou, estava fria sob o sangue quente — Não durma.
— Dói... — murmurou. Ela só conseguia sentir a dor da bala e a mão quente do homem segurando, só conseguia ver o rosto que, mesmo que ela não o conhecesse, era familiar. Nem mesmo Katherine desesperada, Sarah sendo contida, nem isso conseguia entrar na bolha que a agonia havia formado ao redor dela e dele.
—Eu sei que dói, eu sei, mas você é mais forte do que isso. Ele estão chegando, eles vão te ajudar, eles vão te salvar — ele acariciou as costas da mão dela com o polegar, do mesmo modo que ele fazia com a filha dele e pareceu ter o mesmo efeito — Presta atenção em mim — só precisava mantê-la daquele modo durante os minutos em que a equipe levaria para entrar — Eu tenho olhos bonitos, todos dizem isso, então fique olhando para eles,
— Já estou olhando.
— Acha bonitos?
— São lindos — tossiu um pouco, virou o rosto para cuspir sangue antes de falar com uma voz fraca — Você parece meu pai.
— Oh... — ele ficou sem palavras por um segundo, mas os olhos dela pareciam gigantes e quase infantis enquanto o encaravam — E seu pai alguma vez mentiu para você?
— Acho que não.
— Então eu também não. Acredita em mim?
— Estou tentando.
— Continue tentando. Eu prometo que vai ficar tudo bem.
— E se não ficar?
— Vou atrás de você e faço ficar tudo bem — ela sorriu levemente, fechou os olhos, nem sabia o nome dele mas conseguia acreditar nas palavras dele — Não, não, não, querida. Lembra do que eu falei sobre fechar os olhos? — ela gemeu e abriu novamente — Viu, é isso aí.
— Estou cansada.
— Eu sei, logo você vai descansar. Pense... Uma garota bonita como você, deve ter alguém por quem vale a pena, não tem? Tem alguém que você goste? Não precisa ser um romance, mas deve ter alguém na sua vida que está te esperando — Camile assentiu. Ela tinha Katherine... mas também tinha Laurie, era sua melhor amiga. Tinha Kriss. E ela se importava com Brown, com Abigail, até mesmo com Margo. E Sarah, ela não queria que tudo terminasse daquele modo — Então, mantenha-se acordada por quem se importa com você. Tem alguém te esperando?
— Kriss — murmura.
— Namorado?
— Meu gato.
— Um gato precisa do seu humano de estimação — isso ela sorrir levemente, manter os olhos abertos parece quase impossível.
Os paramédicos chegaram, dois se agacharam perto dela. O terceiro se aproximou de Katherine, Erick segurou ele e o paramédico conseguiu aplicar o calmante nela e fazê-la para de se debater violentamente. Os médicos providenciaram o modo para carregá-la até a ambulância.
— Ela vai ficar bem? — Bryan perguntou, assim que ele soltou ela, viu ela fechar os olhos.
— Vamos fazer o possível.