O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 48 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 49

Katherine acordou lentamente, primeira coisa que viu foi o teto claro e uma lâmpada iluminando o quarto. Devagar, começou a perceber onde estava e tentou descobrir porque estava ali. Sentia um acesso enfiado no seu antebraço e olhou, seus olhos seguiram o tubo que colocava soro e remédio em suas veias. Respirou fundo, sentia um curativo na barriga e incomodo por ali e no peito. O que diabos estou fazendo aqui? Ela tentava se lembrar, mas a última lembrança clara era Camile levando café da manhã para ela depois de uma noite de nevasca. Qualquer coisa depois disso ficava confuso. Ela queria que a detetive estivesse ali para explicar o que estava acontecendo.

Ouviu o som da porta se abrindo, um homem alto apareceu. Ela se lembrou da última vez em que acordou em um hospital, a diferença era que daquela vez ela se lembrava perfeitamente. O homem era forte, estava usando jeans, camisa social, um casaco, uma pistola no coldre e um distintivo no seu cinto. Ela achava que tinha visto ele, e visto em algum momento daquelas horas (ou dias, não sabia), entre os donuts e acordar na cama.

— Boa noite, doutora — ele se aproximou da cama, andava de um até delicado para um gigante daquele — Como se sente?

— Confusa.

— Se lembra de mim?

— Tenho a impressão de que te vi antes... — ele sorriu levemente, mostrando que compreendia — O que houve?

— É uma longa história — ele olhou o saco de soro.

— Onde está Camile?

— No segundo andar — Katherine engoliu seco, ela conhecia o principal hospital de Beschi, onde tinha certeza que estava, era pra lá que funcionários públicos eram levados. Sabia que no segundo andar os quartos em que os pacientes mais graves eram internados — Não precisa dessa cara, eles vão transferir ela para um quarto comum logo.

— Eu quero vê-la.

— Aguenta andar? Estamos no último andar.

— Aguento.

Ela esperava que aguentasse. O homem chamou uma enfermeira, que pegou um mastro (n/a – não sei o nome desse negócio, é aquela coisa de ferro com ganchos e rodinhas onde penduram o saco de soro pro paciente andar), trocou o saco quase vazio por um novo e pendurou no gancho.

— Meu nome é Bryan — ele disse. Passou um braço ao redor dos ombros dela, Katherine percebeu que não era a primeira vez que ele fazia aquilo — Está com frio?

— Um pouco — ele tirou o casaco e pôs gentilmente em seus ombros. Era grande, ela gostou, assim não se sentiria tão desprotegida com a roupa aberta nas costas — Ah, obrigada.

— De nada — ele sorriu. Katherine nunca conseguia não se sentir constrangida com alguém sendo gentil com ela — Por que essa cara de nervosismo?

— Não consigo lidar muito bem com pessoas sendo gentis comigo — ela falou a verdade antes de pensar.

— Eu acredito no pensamento que devemos tratar os outros do mesmo modo como queremos ser tratados — ele ergueu as sobrancelhas, entraram no elevador e ele apertou o botão — E acho que você não sabe é lidar com pessoas.

— Por que?

— É impossível não ser gentil com você — ele viu ela erguer as sobrancelhas pelo reflexo nas portas metálicas — Seja gentil com ela, não faça aquela cara de desespero.

— Ela está tão mal assim?

— Essa cara mesmo — Katherine engoliu seco e tentou amenizar sua expressão — Ela só está machucada.

— Na ala de pacientes graves.

— Ela estava pior antes, confia, você já vai entender.

Ela respirou fundo, deixou ele guiar até o último quarto do corredor à esquerda. Pararam ali, Bryan bateu na porta e chamou:

— Cam!

— Estou tentando dormir — a voz sonolenta da detetive soou.

— Tenho uma visita para você.

— Já passou do horário.

— Sério? Você ameaçou me matar para ver ela e agora quer dormir?

— Espere, o que? — ele riu baixo.

— Sua garota está aqui — Katherine corou levemente — E ficou vermelha agora — ele abriu a porta — Vocês precisam realmente conversar.

Bryan ajudou ela a andar até ficar ao lado da cama, acenou para Camile e saiu. Katherine avaliou Camile. Viu como ela parecia pálida e cansada. Algo no lugar mostrava que ela estava doente e frágil. Talvez os tubos enfiados nela, o lugar realmente claro e limpo demais, a roupa de hospital que faziam ela parecer mais jovem.

— E aí, Kathy — disse, interrompendo o silêncio, nele o som dos bipes constantes do monitor cardíaco chegava a ser irritante.

— E aí, Cammy.

— Como você está?

— Melhor agora — isso fez a detetive sorrir levemente — Mas... mas eu não faço ideia de porque estamos aqui.

— Bem, vamos resolver isso — Camile se afastou um pouco para o lado — Acho que se você tomar cuidado, pode deitar aqui.

— Não vai te machucar?

— Não — sorriu, Katherine consegui sentar e depois deitar, tomando todo cuidado possível. Camile passou um braço ao redor dos ombros da legista, que deitou a cabeça no seu peito — Qual a última coisa que você se lembra?

— Café da manhã depois de passar a noite no escritório com você, por causa da nevasca.

— Certo... Como eu começo?

— Que tal me dizendo há quanto tempo isso aconteceu?

— Cinco dias. Acho que podemos começar com Margo...

— Margo?

— Aquela ruiva no bar.

— E vocês são intimas o suficiente para chamarem-se pelo primeiro nome?

— Está com ciúmes?

— Estou!

— Não precisa disso, Kathy — riu baixo — Vamos, você vai entender no final.

— Okay... — respirou fundo, mesmo com cheiro de hospital, havia o cheiro doce de Camile — Então diga.

Camile resumiu tudo. Contou que Margo levou Katherine, como ela própria foi atrás de Sarah depois de perceber que era Sarah. Sobre as conversas, as torturas. Foi particularmente complicado contar os últimos momentos antes de Bryan ajuda-las. Afinal, não era fácil dizer “e ela te torturou”. Nesse momento, quando soube que os curativos e a sensação incômoda eram causadas por Stean, Katherine gemeu baixo e se encolheu contra Camile. A detetive fez uma pausa antes de continuar.

Katherine ficou alguns minutos calada depois que Camile terminou de falar. Ela fechou os olhos e afundou o rosto no peito da detetive enquanto imaginava as cenas, sua mente começava a lembrar e ela percebeu o quão doloroso isso era. Talvez ela tenha ficado tão desesperada com a cena de Camile morrendo em uma poça de sangue que sua mente simplesmente tentou esquecer e voltar para o último momento em que estavam juntas e seguras.

Camile começou a brincar com o cabelo claro, enrolando seu dedo nos fios e formando cachinhos, que eram desfeitos quando ela passava os dedos outra vez.

— Você é uma idiota.

— O que? — Camile esperava qualquer coisa, menos ser chamada de idiota com tanta raiva na voz dela.

— Você puxou a arma na sua direção — Katherine lembrou da cena, o cano apontado para seu coração e, no segundo seguinte, os dedos de Camile envolvendo o pulso de Sarah e mudando o alvo — Você deixou ela atirar em você! Você levou um tiro para me salvar!

— E você deveria me agradecer.

— Obrigada... mas você foi uma idiota de qualquer maneira.

— Kathy...

— Kathy o caralho, não vem com essa voz de filhote abandonado, você sabe que fez merda — ergueu a cabeça, encarando a detetive com raiva — Você fez merda.

— Kathy.

— E se tivessem demorado? E se tivesse acertado algum lugar vital?

— Kathy.

— Você poderia ter morrido!

— Katherine Susan Cooper, cala a sua boca.

— Não me manda calar a boca! Olha a merda que você fez! Olha o que poderia ter... — Camile, que não tinha parado de brincar com o cabelo em seus dedos, segurou sua nuca e a beijou. Katherine sentiu a tensão e a raiva que sentia, o medo também, se esvair. Camile parou o beijo sem se afastar muito.

— Isso sempre funciona — murmurou e riu baixo.

— Vai se foder — cerrou os dentes, Camile riu e beijou a ponta do seu nariz — Eu deveria espancar você por ter feito isso.

— Kathy, olha para mim — a legista a olhou, estava claro nos olhos azuis que ela detestava a ideia de perder Camile — Se eu não tivesse feito aquilo, você não estaria aqui.

— Mas talvez você não estivesse aqui...

— Mas nós estamos, Kathy — beijou sua testa — E pretendo continuar aqui