O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 12 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 12

"A garota não abriu os olhos, preferia ficar daquele modo. Parecia muito mais seguro do que antes.

Sentiu as mãos da namorada em suas costas, tocando delicadamente a pele quente dela. Ela fez carinho de cima para baixo, se aproximou e beijou seu ombro. A garota gemeu baixo enquanto sentia os lábios em seu ombro. A garota subiu a mão e entrelaçou os dedos nos fios curtos e recém coloridos, era um pouco estranho vê-la com o cabelo mais claro que o comum.

Beijou seus ombros, descendo pela linha da coluna vertical. Sorriu quando percebeu a pele se arrepiar. Era viciante tocá-la. Gostava do cheiro, da sensação, do sabor... de tudo.

Era tão macio que ela ficaria ali o dia inteiro."

Era uma sensação estranha. De algum modo, era algo confuso. Katherine não precisou abrir os olhos para saber que não estava em sua própria cama. Havia um cobertor em cima dela, ela conhecia seu corpo o suficiente para saber que estava nua debaixo dele. E também sequer precisava se mexer para saber que não estava sozinha, podia ouvir a respiração atrás de si. Fazia muito tempo que não acordava com alguém na mesma cama e mais tempo ainda que não acordava na cama de outra pessoa. Virou o rosto para o lado, em breve se lembraria do que aconteceu à noite. Camile estava deitada de bruços, ela parecia ter fugido do cobertor. Seu rosto virado para o outro lado e não estava nua como Katherine, estava vestida apenas com uma boxer preta que fez a legista perguntar a si mesma se Camile era fofa ou sexy naquele momento. Seus olhos foram atraídos pelos arranhões.

Muitas, muitas linhas vermelhas marcavam a detetive. Seus ombros e sua nuca pareciam em carne viva. E as costas, até mais ou menos o centro, também estavam fortemente marcadas. Desceu os olhos e se arrependeu de ter prestado atenção, de ter sido curiosa, ela viu o que menos gostava de ver em qualquer um: cicatrizes.

Várias, isso incomodou muito. Pequenas e finas linhas brancas na lombar da garota.Engoliu seco, sua mente dizia que ela não deveria se importar. Mas seu lado irracional jogou uma raiva em seu corpo. Ela sentiu uma enorme necessidade de proteger a detetive, saber o que havia acontecido.

Camile resmungou alguma coisa e virou o rosto em sua direção. Ela ergueu as sobrancelhas com o olhar tão fixo da legista.

— O que foi? — sua voz estava levemente rouca

— Nada — achou melhor não perguntar, sabia que não seria muito educado perguntar algo do tipo "quem fez isso com você?" — Ressaca

— Hm — fechou os olhos e enfiou o rosto no travesseiro — Hm — fechou os olhos e enfiou o rosto no travesseiro — Dormiu bem?

— Uhum — na verdade, ela não se lembrava da última vez que havia realmente dormido bem, mas não seria capaz de admitir que poderia dormir todas as noites ali — E você?

— Sim — ergueu o rosto e franziu o cenho — Estamos atrasadas?

— Não

Katherine deu um meio sorriso. Camile assentiu e enfiou novamente o rosto no travesseiro. Cooper se arrastou para fora da cama e começou a pegar as peças de roupa largadas pelo quarto. Sentiu que estava sendo observada e olhou para cama, a detetive estava sentada, abraçada ao travesseiro, a olhando interessada. Sorriu e viu a garota corar e desviar o olhar.

— Você deveria... — pigarreou — Poderia... quer dizer. Se quiser... tome um banho. Sabe, tem... tem água quente. É... não estou dizendo que...

— Eu entendi, Simons — riu, se sentiu estranha por estar sendo gentil — Onde fica o banheiro?

— Bem em frente — coçou a nuca — Eu levo uma toalha pra você — gesticulou em direção ao monte de roupa que Katherine segurava — Você não precisa levar tudo isso...

Katherine não respondeu, deixou as roupas no chão e foi para o banheiro segurando a lingerie. Podia sentir que Camile a seguiu com os olhos e se segurou para não falar alguma besteira. Demorou alguns instantes para conseguir ajustar a temperatura para algo agradável. Fazia algum tempo que ela não acordava e tomava um banho se sentindo bem.

— Eu transei com Katherine Cooper — Camile se deitou na cama e cobriu o rosto com as mãos — Merda

Levantou e colocou a camisa que vestia na noite anterior, sem se preocupar em fechar adequadamente. Abriu o armário e pegou a primeira toalha que encontrou. Bateu na porta duas vezes antes de entrar e deixar a toalha na beirada da pia. Katherine murmurou um agradecimento. Quando Cooper voltou para o quarto, enxugando o cabela, Camile jogou uma das camisas sociais e um jeans. Ela precisou largar a toalha para segurar as roupas, franziu o cenho para a ação.

— O que foi?

— Suas roupas estão cheirando a cigarro — resmungou e se abaixou para procurar algo debaixo da cama

— Não sei se você percebeu... digamos que sou menor que você

— E...? Podemos resolver

— Hm... — ela virou um pouco a cabeça — O que está procurando?

— Kriss — bufou e esticou o braço para alcançar a bota que de algum modo foi parar ali, o gato não estava lá

— Certo... — Katherine olhou para baixo e viu o gato escuro passar entre suas pernas e sentar na sua frente — Simons? — a detetive grunhiu, indicando que ouviu, Cooper riu e apontou para baixo — Serve esse?

— Serve... — ergueu a cabeça em direção a voz e viu Kriss sentado a observando — Onde você estava? — levantou, com a bota na mão e a jogou em direção ao seu par — Sumido

Katherine achou fofo o modo como a detetive falava com o bichano. Ela tinha que admitir que estava começando a ter uma opinião positiva demais sobre Camile. Não era uma fã de gatos, mas sabia que eles não gostavam de barulho e agitação. Supôs que Kriss havia se escondido em algum lugar quieto longe das duas. Pensando sobre isso, imaginou o quanto elas incomodaram os vizinhos. Na verdade, tinha que admitir que ela foi realmente escandalosa na noite anterior.

— Você deveria se vestir — Camile disse enquanto procurava um par de meias — Eu te ajudo

Katherine tentou recusar, mas logo a detetive estava atrás dela segurando a camisa para que vestisse, Camile ajudou a arrumar a peça, tomando cuidado para não tocar demais nela. Deu a volta nela e começou a fechar os botões. Katherine observou os dedos fazerem o trabalho rapidamente. Camile dobrou a manga, a deixando ajustada ao tamanho do braço dela. Katherine vestiu o jeans enquanto Camile procurava seu cinto. A legista engoliu seco quando a garota se ajoelhou para dobrar a barra da calça. Podia ver a nuca arranhada e isso a fez pensar se poderiam fazer tudo outra vez. Katherine apertou o cinto para garantir que seu jeans ficasse no lugar, agora faltava apenas o sapato, que estava na sala.

Katherine aproveitou o tempo que Camile demoraria para tomar banho e se arrumar para observar melhor o apartamento. Seu estômago roncou, mas ela ignorou, poderia comprar algo na cantina do Instituto. Ignorou e continuou observando o ambiente. Estava concentrada lendo os títulos dos livros na estante quando Camile apareceu do seu lado, ainda fechando a camisa.

— Fome?

— Não — mentiu

— Você precisa comer — franziu o cenho — O que come de manhã?

— Uma médica sem hábitos saudáveis?

— Médica de gente morta

— Médica do mesmo modo — terminou de arrumar a camisa — Vem comer

Katherine abriu a boca para protestar, mas desistiu quando a australiana ameaçou arrastá-la para a cozinha. Katherine bufou enquanto sentava no banco, ela não queria que Camile fosse tão gentil, isso apenas a atraia para mais perto. Observou ela colocar as duas tigelas em cima da mesa e encher elas de cereal. Colocou leite e deu a colher para Katherine. A legista se segurou para não revirar os olhos, deu um meio sorriso, fixou o olhar no cereal e começou a comer devagar. Kriss subiu na mesa e enfiou o focinho na tigela de Camile, mas a garota não prestou atenção, ela preferiu observar a legista.

Camile sabia que provavelmente Cooper faria questão de esquecer, mas no momento preferiu apenas observar.

— Você não passou a noite sozinha, certo? — Laurie arrancou os papéis das mãos de Camile, a obrigando a prestar atenção no que dizia — O que aconteceu?

— Nada demais

— Não minta para mim

— Não estou mentindo

— Está sim, diga logo o que fez!

— Não fiz nada demais — bufou e começou a corar

— Suas bochechas estão ficando vermelha — colocou os papéis na bancada e sentou no banco ao lado da garota — Vamos, diga logo

— Laur, pare com isso — bufou e passou a olhar para o chão

— Vamos lá... você, Katherine...

— Katherine?

— Vocês vieram juntas, pare de mentir para mim

— E o que vai fazer, me torturar? — Laurie riu, às vezes Camile parecia uma adolescente birrenta, se levantou, ficando de pé atrás da detetive, segurou seus ombros e apertou — Ei, isso dói — tentou fugir, mas Laurie não deixou — Pare com isso

— Admita... sua nuca também está arranhada

— Está bem, está bem — revirou os olhos — Eu passei a noite com Katherine

— Finalmente — trou as mãos dos ombros da detetive e riu — Finalmente levou alguém para cama depois de todo esse tempo

— Hum — resmungou e enfiou o rosto no relatório — Por que para você sexo é tão importante?

— Porque sexo é bom — riu — Já planejou a próxima vez?

— Que próxima vez?

— Você sabe

— É coisa de uma noite só — revirou os olhos

— Sei...

— Apenas sexo

— Foi tão ruim assim?

— Não foi ruim

— Okay — bateu os dedos na bancada — Cam

— O que?

— Você deixou ela te tocar?

— Mais ou menos

— Cam

— Não diretamente

— Você teve um orgasmo? — Laurie viu a garota ficar ainda mais vermelha e assentir — Não precisa ficar envergonhada

— Olhe o que você está perguntando

— Eu sei — riu — Vou parar de falar disso

Camile agradeceu e tentou se concentrar no relatório. Laurie tinha um talento incrível em deixar ela envergonhada. A mulher voltou a trabalhar, sorrindo divertida por causa da conversa. Ela poderia levar a detetive para casa, era a coisa mais fofa que ela havia visto.

Laurie sabia que a vida não era um clichê, sabia muito bem. Entretanto, ela conhecia Camile mais do que a garota imaginava. Prestava atenção no que ela falava, isso havia ajudado ela a moldar a imagem dela em sua mente. E por isso ela se lembrava de quando Camile havia dito que não era o tipo de pessoa que faziam sexo casual. Ou seja, era o tipo de garota que ia para cama quando sentia algo pela pessoa. Laurie sabia muito bem que foi por isso que no final as duas não fizeram nada, apenas acabaram dormindo na mesma cama.

Era exatamente por isso que queria fazer Camile admitir que sentia alguma coisa por Katherine.

Não estava pensando que ela estava apaixonada pela legista, estava pensando que a garota pelo menos gostava um pouco dela. Achava que Katherine provavelmente sentia alguma coisa também, por isso que ela rejeitava tanto a detetive.

A vida não era um clichê, mas isso não significava que algumas pessoas podiam viver isso.