O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 17 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 17

Ela sabia o quanto estava errada, o quanto estava sendo má agindo daquele modo. Afinal, aquela garota era sua irmã. E ela havia ficado desesperada de verdade com a possibilidade de perdê-la. Entretanto, ali está ela sendo uma filha-da-puta novamente. Tratando a garota da mesma maneira tudo e com certos pontos de crueldade.

Ela não conseguia controlar, a situação estava difícil e ela precisava descontar em alguém. E esse alguém sempre foi sua irmã caçula. Entretanto, agora ela se sentia um pouco culpada por ser uma completa vadia. Por estar agindo como se a culpa fosse da sua irmã se havia monstros como aquele homem.

Como poderiam saber que uma briga causaria tanta destruição?

Nunca poderia imaginar que sua irmã acabaria estando no lugar errado na hora errada. E que ela própria ainda era capaz de tratá-la daquele modo. Ainda conseguia olhar para ela com nojo e desprezo nos olhos, falava ofensas que sabia que a machucava e não conseguia simplesmente parar.

Era errado, era horrível e era tudo o que ela sabia fazer.

As costas da detetive queimavam tanto que ela se perguntou se ainda havia alguma pele em cima de sua carne. E ela estava com sono, muito sono. Ela desconfiava que dormiria com o rosto enfiado naquele monte de papel que deveria ler para fazer seu relatório. E ela estava um pouco irritada por não estar com sua "jaqueta de estimação".

Não que estivesse arrependida de ter seguido Margo para o banheiro. O jogo era divertido, ser seduzida era divertido e quase viciante. Mesmo que não fosse exatamente o melhor lugar do mundo para se fazer algo, era quente e apertado. Não era a primeira vez, talvez nem a última, que Simons se metia em uma situação daquela: sexo em um lugar apertado. A cabine era pequena, os boxes no vestiário do morgue eram maiores que aquela cabine, mal havia espaço entre o sanitário e as divisórias.

Steele a puxou para a última cabine, apesar de todas estarem vazias, o que Camile somente pensou no motivo e entendeu quando estava debaixo do seu chuveiro morno. Era realmente mais inteligente ter ido para aquela, afinal, era muito mais confiável se apoiar em uma parede sólida do que em uma divisória de plástico que parecia poder ser derrubada com um soco ou um chute. Margo era tão sexy e atraente que Camile estava babando por ela e ansiosa para tocar aquele corpo perfeito. Tinha que admitir: sexo casual era ótimo.

Pensando mais sobre isso, Camile percebeu que talvez tivesse feito aquilo para provar para Laurie — e para si mesma — que ela era mais do que capaz de transar apenas por transar. Que não precisava ter sentimentos por alguém, apenas a oportunidade e não estar bêbada a nível de dormir. Afinal, ela não sabia nada sobre a ruiva além do seu nome e que ela era a tentação.

Por causa dessa pequena aventura, pela primeira vez nos anos em que trabalhava no Instituto, ela chegou atrasada.

Camile Simons era o tipo de pessoa que foi criada para ser pontual, seu pai a ensinou desde pequena que seguir horários definidos era o correto e o comportamento esperado dela o tempo inteiro. E não importava o quanto fosse difícil, ela tinha que se sacrificar para estar no lugar certo na hora certa. Estava tão acostumada que foi desesperador ver que estava atrasada, e que parecia outra realidade ela estar quase quarenta minutos atrasada.

E o pior: Vincent Brown havia pedido que ela fosse ao seu escritório assim que chegasse ao Instituto.

— Atrasada, Simons — ele disse assim que ela entrou no escritório — Quem tem problemas com horário é Cooper

— Desculpe, senhor — ela tirou o casaco, era estranho usar um casaco depois de estar tão acostumada a jaqueta, arrumou a camisa antes de sentar na cadeira a frente da mesa

— Está bem — ele a estudou — Como vão teus relatórios?

— Estão bem, obrigada — ela dobrou o casaco, fugindo do olhar inquisidor do legista-chefe

— Bem adiantados ou bem atrasados?

— Não estão muito atrasados, só um pouco — deixou a roupa perfeitamente dobrada em seu colo e massageou as têmporas — Preciso de mais tempo

— Você precisa entregá-los

— Só mais um dia, por favor

— A coisa não funciona assim, você trabalha aqui há anos. E sabe que, especificamente neste tipo de caso, quando tem agentes federais, os relatórios não são apenas para mim — ele se inclinou para frente apoiou os cotovelos na mesa e falou com um tom quase paternal — Cam, você já trabalhou sobre esse tipo de pressão.

— Já faz tempo

— Dois anos não é tanto tempo assim — ele ergueu as sobrancelhas — Vamos lá, você é capaz

— Brown...

— Simons — ele batucou os dedos na mesa — Só porque faz algum tempo, não significa que você não seja capaz

— Está bem — suspirou — Vou tentar me apressar

— Fique mais tempo no escritório e menos no laboratório — ele recostou na cadeira — Eu sei o quanto você gosta, mas precisa fazer seu trabalho

Camile assentiu e saiu do escritório, ela não gostava de pressão. Seu rendimento caia assustadoramente quando era pressionada a fazer as coisas. Ela não podia atrasar os relatórios, sabia disso. O prazo estava acabando, logo Carter começaria a encher sua paciência para que ela terminasse logo. Simons detestava relatórios chatos para os federais. Observar Katherine fazer as autópsias, ver Laurie trabalhar e ouvir suas explicações era muito mais agradável. Entretanto, ela precisava daquilo.

Agradeceu mentalmente a Stean por ele não fazer vítimas novas, ela imaginava que ele estava torturando alguém agora, e enfrentou a neve para ir para seu escritório.

Stean ergueu os olhos do livro quando a mulher ruiva entrou em seu apartamento, ela tirou os saltos que a deixavam com uma bunda arrebitada, a jaqueta que Stean sabia que não era dela, jogou a bolsa de qualquer maneira na mesinha de centro e se jogou pesadamente no sofá.

— E então?

— É uma missão bem melhor do que seduzir bêbados — ela respondeu com um sorriso safado no rosto e abriu o cinto apertado — Fazia muito tempo que eu não...

— Então ela caiu na sua? — interrompeu a mulher

— Sou irresistível — a ruiva riu baixo enquanto encarava o carrasco — Não sei como você resiste a mim

— Não quero detalhes sobre o que vocês fizeram, ou que seu orgulho sexual está abatido porque alguém no mundo não quer foder você. Eu só estou interessada em informações.

— Okay, chefe — Margo revirou os olhos — A tal legista loira está caidinha pela garotas. Com direito a ciúmes e tudo

— Previsível — Stean já sabia que, mesmo com a imagem e o comportamento de mulher fria e rude, a possibilidade de Katherine se apaixonar era alta — E a garota?

— Caidinha também, ou muito perto de estar

— Por que acha isso?

— Pelo modo que ela estava olhando pra legista

— Ela transou com você

— Sexo casual, muito bom, mas casual. E ninguém faz nada que ela faz pela loira se não estiver se apaixonando

— Steele... — cerrou os dentes e murmurou ameaçadoramente — Você não sabe de nada

— Stean, chefe do meu coração — Margo sorriu, mesmo que os pelos de sua nuca tenham se arrepiado com o tom — Acredito que a garota tenha o direito de tentar ficar com alguém e a loira parece uma pessoa legal

— Só por que ela é bonita?

— Também — o carrasco bufou — Ela bebe pra caralho e parece legal?

— Você tortura e mata estupradores e parece legal

— Não, não venha com essa história

— Só não vejo nenhum problema em Camile se apaixonar e ficar com alguém que aparentemente também sente algo por ela — levantou e deu de ombros — Tenho a impressão que elas podem...

— Cale essa boca — em um movimento rápido, Stean se aproximou da ruiva e agarrou seu pescoço com força, arrancando um gemido dolorido — Eu já disse que você não sabe de merda nenhuma

— Stean — gemeu e arranhou as mãos que agarravam seu pescoço — Não precisa disso

— Eu avisei para não me desafiar — apertou com mais força, vendo o desespero nos olhos cor de avelã da mulher — E nem para ousar me contrariar

— Eu só disse...

— Eu ouvi o que você disse — passou a língua entre os lábios e libertou Margo, que se afastou o mais rápido possível, do seu aperto de raiva — Nunca mais tente me contraria

— Desculpe, chefe — massageou o pescoço, sua respiração voltava lentamente ao ritmo normal — Quando for me matar, ao menos me deixe morrer sabendo o seu nome

— Stean é o meu nome

— Ninguém nasce com esse nome. E eu só quero morrer sabendo o nome de quem fez tanta "justiça" com as próprias mãos

— Você é muito curiosa

— E você é muito misteriosa — deu de ombros e se virou em direção ao corredor — Boa noite, chefe

Stean murmurou sua resposta e seguiu Steele com o olhar, viu ela desaparecer no banheiro e alguns instantes depois ouviu o chuveiro sendo ligado. Esfregou os olhos e bufou, ter perdido o controle era algo irritante. Se sentia idiota por ficar irritada tão facilmente, sempre foi assim, mas depois que sua caçada começou, estava sendo insuportável.

Depois de alguns minutos, que foi tempo o suficiente para Margo terminar seu banho e ir para o quarto de hóspedes, parada e pensando sobre as novas informações, Stean pegou a jaqueta que Steele deixou pendurada no cabideiro ao lado da porta. Sentou-se no braço do sofá com a roupa nas mãos.

Sabia que não era de sua subordinada por três motivos. Um, Steele não era o tipo de mulher que vestia roupas com aparência rude, que a fizessem parecer forte. Era o tipo que preferia as roupas delicadas e sensuais. Dois, Margo não havia saído do apartamento vestindo uma jaqueta de couro.

E o terceiro motivo faria Stean saber daquilo mesmo que fosse a primeira vez em que via a ruiva: o cheiro.

As pessoas tem cheiros diferentes, mesmo que usem exatamente o mesmo perfume. Duas jamais tem o mesmo odor. Para Stean, o cheiro é como uma digital e o DNA. E, se alguém tem alguma roupa há algum tempo, o perfume desse alguém fica impregnado no tecido. Jaquetas de couro costumam durar um bom tempo, tempo mais que suficiente para que absorvessem a fragrância do seu dono.

E a jaqueta em suas mãos estava com sua dona havia anos e Stean tinha certeza que podia sentir o doce no ar. Revirou a roupa nas mãos, sentindo a textura. Podia imaginar como estava aquecida quando Camile a ofereceu para Margo. Podia imagina a cena toda, o sorriso suave e o tom de voz gentil da detetive e o olhar de agradecimento da ruiva, o ar de sedução sutil e leve constrangimento.

Ela gostava de associar memórias a cheiros e sabores, parecia tão fraco, não o suficiente para se lembrar de muitas coisas. Stean suspirou e colocou a jaqueta mais perto do rosto, o cheiro era atraente e ela enfiou o nariz no couro. Respirou fundo, o doce entrou como uma dose de cocaína em seu nariz. A informação do cheiro entrou em seu cérebro como agulhas violentas, as lembranças associadas ao doce vieram como um tsunami.

Com os olhos fechados, o rosto enfiado no couro, ela não percebeu que Margo a observava com um pequeno sorriso no rosto.