O Jogo em Vermelho
Capítulo 34
Até os dezesseis anos, quando um dos seus piores pesadelos se tornou real, Camile Simons sempre viveu em uma situação familiar controversa. Enquanto Robert, seu irmão mais velho, cuidava dela e a tratava com o máximo de amor que ele podia demonstrar, Rebecca a tratava como se ela fosse a escória do mundo. E Sebastian se via em uma guerra entre as filhas.
Rebecca sentia raiva, muita raiva da irmã mais nova. Afinal, se seus pais não tivessem insistido em ter outro filho, sua mãe ainda estaria ali, não teria tido a maldita eclâmpsia. Ninguém teria precisado escolher entre salvar a mulher com poucas chances de se recuperar e salvar o bebê saudável e forte. Claro que escolheram o bebê. Claro que preferiram deixar a mulher morrer para que aquela criança tivesse uma chance.
E a criança acabou recebendo todo o ódio e asco que Rebecca era capaz de sentir.
Camile entendia parte do que Rebecca sentia, podia entender que era difícil perder alguém. Ainda mais considerando que ela própria sentia saudade de quem ela não conheceu e de coisas que ela não viveu.
Mesmo com toda sua compreensão e racionalidade, era impossível não sofrer com aquilo. Ela era bem mais respeitada no colégio do que em casa. A única pessoa que fazia sempre questão de tratá-la mal era Rebecca. Camile não fazia ideia de quando tudo começou, apenas se lembrava de sua irmã sempre tratar ela com tanta raiva. Machucava, queimava e ardia.
Ela não enfrentava, somente abaixava a cabeça e aceitava todas as agressões. Os xingamentos murmurados no ouvido, as ofensas e acusações, os olhares de desprezo. Ela suportava os tapas, empurrões, beliscões que a irmã não cansava de dar quando estavam perto o suficiente para fazê-los discretamente.
Um dia ela acabou se cansando. Depois de ter feito a prova que definiria sua vida, e ter conseguido nota para passar em segundo lugar para a faculdade de medicina, Rebecca estava particularmente ácida. Provocava, ainda mais porque ela própria não havia conseguido pontos o suficiente para entrar em Medicina e acabou escolhendo outro curso. E toda a provocação, aliada ao fato de Camile estar cansada de sofrer tanto nas mãos de quem deveria protegê-la, resultou em uma explosão de raiva.
O jantar era silencioso, Camile estava no limite. Seu sangue fervia em suas veias e ela queria que tudo fosse perfeito como deveria. Sebastian apenas observava a troca de olhares entre as duas filhas, estavam esperando Robert para contar a novidade. Ocorreu tudo perfeitamente, o garoto sorriu como nunca quando ouviu a novidade. Então um murmúrio provocou a discussão. Em segundos, as duas garotas estavam gritando ofensas uma para a outra. Camile estava tão vermelha que parecia prestes a explodir.
E era tudo raiva, rancor e dor acumulados por anos. Sebastian tentou contê-las. Tentou acalmar a situação, mas não havia nada que pudesse parar a erupção. Nada que fosse controlar a garota. Ela havia suportado toda a merda por tempo demais, havia se destruído demais. Sem saber, havia alimentado uma fera dentro de si e agora o monstro rugia e pedia vingança e justiça.
O tempo parecia parado ao redor dos quatro, Sebastian via que o que deveria ser uma família era como uma farsa. Eles deveriam apoiar uns aos outros, mas isso não acontecia. Enquanto os dois homens tentavam manter a paz, Rebecca destruía todos os dias Camile. E ela acabou criando algo com tanta dor que agora não havia volta, que havia explodido e destruído qualquer ilusão de família que eles tinham.
Depois de cuspir tudo o que sentia, o que desejava e a verdade mais dolorosa que havia dentro de si, Camile correu para fora da casa. Sebastian, com alguns segundos de atraso, correu atrás da filha. Ele conseguiu alcançá-la no jardim e pedir para que se acalmasse. Entretanto, a explosão havia mudado alguma coisa nela e seu pai não tinha mais o efeito calmante nela. Na verdade, só a fez sentir mais raiva e ela o empurrou para longe.
Foi a última vez que Camile Simons viu seu pai.
Ele estava magoado, com dor explícita em seus olhos. Com agonia pesando em suas feições. Mas ela apenas virou de costas para ele e deixou para trás a vida que conhecia. Se ela soubesse o que a esperava nas ruas escuras de Brisbane, para onde caminhou sem realmente saber, ela jamais teria saído de casa. Teria deixado seu pai puxá-la para um abraço e tentado acalmar a fera.
Entretanto, ela caminhou em direção a outra fera. Em direção a outra dor e a outra tortura. Se ela soubesse, teria virado e enfrentado o que poderia consertar tudo. Não teria se jogado no inferno, nas mãos de um monstro em forma de humano.
Rebecca havia roubado sua chance de ter uma infância, sua esperança de ter uma irmã mais velha que fizesse como nos filmes e fosse sua melhor amiga. Mas Adam Feltre havia roubado, dilacerado e exterminado qualquer vestígio de inocência que poderia haver em seu coração e em sua mente.