O Jogo em Vermelho
Capítulo 40
— Sei o que você deve estar imaginado, mas não é assim, minha garotinha. Eu não pretendo matar você — Adam sorriu e se inclinou levemente, segurou o rosto e murmurou, o hálito de tabaco e cravo enchei o nariz dela — Eu pretendo fazer você querer morrer.
— Por que? — ela murmurou com a voz falhando.
— Porque é divertido, minha linda jovem — ele escorregou as mãos até a nuca dela e apertou com força — É melhor do que você imagina... afinal, estamos em posições bem diferentes. Você é o meu brinquedo e não deve ser tão divertido assim ser o meu capacho.
Camile desviou os olhos de Sarah, que estava arrumando a mesa com os instrumentos de tortura e estudou Adam. Ela se sentia doente naquela situação. Sua racionalidade pedia que ela sentisse alguma compaixão, alguma pena do homem naquele estado lastimável. Isso porque ela sabia que aquele homem era execrável*. Mesmo com todo ódio, ela achava terrivelmente errado aquilo que Sarah estava fazendo. E profundamente culpada por ter cedido ao pedido de Sarah.
Adam parecia ser realmente forte para ainda estar aguentando. A atadura que fazia parte do curativo que cobria a orelha arrancada estava machada de sangue e Sarah não parecia nem um pouco interessada em trocar por uma limpa.
Sangue seco cobria o ombro e parte do braço dele. Havia vários cortes pelo rosto dele, que estava inchado com os golpes. Havia muitos outros cortes, hematomas, marcas de queimaduras, pedaços arrancados de pele e buracos — como aquele que Camile fez ao enfiar a furadeira no ombro dele — espalhados pelo corpo dele.
— O que vai fazer? — a detetive perguntou, os braços cruzados e encostada na parede.
— Torturar ele, óbvio.
— Não com ele, comigo e Kathy.
— Nada demais se colaborarem. Eu não vou machucar sua namorada se você ajudar.
— Machucar mais, caso você não se lembre, sua ajudante bateu nela.
— Não tanto assim — se concentrou em limpar um bisturi, tentando ignora o incômodo de Camile ter deixado implícito que seu relacionamento com Katherine era um pouco mais profundo do que algo profissional — Poderia ser bem pior.
— Qual o sentido machucar ela?
— Não pergunte o sentido, pergunte o objetivo. Eu quero que você torture ele o máximo possível, é só fazer e ninguém sai machucado.
— Isso é bem contraditório vindo de você — Sarah riu e virou para ela.
— Mas acredito que você já tenha entendido o plano.
— Na realidade não entendi, quem entendeu foi Kathy e ela me explicou. É doentio demais para mim.
— Eu deveria ter imaginado — ela ergueu a sobrancelha direita — Você é inocente demais para isso.
— É inocência não conseguir imaginar um plano cruel desses?
— De certo modo sim, considerando as coisas que você já viu.
— Meu emprego não muda meu caráter.
— Entender o plano não é questão de caráter, ou você está indiretamente duvidando do caráter das pessoas que tem imaginação. Ou que veem as coisas de um modo um pouco mais pessimista que o seu, incluído Katherine na jogada.
— Talvez eu esteja generalizando, mas o que posso fazer se eu não acho que tem sentido algum em fazer tudo isso.
— Pare com essa mania de tentar entender tudo o que acontecesse ao seu redor, só aceite e colabore.
Camile precisava admitir que os amigos de Sarah eram legais. Ela imaginou que ficaria constrangida, mas estava rindo antes de pensar sobre isso. E ela adorava pizza, refrigerante e doces. Sarah achou adorável o modo como Camile conseguia prestar atenção nas conversas e comer rapidamente. Na segunda fatia ele estava claramente se divertindo com a situação. E, no final, Camile estava tão cheia que sentia que seu estômago estava quase estourando. Sarah achou adorável o modo como ela parecia preguiçosa.
Como a pizzaria era perto do apartamento, elas acabaram voltando caminhando. O vento era gelado, Camile fechou a jaqueta tentado se proteger. Sarah apertou mais seu braço, ela gostava do frio e continuou sem o casaco, e também era bom para conseguir ter uma desculpa para se manter agarrada ao braço da garota.
— Não foi tão ruim, certo? — a loira perguntou
— Melhor do que imaginei — ela admitiu — Seus amigos são legais
— Eu sei — ergueu a cabeça e beijou sua bochecha — Eles gostaram de você
— Mas eu não fiz nada
— Claro que fez — sorriu
— Fiz o que?
— Foi você mesma, isso é o suficiente para fazer as pessoas gostarem de você — Camile riu e corou, ela não pensava assim, são sabia se acostumaria tão cedo com essa história de gostarem dela sem esforço — Eu disse que gostariam de você
— Como tinha tanta certeza?
— Porque é meio difícil não gostar de você
— Não é tão difícil — falou baixo e abaixou a cabeça
— Hey, acredite em mim — soltou seu braço, parou na sua frente — Olhe para mim — Camile ergueu os olhos em sua direção e Sarah segurou seus pulsos — Você não precisou falar quase nada para que eles gostassem de você
— Eles gostaram porque eu sou sua amiga
— Oh, mulher teimosa — revirou os olhos — Tente acreditar mais em si mesma, okay?
— Okay — Sarah sorriu, subiu os dedos pelo braço da garota, sentindo o couro que ainda era novo, até os ombros — Por que está me olhando deste modo?
— Que modo?
— Bem, desse — gesticulou em direção ao rosto da Sarah — É... sabe, diferente.
— Não é diferente — falou baixo, os dedos passando lentamente de um lado para o outro nos ombros da garota — Eu te olho assim praticamente o tempo inteiro, é você que não percebe.
— Você tem uma incrível habilidade de me deixar vermelha — aquele olhar deixava ela sem graça por ser diferente de como as pessoas normalmente olhavam para ela — Mas por que?
— Por que tudo precisa de um motivo e de um nome?
— Porque o mundo funciona assim, precisamos de algum tipo de organização. As pessoas precisam de um nome, os objetos, os lugares, os sentimentos, as ações, tudo precisa de um nome. E de um motivo para existir, para ser — ela coçou o queixo — Isso facilita muito a vida, entende?
— Pare com essa mania, Cam, você nunca vai conseguir entender absolutamente tudo ao seu redor, nem tudo exige racionalidade — tirou as mãos dos ombros e segurou seu rosto, falou em tom mais baixo — Normalmente adolescentes são mais emocionais do que você é no momento, tente ser menos assim e mais irracional. Então, vamos lá, seja menos responsável.
— Costumam mandar ser responsável.
— Prefiro fugir dos padrões.
— Não o tempo inteiro, suponho.
— Não, mas não preciso ser do mesmo jeito o tempo inteiro. E você também não — sorriu levemente, ficou nas pontas dos dedos e beijou a bochecha dela — Não seja tão racional.
— Não parece uma boa ideia.
— Nem tudo é o que parece.
— Vale para as ideias também?
— Vale para tudo — Camile riu baixo
— Você é estranha — murmurou, franziu o cenho e tentou se explicar — Não de um jeito ruim ou ofensivo, é só...
— Eu entendi — desceu a mão pelo braço e segurou a mão — Saiba que você também é estranha.
— Espero que também não seja no sentido ofensivo.
— Não é, você é adoravelmente estranha. Por isso gosto de ti — a garota corou violentamente — Pare de corar tanto!
— Pare de me fazer corar tanto!
— Posso tentar — com a mão livre, segurou o braço da garota e deitou a cabeça em seu ombro — Mas só se você prometer que não vai ser racional o tempo todo.
— Prometo — apertou a mão dela com mais força — Agora melhor a gente ir, não acha? Não é muito seguro ficar parada no meio da rua neste horário.
— Eu sei, vamos.