O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 19 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 19

— Fletcher... — a loira murmurou, suas mãos agarravam a parte de trás da jaqueta de couro — Não acha perigoso?

— É só uma casa vazia — a garota riu e apontou a lanterna para todos os cantos do hall — Pare de tremer tanto

— É uma casa vazia, escura e são três da manhã — a puxou para perto quando ouviu um barulho, a garota virou a lanterna em direção ao som a tempo de ver três ratos se escondendo atrás de uma caixa — Com ratos

— Ratos são apenas bichinhos

— Bichinhos porra nenhuma — ela enfiou o rosto na nuca dela, o nariz enfiado no cabelo escuro e curto — Temos que fazer mesmo isso?

— Pare de ser medrosa, meu amor — virou a lanterna para o corredor — E não fique tão grudada

— Nem fudendo vou me afastar de você nesse lugar

— É só uma casa vazia — confiante, andou até as escadas — Vamos — colocou o braço para trás, oferecendo para a loira agarrar sua mão, coisa que ela fez imediatamente — Não tem nada demais

A madeira velha rangia sob o peso delas, a loira tremia um pouco com o nervoso que sentia em estar ali dentro. Apertava sua mão com tanta força que as unhas marcavam a pele alva da garota. Ela arfava, não gostava do escuro, do silêncio e do ar opressor que a casa tinha.

— Péssima ideia, péssima ideia

— Confie em mim — riu baixo — Não tem ninguém aqui

— Na última vez que eu entrei em um lugar vazio tinha alguém — resmungou, a outra apertou sua mão com força — Desculpe, desculpe

A loira suspirou quando o aperto diminuiu, às vezes falava coisas sem pensar e esquecia o quanto a outra podia ser sensível.

Camile enfiou as mãos nos bolsos do casaco, ainda se perguntando como Laurie sabia que ela havia emprestado sua jaqueta para Margo. E também se perguntava se a mulher estava certa, se Katherine estava de mau humor porque Camile havia dado atenção para a ruiva. Tinha quase certeza que Katherine não sabia sobre o que haviam feito no banheiro, mas achava que ela poderia ter deduzido. Como Simons saberia que ela esperava que a detetive falasse algo sobre terem ido pra cama, ou sobre seu pesadelo e como ela havia precisado de Katherine naquela noite.

Ela se sentia estúpida por não ter pensado sobre aquilo. Mas não era sua culpa se Katherine sempre mostrava que não queria nada com ela, nem mesmo falar com ela. Como ela poderia desconfiar que a legista poderia criar alguma expectativa, poderia esperar que ela falasse alguma coisa?

Ela sabia que Laurie provavelmente estava certa, como sempre.

Por isso, tentando ganhar tempo para pensar, ela obrigou Carter a ir para a cena do crime quando Brown disse que havia um novo corpo. Para seu nervosismo, Vincent a mandou descer ao morgue e assistir a autópsia. Quando chegou lá, Katherine estava concentrada em fazer o exame externo, com Abigail a observando de braços cruzados ao seu lado e Holly ajudando do outro lado. Terminou de ajustar a máscara enquanto se aproximava da única mesa ocupada.

A primeira coisa que reparou foi que ele não estava tão machucado quanto os outros, depois no pedaço de silver tape na boca dele. Depois de terminar o exame externo, Katherine, com cuidado, cutucou a beira da fita para conseguir soltá-la da pele. Era um pouco difícil com a luva cirúrgica, mas ela conseguiu. Tirou e colocou dentro do saco de evidência que Holly segurava. Ela abriu a boca do cadáver com cuidado, com precaução para o que poderia ter ali.

Camile se arrependeu de ter olhado. Tudo o que havia em seu estômago quis sair no instante que seu cérebro registrou o que havia dentro da boca dele.

Às vezes ela pensava que sua aversão a baratas era uma questão de frescura, mas era algo que ela não podia controlar. Chegava a machucar precisar controlar a ânsia. O ácido queimava enquanto fazia o caminho pelo seu esôfago para ser expulso. Ela engoliu saliva, tentando manter sua integridade moral e não correr para o banheiro vomitar por ter visto baratas mortas na boca de um cadáver.

— Simons? — Abigail se inclinou por cima do corpo — Você está bem? — Camile assentiu, Carter ergueu as sobrancelhas, desconfiada — Tem certeza?

— Tenho — sua voz saiu sufocada pelo esforço que ela vazia para acalmar sua revolta estomacal

— Você parece enjoada — Camile cruzou os braços, os apertando contra si com a esperança que isso fizesse seus problemas diminuírem— Muito enjoada

— Estou bem — cerrou os dentes

Abigail continuou a observando, seu instinto nunca se enganava quando dizia que alguém estava mal . A detetive voltou a olhar para o cadáver, seus olhos fixos no peito imóvel dele. Abigail olhou para Katherine, sabia que a legista também havia percebido que Camile estava mentindo mas não queria dar sinais de ser alguém com coração.

Deu a volta na maca e segurou o ombro da detetive, que se encolheu com o toque. Escorregou a mão e agarrou o braço firme da garota e começou a puxá-la para fora. Camile resistiu por alguns segundos antes de se deixar ser levada.

Parecia menos pior ser arrastada para fora do que correr. Abigail a puxou até o vestiário, o banheiro parecia longe demais para uma garota que já estava tremendo.

Camile abaixou a máscara, apoiou as mãos na bancada da pia e pôs para fora os restos de café da manhã e lanche. Abigail, sendo atenciosa, passou a mãos em suas costas enquanto esperava ela colocar tudo o que havia consumido para fora. Tossiu com a ardência que a acidez causava. Fechou os olhos com força, ofegando e apertando a beira da pia com toda força que tinha. Abigail abriu a torneira para que o jato de água fizesse aquilo escoar para dentro do ralo. Camile encheu a mão curvada de água e lavou a boca, depois jogou água gelada no rosto e respirou fundo.

— Está melhor? — sussurrou com as mãos em seus ombros — Simons?

— Estou — esfregou o rosto — Foi só... um pequeno enjoô

— Acho melhor da próxima vez não olhar — apertou os ombros — Quer voltar?

— Preciso? — resmungou, virou para ficar de frente a agente e secou as mãos no jeans

— Não — com o polegar e o indicador, tirou a máscara da garota — Só ler o relatório, Brown vai entender

— Hm, obrigada — sorriu de leve

— Está me devendo essa — deu um soco fraco no ombro da detetive — Pague uma vodka pra mim e está tudo certo

— Quando quiser — afundou as mãos no bolso e murmurou — Obrigada mesmo

— Tudo bem — segurou seu ombro — Agora vai pro seu escritório

Camile sorriu agradecida, assentiu e fez o que foi sugerido. Carter ajeitou a máscara no rosto e voltou para o morgue. Quando voltou a se posicionar ao lado da legista, ela já havia tirado os insetos da boca do homem e já estava abrindo o peito dele. A única parte, além das baratas na boca, que foi diferente foi quando ela abriu o estômago e viu que havia mais insetos ali.

Foi uma ótima ideia não fazer Simons voltar, provavelmente ela colocaria o próprio estômago para fora.

Depois de terminar a autópsia e seguir sua rotina, Katherine foi em direção ao escritório e Carter a seguiu. A legista jogou a ficha na mesa bagunçada e caiu na cadeira. Fechou os olhos e esfregou o rosto, sua cabeça latejava. Parecia que alguém estava batendo em sua cabeça, esmagando seu cérebro.

— Ressaca? — Carter sentou na cadeira e observou a legista

— Como sabe?

— Te conheço — cruzou os braços — Você deveria se cuidar mais

— Eu estou bem — enfiou os dedos no cabelo — Não se preocupe

— Eu me importo com você, acho meio difícil não me preocupar

— Pare com isso — encarou a agente — O que quer?

— Estou sendo gentil — cruzou as pernas — Vocês deveriam conversar

— Vocês quem? — bufou

— Você e Simons — Katherine revirou os olhos

— Não preciso conversar com ela — puxou a pasta — Becker também falou disso

— Ela raramente erra

— Não vou conversar com ela — abriu a pasta e começou a folhear — Não tenho motivo

Carter riu baixo e observou por alguns instantes a legista. Ela sabia que as pessoas mudavam, apenas não entendia como alguém mudava tão rápido. Não pretendia insistir, uma hora elas acabariam conversando. Mesmo que soubesse o quanto Katherine podia ser teimosa, o quanto ela sabia escapar e fugir de qualquer coisa que envolvesse sentimentos.

E se Becker estivesse certa, teria que prender as duas juntas em uma sala e obrigar elas a conversarem. Ou esperar que alguma coisa acontecesse.