O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 42 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 43

— Kathy — Camile murmurou, sentou do lado da mulher que estava na cama e encolhida abraçando as pernas — Vem aqui.

— Eu sou um monstro...

— Não é, querida — passou o braço pelos seus ombros — Ela pressionou você.

— Eu deveria ter me negado.

— Ela te espancaria se você fizesse isso — acariciou seu braço — Está tudo bem.

— Não, não está tudo bem — apertou mais os braços ao redor das pernas — Eu matei uma pessoa.

— Mas é compreensível, ela obrigou você.

— É tudo culpa minha — se afastou um pouco para olhar em seus olhos — Absolutamente tudo é culpa minha.

— Não, não é.

— Claro que é, você não entende.

— Então me explique.

— Eu sou uma covarde.

— Não é, querida — acariciou seu rosto delicadamente, Katherine podia ver o cuidado que havia nos olhos da detetive — Não importa o que você tenha feito de errado, eu sei que você não é covarde.

— Poderia ser diferente.

— Tudo seria diferente se ninguém errasse, mas então qual seria a graça de viver?

— Não sofrer.

— Não que eu goste de sofrer, mas é isso que nos faz diferentes uns dos outros.

— É tão cruel.

— Muito, eu sei, mas já pensou que você é quem você é hoje por causa de cada vez que sofreu? Essas coisas te ensinaram a ser mais forte, não é? As pessoas aprendem com os erros.

— E você aprendeu?

— Um pouco — ela passou o dedo indicador pela linha do maxilar — Você passa a vida inteira aprendendo e morre burra, é assim que acontece.

Katherine soltou o ar com força, ela deixou que Camile a abraçasse, fechou os olhos sentindo como era confortável ter alguém que se importasse com ela.

— Vai ficar tudo bem — Camile murmurou em seu ouvido — Eu te prometo, vai ficar tudo bem.

— Vai mais rápido — Robert resmungou, Katherine revirou os olhos e manteve a velocidade — Assim vamos chegar lá semana que vem, Kate.

— Mas vamos chegar vivos, acho isso um detalhe muito importante.

— Um pouco mais rápido, não vamos morrer por causa disso.

— Caso não tenha visto, tem um caminhão logo na frente. Se eu acelerar, vou bater nele.

— É só ultrapassar.

— Não viu a placa dizendo “proibido ultrapassar”?

— Só tem a gente e um caminhão.

— E uma via de duas mãos, se tiver um carro vindo não dá pra desviar.

— Meu Deus, Kate, você é cuidadosa demais.

— O que é um bom motivo para que eu ainda esteja viva.

— É só ultrapassar ele.

— Porra, cala a boca.

— Vai mais rápido e eu fico calado. Até o Nicky está dormindo e ele adora andar de carro.

— Você poderia fazer o favor de fazer o mesmo, dorme e me deixa dirigir em paz.

— Só quero chegar logo.

— Está bem, Robert, vamos chegar no horário.

Ela pisou com força no acelerador até estar perto do limite, torceu mentalmente para que nenhum carro ou caminhão estivesse no sentido contrário. Girou o volante para a esquerda, o carro suavemente obedeceu o comando e ela suspirou quando conseguiu ultrapassar o caminhão e voltar para sua faixa correta.

— Eu não disse? — Robert riu baixo.

— Sorte.

— Eu estava certo, admita.

— Fique caladinho — bufou, ela detestava dirigir rápido — Assim você me distrai.

— Eu preferia quando você deixava eu te distrair de outro modo — ele sorriu levemente, um pouco triste, sem entender como que o casamento perfeito deles havia mudado tanto. Ele esperava que aquela viagem pudesse salvar os dois.

— Eu prefiro que não me distraia.

— Você sabe que eu gosto disso e ainda assim se casou comigo.

— Eu deveria ter pensado melhor — riu baixo — Você sabe que eu não gosto de dirigir rápido, então não é uma boa ideia tentar me distrair.

— Só estou tentando melhorar nosso relacionamento.

— Ele está ótimo.

— Claro, nossa casa virou só o seu quarto de hotel.

— Eu já expliquei.

— Eu sei, mas trabalhar não significa que você precisa me rejeitar.

— Não estou te rejeitando.

— Está sim — ele colocou a mão na sua coxa e apertou levemente — Há quanto tempo não fazemos alguma coisa?

— Eu não conto essas coisas.

— Desde quando você não se importa?

— Só não acho sexo tão necessário — “pelo menos não com você, desculpe” pensou, desde que havia começado a ter um caso com Abigail, ela simplesmente não conseguia mais deixar que Robert a tocasse daquele modo.

— Mas você adorava.

— Eu sei — ele continuava com a mão nela — Pode tirar sua mão daqui.

— Não posso nem tocar você?

— Não quando eu não quiser.

— Estou tentando ser o seu marido.

— Pode tentar sem ficar me apertando enquanto dirijo.

— Você ficava excitada com isso.

— Ficava, no passado, no momento estou ficando irritada com essa sua fixação com sexo.

— Fixação? — ele começou a se irritar — Faz quatro meses que você mal me deixa te tocar. E uns sete ou oito que você parece estar se esforçando para deixar, como se não quisesse mais.

— Eu já falei, Robert, é um pouco complicado querer tanto quando se tem tanta coisa para fazer.

— Tenho a impressão que você está escondendo alguma coisa.

— Não, eu não estou — ela estava tentando se manter calma e ignorar a raiva que podia ouvir no tom de voz do marido.

— Está sim, nem quando você estava grávida com raiva de tudo e de todos você me rejeitava tanto.

— Hormônios.

— Que podiam voltar.

— Acha mesmo? Você vivia reclamando de mim.

— Mas pelo menos sempre tinha sexo.

— Seu mundo gira ao redor disso.

— Eu sou um homem casado com uma mulher linda, claro que ele gira ao redor disso.

— Que clichê.

— Que você está estragando.

— É o que acontece depois de alguns anos.

— É o que acontece depois de filhos, mas você continuava muito sexual mesmo depois que Nicky nasceu. Estou dizendo, diz logo o que está errado.

— Eu já disse, Robert. Eu já expliquei, por que é difícil entender?

— Porque você já trabalhava pra caralho e ainda assim era a minha mulher. Agora você é só quem dá dinheiro e dorme na mesma cama.

— Está bem, Robert, está tudo uma merda, saber por que? — apertou o volante com força e pisou mais forte, levando o carro até o limite, agora ela estava zangada de verdade — Porque não está dando certo. Porque eu não sei viver na porra de uma família normal. Está tudo uma merda porque foi uma péssima ideia tentar alguma coisa.

— Eu vim de uma família nada exemplar e mesmo assim estou tentando.

— Mas eu não sou como você, eu não consigo.

— E então simplesmente desiste?

— É, eu desisto.

— Não, você não vai desistir.

— E pretende me impedir como?

— Tente pelo Nicky, quer que ele sofra também?

— Não entende que é isso que estou tentando evitar? Que ele tenha contato demais com uma pessoa que nunca vai ser boa o suficiente para cuidar dele?

— Você só quer uma desculpa para abandonar o seu próprio filho — Robert rosnou, ele havia sido criado pelo pai e visto o quanto ele se esforçava para cuidar dos filhos e da empresa, o quanto ele tentou até o fim mesmo sabendo desde que havia ficado viúvo que nunca seriam estáveis ou uma família realmente boa, mas nunca desistiu — Você não o ama?

— Eu amo, Robert. Eu amo vocês dois e esse é o problema.

— Amar é um problema?

— Sim, é um problema. É um maldito problema.

Ela estava com raiva, muita raiva. Havia acabado de começar a chover, Robert fez ela se lembrar do quão filha da puta ela estava sendo.

Katherine sabia que estava indo rápido demais, na curva o carro derrapou e quase saiu da estrada, mas ela manteve na mesma velocidade. Sua sorte nunca durava tempo o suficiente, na segunda curva, que era mais fechada, as rodas perderam a fricção adequada com o solo e fizeram o carro sair do controle.

Ele rodou na estrada, o caminhão atrás não conseguiu frear a tempo e atingiu a direita do veículo com toda velocidade. O carro passou a pela barreira que lardeava a estrada e capotou algumas vezes pelo mato ao lado e parou de ponta-cabeça.

E Katherine Susan Cooper só sentia dor.