O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 45 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 46

Sarah encostou a testa no vidro gelado da janela, sua cabeça latejava e seus braços ardiam. Espancar um homem tinha um preço. O ciúme tinha um preço. Margo estava absolutamente certa sobre Katherine e Camile, ela via isso agora. Já esperava que Katherine acabasse se apaixonando, era fácil cair de amores pela detetive. Tinha que gostar muito de alguém, ou gostar muito de homem e não ter nenhum traço de atração pelo sexo feminino, para conseguir escapar dela.

Afinal, a garota conseguia ser a durona, o tipo que você se sente protegido por estar perto. E também fofa e adorável, como um filhote que precisa de amor e carinho. Camile tinha essa necessidade de ser cuidada por alguém. Ela era o tipo de pessoa que cuidava e queria ser cuidada, o tipo de pessoa que recebia e dava. E Sarah havia feito isso, havia cuidado da garota por anos, mas o desejo de machucar era muito forte.

Ela podia dizer que adorava os gritos de dor, o sangue, o barulho de ossos esmagados. Ela gostava de torturar, de matar. Mas ela detestava saber o que havia perdido em benefício a sua segurança.

Respirou fundo, na sua mente queimava a imagem da perfeição de Camile. E também o olhar dela. o olhar que Sarah conhecia muito bem, afinal, ela o viu durante anos. Qualquer pequena esperança de que Camile talvez ficasse com ela no final foi para os ares quando ela viu o modo como Camile estava agindo perto da legista, como estava olhando para ela. Estava claro que Margo estava certa, havia sentimento dos dois lados.

Sarah sentiu uma raiva incontrolável em seu peito, o calor se espalhar pelo seu corpo. Arrancou o jornal das mãos de Margo, a ruiva ergueu as sobrancelhas.

— Que foi?

— Traga Cooper para cá.

— Mas está na hora delas dormirem.

— Traga.

— Mas...

— Faça o que eu mandei. Traga ela, depois mantenha Camile dentro do quarto.

Margo obedeceu, cinco minutos ela surgiu levando Katherine. A legista ainda estava arrumando a roupa, o que fez Sarah ter certeza que manter duas camas no quarto era inútil e deixou ela com mais raiva. Margo voltou para o quarto antes que recebesse uma ordem rude. Sarah empurrou Katherine até fazê-la sentar na cadeira, algemou seus pulsos atrás da cadeira. Katherine a observava, fria e analítica, ignorando o medo dentro dela. Sarah mexeu nos seus brinquedos, sem mudá-los de lugar, apenas tentando decidir o que faria.

—O que quer? — a legista perguntou, indo direto ao assunto antes que Sarah pudesse fazer algum discurso.

— Sinceramente? — cerrou os dentes — Acabar com você.

— Por causa da Cammy? — talvez fosse íntimo demais, Sarah olhou para ela, mas Katherine se manteve impassível.

— Desde quando chamam-se por apelidos?

— Não posso informar uma data exata — poder, ela podia, ela só não queria.

— Parceiros se chamam pelo sobrenome.

— Eu conheço o protocolo.

— Isso não é muito profissional.

— Não estamos trabalhando, estamos ocupadas sendo mantidas em cativeiro.

— Esse nível de intimidade não se adquire em dias.

— Trabalhamos há um ano, é um bom tempo.

— Você não parece o tipo de pessoa simpática.

— Eu não preciso, ela faz essa parte do trabalho.

— E o que você faz?

— Eu só admiro — Katherine sabia que estava irritando Sarah apenas com sua existência, provocar um pouco não faria diferença. Seu corpo ainda doía depois de ter apanhado, mesmo que Camile fizesse de tudo para mantê-la confortável, alimentada e cuidasse dela com esmero. Sabia que não estava segura, que quem estava protegida de todo o ódio de Sarah era Camile —Admita, é difícil não admirar.

— Faz parte do seu trabalho?

— Não, mas também não faz parte do seu se vingar.

— Você não o que faz parte do meu trabalho — se aproximou dela — Sabe de porra nenhuma sobre mim.

— Por que está com raiva de mim?

— Porque... — cerrou os dentes, se curvou, os olhos castanhos brilhando — Ela é minha.

— Tem certeza? — Katherine disse, provocando, desafiando, ergueu as sobrancelhas com uma certa arrogância no olhar. Recebeu um tapa, forte, no lado do rosto que atingiu o ouvido também. Doeu, começou a ouvir um som agudo incômodo e baixo. Riu, Sarah acertou outra vez. A legista sentiu o gosto de sangue na boca, mas manteve a postura — Não fui eu que tirei ela de você. Foi você que a abandonou para se vingar.

— Ela continua sendo minha — cerrou os dentes, andou até a mesa — Se precisar, eu te tiro do caminho.

— Então é só pegar a arma e me matar.

— Não tão rápido — voltou com um bisturi, um pano e um sorriso sádico, Katherine precisou de toda sua frieza para se manter impassível —Sempre quis saber o quanto uma mulher pode ser resistente a dor que eu sei causar.

— Eu quero saber o que ela quer! — Camile repetiu pela quinta vez.

— Eu já disse que não sei, devem estar conversando.

— Sarah é uma louca.

— Acha que ela vai torturar a sua garota?

— Eu não duvidaria disso.

— Vamos, Simons, acha que ela é assim?

— Tenho certeza.

— Fica calma — colocou as mãos nos ombros dela.

— Calma? Calma o caralho! — ela rosnou — Katherine está lá, sozinha com uma psicopata e você quer que eu fique calma?

—Eu sei, eu sei — ela segurou o rosto da detetive e acariciou com os polegares, tentando deixa-la mais tranquila — Se acalma...

— Como diabos eu vou saber se ela está bem? — O desespero nos olhos da detetive deixou Margo agoniado.

— Está bem... — ela destrancou a porta — Eu vou conferir.

Camile juntou as mãos e observou ela sair. Margo respirou fundo e foi atrás de Sarah, quando chegou perto, ela sentiu um clima terrível, um clima que dizia que havia algo de errado acontecendo. Silenciosamente, se encostou na parede e olhou para a sala. Cerrou a mandíbula quando viu Sarah procurar algo na mesa com seus brinquedos, Katherine estava presa na cadeira e não estava em seu melhor estado.

As mãos presas atrás de si, um pano enfiado na sua boca e ela podia ver gotas de sangue ali. A camisa foi arruinada, rasgada e Sarah havia feito cortes na barriga morena, no peito e o sangue manchava o jeans.

Margo se afastou, se encostou em outra parede. Escorregou até estar sentada no chão, puxou as pernas para si e se encolheu. Respirou fundo, havia visto Sarah torturar homens. Fazer eles gritar, tinha sua parcela de culpa. Afinal, era ela quem seduzia e quem comprava as coisas que Sarah pedia. Mas, ali era diferente. Ela sabia que aqueles homens haviam feito coisas erradas, haviam machucados pessoas, destruído vidas... mas o que Katherine havia feito de errado?

— Puta merda — rangeu os dentes.

Ela se sentiu culpada, muito culpada.

Tentou se acalmar, empurrar aquilo para um canto da sua mente. O que ela diria para Camile? Olha só, meu amor, você estava certa e a srta. Psicopata-Assassina está torturando a sua namorada. Ela não podia dizer isso. Mas também não poderia mentir. Camile saberia daquilo de qualquer maneira, seria impossível esconder. Não conseguiria planejar, talvez acabasse cuspindo aquilo quando visse os olhos desesperados da detetive. Voltou para o quarto, Camile continuava de pé, as mãos juntas e olhou para ela ansiosamente.

— Olha... temos um pequeno problema.