O Jogo em Vermelho
Capítulo 23
Abigail Carter não tinha um escritório para ela, afinal, seu escritório ficava na capital. Conseguiu uma sala no prédio em que Camile trabalhava, dois andares abaixo do escritório dela.
Naquela manhã após a nevasca, ela passou no restaurante na rua atrás do Instituto e comprou o maior copo de café quente que tinha disponível. Enquanto o elevador subia até seu andar, ela se olhou no espelho e viu o quanto parecia cansada. O cabelo ruivo não estava tão brilhante quanto o de costume, a maquiagem não disfarçava totalmente as olheiras debaixo dos olhos verdes. Ela suspirou, estava cansada. Não apenas porque tinha dezenas de relatórios para fazer, mas porque era cansativo psicologicamente saber que havia alguém na cidade torturando homens e jogando eles em qualquer lugar.
A imagem do homem pendurado no açougue ainda dava ânsias, era pior do que as baratas na boca do outro. Principalmente porque ela acabou ficando mais focada em como a detetive reagiu ao ver aquilo. Parecia doente, provavelmente vomitaria na própria máscara, algo que seria muito nojento, se Carter não tivesse a empurrado para o vestiário a tempo.
Entrou no escritório, colocou o café no espaço que já parecia reservado para o copo de isopor, pôs a bolsa no chão ao lado da mesa, tirou o casaco e pendurou nas costas da cadeira. Olhou triste para a pilha de papéis, era desanimador ter tanto trabalho burocrático e não ter nenhum avanço. Viu que havia um envelope vermelho no chão perto da porta, ela não havia reparado antes porque estava ocupada demais bebendo o café. Estranhou aquilo, viu um post-it amarelo colado nele e leu o recado:“Chegou ontem a noite, uma mulher loira apareceu aqui quando a nevasca já estava forte e pediu para que fosse deixado debaixo da sua porta. Não pareceu ser algo perigoso, espero que realmente não seja, não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece e nunca houve acidentes.”
Ela entendeu que foi um guarda da noite que deixou o envelope. Ela o girou nas mãos, era leve como se estivesse vazio. Na aba, havia apenas seu nome escrito com letra de forma. Sentou em sua cadeira e abriu o envelope, havia apenas um cartão SD azul-marinho dentro dele. Ela o pegou, curiosa para saber porque havia um envelope com um SD dentro endereçado a ela. Carter leu no rótulo que ele tinha 16 GB de capacidade, ergueu as sobrancelhas. Pegou o notebook dentro da bolsa e colocou no espaço em sua mesa que sempre estava livre para o aparelho. Esperou o sistema iniciar e colocou o cartão na entrada.
O gerenciador de arquivos abriu, na barra apenas dizia “Dispositivo Removível”. Eram dois arquivos, as miniaturas mostravam apenas uma imagem escura. Os dois nomes eram apenas seleções aleatórias de letras e números, o tipo de nome que você forma quando passa a mão de qualquer maneiro sobre o teclado. Eram arquivos MP4, ela pegou os fones de ouvido que sempre ficavam na bolsa e conectou ao notebook. Selecionou o primeiro vídeo.
Abigail ajeitou os fones de ouvido, apoiou o cotovelo na mesa e o queixo no punho fechado. O vídeo começava escuro, ela manteve o volume baixo por suspeitar que aconteceria algo. Alguns segundos se passaram antes da câmera focar em um homem. Ele estava sentado em uma cadeira de espaldar reto, as mãos presas atrás do corpo e apenas vestido com uma cueca. Ela viu os hematomas e cortes no peito dele. A barba parecia ter crescido quase duas semanas. Ao lado dele, havia uma mesinha de aço com instrumentos variados, ela viu o brilho de um bisturi, martelo, alicate e alguns pregos.
Outra figura apareceu, alta e magra. Parecia uma silhueta delicada demais para uma pessoa que fazia aquele tipo de coisa com homens. Vestia um macacão preto, totalmente fechado. Luvas pretas também, uma máscara cirúrgica e uma touca que cobria seu cabelo. Apenas os olhos não estavam cobertos, mas ela não podia ver. Quando ficou de perfil para a câmera, Carter percebeu o motivo de parecer delicada: a curva graciosa dos seios provava que não era um homem.
A silhueta ficou atrás do homem, que parecia assustado. Stean colocou as mãos nos ombros dele e apertou, o homem gemeu baixo. Stean pegou o bisturi, o rodeou entre os dedos. Com uma mão, segurou a orelha direita e forçou ele a virar a cabeça. Seus dedos entraram no cabelo castanho do homem, ela forçou ele a ficar daquele modo. Agarrou a cartilagem da orelha, segurou o bisturi e o enfiou na parte de trás da orelha.
Ele gemeu alto, Stean riu e continuou cortando. Ele respirava rápido e forte enquanto o sangue escorria pelo seu pescoço e sujava o ombro. Foram segundo agoniantes antes que a assassina finalmente arrancasse a orelha esquerda do homem. O vídeo terminava focado no homem sangrando na cadeira.
Abigail esfregou o rosto antes de clicar no segundo arquivo, sua intuição dizia que aquele poderia ser pior. A câmera estava em um lugar diferente, parecia estar atrás de quem estava na cadeira. Pela qualidade do vídeo, era uma câmera mais antiga, ou o vídeo era mais antigo. Carter demorou alguns instantes para perceber que era impossível ser a mesma pessoa.
Estava focado em um braço que estava algemado na cadeira. Ela calculou que a câmera estava ao lado da cabeça de quem estava preso e apontada para o braço. Carter arregalou os olhos de surpresa quando alguém se agachou ao lado da cadeira. Anos mais jovem, vestido com terno cinza, sem barba e com nenhum vestígio de medo, era o mesmo homem do vídeo anterior. Ele tinha um pano sujo de sangue na mão.
— Não queremos estourar o tímpano de ninguém — ele riu, se levantou e ela percebeu que ele estava amordaçando que estava na cadeira, percebeu que a respiração ao lado da câmera era audível — Vamos lá, garota, vamos fazer mais arte
Ele saiu do campo de visão por alguns instantes. Quando voltou, segurou o pulso e girou o braço. Segurou a mão dela, Carter podia ver as veias saltadas quando ela fazia força para se livrar da pegada. Ele segurou um bisturi e, com a habilidade de quem estava acostumado de fazer aquilo, ele fez um corte reto um pouco acima do pulso. A respiração travou e se acelerou, um gemido baixo soou quando o homem enfiou com mais força.
A agonia de ver o bisturi cortando a pele delicada e o sangue rubro escorrer, o liquído fazia contraste com o tom de pele como sangue na neve. Escorria para o braço da cadeira e gotejava lentamente para o chão de cimento. O coração de Carter batia com força, a respiração e o som baixo dos gemidos de dor pareciam colocá-la na pele de quem estava sofrendo.
Quando chegou na dobra do braço, o homem saiu do campo de visão e voltou com uma garrafa de álcool. Ele jogou o álcool em cima dos cortes, o gemido soou mais alto e a garota tentou escapar. Ele fez ela virar o braço outra vez, puxou um pouco para cima para que a mão dela ficasse apoiada na madeira. O homem se afastou alguns segundos e voltou com um martelo.
Abigail apertou as mãos, sua cabeça estava começando a latejar com aquela visão.
Quando o homem acertou a mão da garota com toda a força, o grito de dor abafado parecia mais um rugido de um animal ferido. Carter podia imaginar o som de ossos quebrando com os golpes violentos de martelo. Aquilo realmente causava muita dor na garota, ela remexia o braço e tentava desesperadoramente escapar. Os movimentos faziam ela sangrar mais, mas ela parecia desesperada demais em escapar das marteladas para sentir a dor.
O vídeo terminava abruptamente. Parecia ter sido apenas cortado de repente. Abigail ficou minutos parada, sua mente processando as imagens. Tinha a vaga sensação que não deveria ver aquilo, que não deveria saber. Ela enfiou os dedos entre os cabelos vermelhos, desviou os olhos da tela do notebook e procurou pelo papel que Brown havia dado a ela, era onde ele deixou alguns números que poderiam ser úteis. Encontrou ele, pegou o telefone no bolso do casaco e digitou rapidamente os números. Batucou os dedos na mesa enquanto esperava ser atendida, antes que um “alô” terminasse de ser pronunciado ela disse:
— Simons, essa é uma boa hora para você pagar a minha vodka