O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 14 de 50

Páginas do PDF

O Jogo em Vermelho

Capítulo 14

"A garota chutou a cadeira, sentindo o rosto queimar. Estava ficando vermelha de tanta raiva que sentia. Sabia muito bem que era egoísmo, sabia que não deveria agir desse modo. Seu irmão tinha o direito de seguir os sonhos dele, e ela não podia pedir para que ele desistisse. Não havia nada a fazer, o sonho dele era longe. Em outro país, com outras pessoas, longe dela.

Mas também não era justo ela precisar ficar ali. Não era justo ela não poder seguir os próprios sonhos. Certo?

Todos diziam que não era culpa dela. Por que seria? Ela não pediu aquilo. Ela foi jogada no inferno, queimou e foi castigada por erros que ela cometeu e que cometeria.

Era tudo egoísmo.

Se jogou no sofá e esfregou o rosto.

— Tente entender meu lado — seu irmão pediu — Por favor

— Estou tentando — bufou — Sabe, também tem o meu lado, não acha?

— Eu sei, mas...

— Mas o que? — ergueu os olhos, o garoto sentiu seu coração se apertar com o olhar dolorido — O que eu fiz de errado agora? O que eu fiz de errado na minha vida inteira?

— Ninguém falou que você fez algo de errado

— Tem certeza? — cruzou os braços — O que eu posso fazer? Eu não vou prender você aqui, não é isso que você quer? Então vai! — o garoto desviou o olhar — Vai antes que isso machuque mais

O garoto respirou fundo, suas malas estavam prontas e dentro do carro. Ele havia decidido. Apenas foi ao apartamento para tentar se explicar, foi mais doloroso e difícil do que imaginou. Precisava seguir em frente, não é? Ele não podia fazer nada se seu futuro não estava ali, estava em outro lugar.

Sabia que, se saísse naquele momento, teria problemas em voltar. Sua irmã estava com raiva demais para perdoar ele. Entendia o lado dela, mas se decidiu. Decidiu ser quem desejava ser. Olhou ela por alguns segundos antes de caminhar até a porta. Sentindo seu coração queimar com a força da dor dentro dele. Respirou fundo.

— Desculpe — murmurou — Desculpe, minha garotinha"

Stean arrumou a camisa.

O homem sentado na cadeira parecia desesperado. Estava amordaçado, um pedaço de pano velho enfiado de qualquer maneira em sua boca. Toda vez que ele tentava cuspir o pano para fora, o objeto escorregava mais para fundo da boca. Seus olhos estavam lacrimejando com as ânsias que isso provocava.

Stean sorriu.

O homem estava em um estado não muito bom. O nariz quebrado, sangue sujava seu rosto até o queixo. Faltava alguns dentes em sua boca. O olho direito estava tão inchado que não se abria. Ele mal respirava. Havia hematomas em sua barriga, nos braços, nas pernas e nas costas. E cortes também.

Stean gostava disso.

Encarou um homem, um sorriso sádico se formou em seu rosto. Andou ao redor do estuprador, observando seu trabalho. Enterrou as mãos nos bolsos da calça. O homem seguiu Stean com os olhos, o máximo que conseguiu. Sentiu um soco na nuca e gemeu de dor.

Stean era um carrasco.

Estava nevando e muito. O vento rugia ensurdecedor, o que fez Camile suspirar frustrada. Teria que esperar a nevasca diminuir para poder caminhar de volta para casa. E pelo que ela conhecia do inverno de Beschi, provavelmente não melhoria até o amanhecer. Se isso acontecesse, ela teria que dormir no Instituto. Subiu as escadas até o escritório de Katherine, seu plano era pedir a chave para que, se a nevasca não diminuisse, pudesse dormir no escritório. Camile tinha talento para dormir, era capaz de adormecer em qualquer canto. Bateu devagar na porta.

— Entre! — Katherine exclamou, Camile empurrou um pouco a porta e enfiou a cabeça na fresta entre a madeira e o batente — Aconteceu algo?

— A nevasca aconteceu — ergueu a sobrancelha, Katherine estava ajeitando o french coat — Vim pedir um pequeno favor

— Diga

— Você pode me emprestar o seu escritório? Acredito que a nevasca não vá diminuir até o amanhecer, preciso de um cantinho para dormir

— Você quer dormir no escritório?

— Eu quero na minha cama quentinha, mas com essa neve e esse vento não posso andar até lá.

— Aqui é frio

— Um resfriado não vai me matar — riu baixo, Katherine revirou os olhos e pegou a bolsa e as chaves — Vai me emprestar?

— Não — Camile abriu a boca para protestar — Vou te dar uma carona

— Você mora do outro da cidade e é perigoso dirigir tanto

— Simons, você mora a dois quarteirões daqui, não vou morrer por dirigir alguns metros a mais — pendurou a bolsa no ombro e empurrou Camile para fora do caminho enquanto saia da sala — Prefere dormir no escritório?

— Eu não quero te incomodar

— Eu estou oferecendo, aceite logo

Camile ergueu as mãos em rendição, preferia essa versão um pouco mais gentil e simpática de Katherine. Era quase adorável o modo como a legista agia. Agradeceu mentalmente por Cooper ter decidido estacionar o carro atrás do Instituto, onde era fechado, protegido da nevasca potente. Katherine conferiu os pneus, para ver se as correntes estavam bem presas. As duas tiraram a neve que se acumulou nos ombros. Katherine destravou o carro e entrou, Camile entrou enquanto a legista ligava e ajustava o aquecedor.

Katherine bateu os dedos no volante e saiu da vaga. A neve batia violentamente contra o vidro, o vento rugia e dificultava a visão. Katherine dirigiu o mais cuidadosamente possível. Quando parou na entrada do edíficio, Camile se curvou por cima dela, abriu um pouco a janela e acenou para o porteiro.

Havia neve por todos os lados, os carros tinham uma manta branca em cima deles. Katherine estacionou o carro. A nevasca piorou, tanto que Cooper percebeu que seria uma péssima ideia dirigir naquela tempestade.

— Você não pretende dirigir nesse tempo, certo?

— Não parece uma boa ideia — rangeu os dentes — Pare uma péssima ideia

— É uma péssima ideia, Cooper — destravou a porta — Vamos subir. Meu apartamento é quente e tem um lugar confortável

— Está bem — suspirou e pegou a bolsa — Vamos

Katherine não reclamou quando Camile segurou seu braço, ela sabia que não era nem um pouco seguro caminhar na neve com vento. Do jeito que era, teria caído antes de dar o primeiro passo. Foi um alívio entrar no prédio e parar de ser açoitada pela ventania. Chegaram ao apartamento, Camile tirou as botas na entrada e Katherine seguiu o movimento.

— Está com fome? — tirou o casaco

— Não — encolheu os ombros

— Tem certeza? — andou até a cozinha

— Não precisa se incomodar — tirou o french coat — Vou emperar a nevasca passar e...

— Não vai melhorar até o amanhecer, eu moro nessa cidade há tempo o suficiente para saber que o inverno por aqui é bem complicado.

— Está bem, está bem — suspirou

— Então, está com fome?

— Não exatamente — observou Camile abrir o armário de mantimentos

— Estamos quase no final do mês, do ano, digamos que eu não tenho muita comida — pegou dois pacotes — Apenas tenho macarrão instântaneo, está bem?

Katherine assentiu. Sentou no banco que ficava perto do balcão. Observou Camile fazer os dois pacotes de macarrão e colocar nos potes. Colocou um garfo na tigela, pegou duas latinhas de soda. Sentou no banco, o balcão ficava entre elas. Comeram em silêncio, fazia tempo que Katherine não tinha um pequeno momento daquele. Comendo em paz e com alguém.

Depois de comerem, Katherine observou Camile lavar as duas tigelas.

— Você pode dormir no meu quarto, é mais aquecido — secou a tigela e guardou — Eu fico no de hóspedes

— Mas...

— Não seja teimosa — sorriu em sua direção

— Detetive, não acho boa ideia que a dona do apartamento durma no frio

— Não é frio

— Você que disse isso

— Você me deu uma carona. Está bem, vamos fazer o seguinte, você dorme na cama e eu me arranjo.

— Camile...

— Pare com isso

Katherine preferiu desistir, Camile era insistente demais para ser convencida. A legista, já no quarto, tirar o cinto e o jeans. Escorregou para a cama, para debaixo do cobertor, antes que Camile a obrigasse a deitar ali. Viu Camile colocar cobertores no chão, uma almofada e se deitar. Katherine não gostava disso, mas era melhor aceitar antes que Camile perdesse a paciência e fizesse algum discurso.

Ela esperava que o dia seguinte fosse melhor, e também que o cheiro doce em seu nariz não a fizesse ter sonhos impróprios.