O Jogo em Vermelho

Charlie F. Grosskopf · Capítulo 32 de 50

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O Jogo em Vermelho

Capítulo 32

A raiva e ódio deveriam ser mais que o suficiente para fazer Camile Simons jogar todo seu código de conduta e machucar violentamente Adam Feltre. Destruir ele o máximo que podia. Estilhaçar seu corpo de todas as formas possíveis, fazer ele sentir a mesma dor que ela sentiu. Mas não seria o suficiente, ela sabia que torturar alguém não era a cura que ela precisava

Aquela voz irritante em sua mente mandava ela enfiar logo aquela furadeira em qualquer parte do corpo do estuprador, era seu lado negro querendo tomar conta de cada célula do seu corpo, pegar o controle nos seus nervos, dos seus músculos e fazer o homem sofrer. Camile sabia que Katherine estava bem atrás, sabia que a legista poderia ver cada ação sua. Entretanto, Sarah estava distraindo ela. Tirando sua mente do lugar e fazendo ela voltar a pensar como pensava anos antes.

Se vingar é tudo o que importa.

Ela sabia que não era assim, mas era mais forte. Como se esse sentimento infernal tivesse crescido em uma bolha dentro dela, se multiplicado como vírus e agora acordado. Camile quase sentia o desejo correr em suas veias, quente como lava, queimando como ácido.

Sarah deu um passo para o lado, se afastando um pouco da garota. Sabia que havia conseguido regar a semente de ódio nela. Havia feito toda aquele ódio acumulado voltar a correr dentro dela após todos os anos. Conhecia ela o suficiente para saber o quanto era impulsiva e que estar perto de Adam com um modo de machuca-lo era tudo o que ela havia desejado, mesmo sem admitir, Simons sempre quis ao menos um pouco de vingança.

Ela estava hesitando, afinal, seu lado racional ainda estava lutando para ter o controle total. Sarah sabia o que fazer para destruir a racionalidade e fazer a ira da detetive voltar com toda a força. A loira deslizou para ficar atrás do homem e tirou o pano que o amordaçava. Adam tossiu um pouco, ergueu os olhos para a garota. Ela podia ver o pânico que havia neles, isso fez seu monstro interior ronronar de puro êxtase. Ele murmurou um “por favor”.

Pronto, Sarah havia conseguido o que queria.

Ela viu quando qualquer traço racional foi apagado do olhar de Camile, viu quando a selvageria tomou conta dela. A detetive abaixou a furadeira até o ombro dele, encostou a ponta na pele e empurrou levemente. Ela respirou fundo, firmou melhor as mãos para não perder a precisão e apertou o gatilho.

Atrás dela, nem Margo e nem Katherine tiveram coragem para ver isso, ambas desviaram o olhar e se encolheram quando o grito angustiado e rouco do homem ecoou ensurdecedor pela sala.

Camile não tinha nada para fazer, estava em um verdadeiro tédio. Não tinha que ir ao colégio, não tinha um emprego e nem podia entrar no meio do semestre na faculdade. Seu irmão mais velho já tinha voltado para a universidade, sua irmã sequer era uma opção a se cogitar como alguém para quem ela pudesse ligar. James, o cara mais legal que ela conheceu, estava no seu plantão na delegacia. Sarah havia conseguido a vaga e estava no treino das líderes de torcida e sábado não era dia de nenhuma terapia. Por causa disso, o tédio era predominante.

Ela estava na cama olhando o teto branco, tentando ao máximo manter sua mente longe de qualquer coisa que a deixasse desanimada, exatamente com o psiquiatra havia pedido. Fechou os olhos e suspirou, tentando pensar em algo que pudesse fazer. Os livros estavam na casa, ela não iria até lá apenas para buscar um. Mesmo que sua mão direita estivesse em perfeitas condições (ao contrário da outra, que às vezes doía e era difícil mover, fazia parte da rotina da fisioterapeuta que cuidava da garota ajudá-la a recuperar os movimentos dessa mão), nas últimas semanas desenhar apenas ajudava a alimentar os pesadelos.

Olhou o relógio, as horas passavam lentamente, ela quase sentia os segundos na pele. Girou na cama e ficou com o rosto enfiado no travesseiro.

— Fletcher — Camile resmungou quando ouviu a voz de Sarah — Tire a cara do travesseiro

— Estou tentando ficar entretida

— Existem outros métodos — entrou no quarto e se aproximou da cama — Levanta e se arruma

— Me arrumar para o que?

— Vamos sair — Camile tirou o rosto do travesseiro e a encarou — Sério, estou cansada de comida congelada, vamos sair para comer pizza com o pessoal

— Que pessoal?

— As meninas do time, elas me chamaram e disseram que eu podia levar você

— E por que acha que eu quero ir?

— Não interessa se você quer ou não ir, essa coisa de ser antissocial já acabou. E nem venha dizer que você não tem dinheiro ou roupa — foi até o armário e começou a revirar — É só pizza, não precisa se arrumar como para uma festa. E elas vão adorar saber quem você é

— Todo mundo sabe que eu sou, você mesma disse isso

— Sabem seu nome — tirou um jeans preto — Não sabem como você é

— Sou péssima em ser simpática

— Não precisa ser simpática, você é naturalmente fofa — jogou o jeans na cama e riu quando viu que as bochechas da garota estavam rosada — Viu, já está sendo — Camile revirou os olhos e observou Sarah procurar uma blusa que ela achasse legal. — Por que todas suas blusas são iguais?

— Porque não preciso de blusas diferentes

— Você precisa de estilo — tirou a única peça que se destacava entre os casacos comuns, a jaqueta de couro — Pelo menos tem uma jaqueta legal

— Já não é suficiente?

— Não — buscou uma blusa branca dentro da gaveta — Vista isso aqui e... — se abaixou para olhar debaixo da cama — Você tem coturnos! — ela esticou a mão e pegou o par — Isso é muito legal

— Coturnos e botas são a mesma coisa

— Não são não, ou não teriam nomes diferentes — se levantou e entregou a ela — Tome banho e vista isso

Camile revirou os olhos, mas obedeceu. Algum tempo depois, ela estava terminando de amarrar os sapatos quando Sarah voltou ao seu quarto. De jeans azul-claro, o tênis vans tradicional, a blusa de mangas compridas cinza clara com uma frase aleatória e o casaco xadrez amarrado na cintura. Camile terminou de amarrar e levantou, Sarah riu, a empurrou para fazer ela sentar outra vez e ergueu a nécessaire.

— Maquiagem? — ergueu as sobrancelhas

— É apenas um detalhe — sentou ao lado da garota — Vira pra mim

— Pra que maquiagem? Essa roupa não é suficiente?

— Só um pouco, não vai te incomodar — segurou seu queixo e virou seu rosto — Vamos, fique paradinha

Camile riu e deixou a loira fazer o que queria, não faria mal, certo? Talvez fosse até divertido conhecer pessoas novas e sair um pouco daquela rotina maçante.