O Jogo em Vermelho
Capítulo 36
— Kathy... — Camile chamou, estava sentada no chão, as pernas esticadas e as costas encostadas na cama
— Hm — Katherine estava encolhida, abraçando o travesseiro tentando ficar confortável
— Você já matou alguém? — puxou as pernas para si — O acidente não vale, okay?
— Como sabe do acidente?
— Está na sua ficha — deu de ombros — Não estou falando disso. Matou ou não?
— Por que quer saber?
— Porque você entende mais a Sarah do que eu
— E é preciso ter matado alguém para entender o mal dentro de alguém — sentou devagar na cama
— Mas é preciso ter tido algum contato — ela virou e se ajoelhou ao lado da cama — Ter conhecido algo, visto algo — lambeu os lábios — Você viu alguma coisa?
— Está bem... — Katherine se arrastou para ficar com as costas na parede e bateu no colchão ao seu lado — Senta aqui, eu vou te contar
Camile subiu na cama, de certo modo ela parecia uma criança curiosa, uma garota ansiosa para escutar uma história nova. Katherine puxou a garota para fazê-la deitar a cabeça em suas pernas. A legista abaixou a mão e começou a mexer lentamente no seu cabelo.
— Se fizer isso, eu vou dormir — Camile murmurou e ficou de barriga para cima, olhando a legista, daquele ponto de vista podia enxergar como ela parecia cansada — Você não quer que eu durma no meio da sua história, quer?
— Não, bobinha — respirou fundo — Você leu minha ficha, certo?
— Uhum
— Então... uma parte dela não é exatamente verdade
— Como assim?
— Sobre meus pais, sobre como eles morreram. Eles não morreram em um incêndio.
— Por que mentiram na ficha?
— Porque queriam que alguém me adotasse. Não deu muito certo
— E o que havia de errado com eles?
— Com a minha mãe, nada. O problema era o meu pai
— Por que?
— Ele era um louco. Ele matava pessoas as espancando com um taco de baseball. Minha mãe sabia e escondia isso de mim. Ela nunca me contaria. Eu achava que ele era um cara bom. Ele era um bom pai, o modo como ele nos tratava era ótimo. Mas teve uma noite que ele perdeu o controle.
“Ele estava estressado com o emprego, porque a empresa estava falindo e ele estavam começando a despedir as pessoas. Ela percebeu que ele podia perder o controle algum dia, então quando estava perto do horário dele chegar, ela me fazia ficar escondida no armário debaixo da pia.
“Ela estava certa, ele perdeu o controle uma noite. Eu lembro de tudo tão... tão perfeitamente. Dava para perceber que havia algo de errado desde o instante que ele entrou na cozinha.”
Katherine parou por alguns segundos. Podia fazer muito tempo que aquilo havia acontecido, ela mal tinha completado sete anos quando aquilo aconteceu e ela foi levada para o abrigo, mas era estranho falar sobre aquilo. Eram quase trinta anos. Mesmo depois de tanto tempo, era esperado que ainda houvesse algum sentimento. Entretanto, ela sentia como se fosse outra pessoa.
— Eu ainda lembro dela pedindo para ele parar — continuou murmurando — Mas... não parece que eu estava realmente lá. Não parece que é faz parte da minha história
— Você realmente precisa ir? — Abigail resmungou e sentou na cama, observando Katherine vestir a roupa
— Horários, Carter — revirou os olhos — Você sabe que ninguém pode saber
— Não vão descobrir se você ficar mais cinco minutos aqui — se arrastou para sentar na beira da cama, esticou os braços e conseguiu enganchar os dedos indicadores nas alças por onde o cinto deveria passar — Kate...
— Não... — segurou seus pulsos — Eu tenho que ir. Não posso agir como se trabalhasse tanto — ergueu as sobrancelhas — E daqui a pouco sua namorada chega e não vou correr o risco, okay? Não é apenas sobre você
— Está bem — soltou ela — Você sempre me convence
— Eu sei — riu e colocou a blusa — Posso fazer nada se você não é difícil de ser convencida
— Mereço — revirou os olhos e se jogou na cama com os braços abertos
— Sua idiota — riu, subiu na cama e engatinhou para ficar em cima dela — Seja menos viciada
— E você seja menos sexy — enlaçou seu pescoço com os braços — Olhe, você já está provocando
— Mereço — revirou os olhos e desviou dos braços — Realmente preciso ir
Dois peritos estavam andando ao redor do apartamento procurando provas. Abigail parou em frente a estante e começou a ler os títulos. Uma lombada negra com letras douradas chamou sua atenção, ela já havia vista aquilo em algum lugar. Passou o dedo pela lombada e pegou o livro.
Tinha quase certeza absoluta que havia visto aquele livro. Reparou que havia algo dentro. Olhou ao redor, reparou que os peritos estavam distraídos em vasculhar os papeis em cima da mesa, enfiou o livro rapidamente dentro da bolsa.
Andou pelo corredor, abriu uma porta e deu uma olhada dentro do quarto. Viu um notebook prata jogado na cama. Fechou a porta e caminhou até a cama, sentou nela e puxou o notebook para si. Abriu ele, ligou e esperou o sistema iniciar. A tela delogin surgiu, ela coçou o queixo e se xingou por ter esquecido que ninguém deixava seu computador sem senha.
Então ela chutou: 130786. A tela desbloqueou e o a tela inicial padrão apareceu. “Sério?” pensou “a senha dela é o aniversário da Camile? Essa mulher tem mil planos e é previsível assim?” Ela não sabia o que esperava ver, apenas abriu o gerenciador de arquivos e clicou em cima da pasta de vídeos.
Estavam separados por datas dos últimos três meses, pelo tamanho dos arquivos, ela supôs que demoraria horas para assistir tudo. E Abigail nem tinha certeza se queria olhar. Abriu uma pasta que estava nomeada com outra sequência de letras aleatórias, mais vídeos com datas. Diferente da pasta anterior, eram mais antigos.
Agora Carter estava morrendo de curiosidade para saber o que havia ali.
Capítulo 37
— Você sabe que isso ainda vai te matar — Sarah murmurou, observando Camile acender o cigarro sem sair da cama
— Não vai ser um ou vinte tubinhos de tabaco que vão me matar — encolheu os ombros, o lençol cobria apenas sua cintura para baixo e ela não parecia se importar por estar daquele modo — Precisa mais do que isso para me matar
— Você deveria parar de fumar, isso é ruim — se sentou, cruzando os braços para cobrir os seios — Você sabe disso
— Não precisa se preocupar — suas palavras foram acompanhadas pela fumaça branca — Não se preocupe comigo
— Pare com isso
— Só porque transamos não significa que temos alguma coisa — rosnou, esticou o braço para fora da cama e bateu com o indicador no filtro para tirar o excesso de cinza e ela caiu no chão branco — Por que você quer agir como se fosse algo demais?
— Ser uma canalha, que bebe e fuma como uma idiota, não vai te curar
— Isto é um alívio — bufou e saiu da cama, Sarah observou suas costas enquanto ela juntava as roupas espalhadas pelo quarto as chutando — Não quero nada mais que isso
— Um alívio que vai matar você
— Você não entende — pescou a boxer e a blusa na bagunça, jogou a guimba na lata de lixo — Não tente entender
— Eu não estou tentando entender — se arrastou para a beira da cama — Estou tentando ajudar
— Pra que? — colocou a roupa — O que acha que nós somos?
— Você é a canalha e eu sou a babaca — se levantou, com raiva e parou em frente a garota — E pra você? O que somos?
— Nada — pegou o maço de cigarro — Você é babaca porque você quer
— Agora sou babaca porque quero? — agarrou o braço da garota e a obrigou a se virar — Estou tentando te ajudar
— Não quero sua ajuda! — gritou — Não quero porra nenhuma de ninguém! — se livrou da pegada — Se você quer algo mais do que foder, arranje outra pessoa!
Caminhou para a porta do quarto, se sentindo doente. Sabia que estava sendo injusta, mas era algo que não podia controlar. Não queria um relacionamento, não queria nada. Agarrou a maçaneta e grunhiu baixo, agoniada, quando sentiu Sarah agarrar sua blusa. Fechou os olhos com força, não queria que a menina insistisse tanto em querer ajudá-la.
— Mile... — a puxou para si e envolveu sua cintura com força para que ela não escapasse — Pare de fugir
— Não estou fugindo — bufou e agarrou os pulsos — Me largue, porra
— Não vou te largar até você aceitar que não vai ser se matando lentamente que vai ajudar você
— Eu não quero ajuda — grunhiu com o tom agoniado e suplicante — Eu não quero machucar ninguém com o meu caos
— Você está me machucando fugindo — segurando sua cintura, fez ela se virar — Pare de fazer isso, por favor
— Eu não estou fugindo, não há o que fazer
— Então me explique porque você lutou tanto para sobreviver, mesmo sabendo que seria tudo diferente — viu a garota abaixar a cabeça e murmurou — Eu gosto muito de você...
— Me solte — grunhiu, Sarah segurou sua cintura e a girou
— Isso não faz sentido! — soltou ela, deu alguns passos para trás e caiu sentada na cama — Normalmente as pessoas reagem destrutivas logo depois de um trauma — suspirou — Mas já são quase três anos e só agora você começou com isso... Por que agora, Camile? Por que quando você está quase entrando pra Academia? Você está desistindo de tudo... Mas por quê?
— Eu disse que você não entenderia — disse com a voz mais fria que ela podia, abriu a primeira gaveta da mesa-cabeceira e pegou o maço quase vazio
— Não, não — levantou rapidamente e agarrou os pulsos — Larga isso
— Sarah...
— Olha pra mim — pôs a mão em seu rosto e fez ela encará-la — Eu amo você... Eu não estou pedindo que você sinta o mesmo por mim. Eu só quero que você pare de se autodestruir — acariciou sua bochecha com o polegar e falou baixo, a encarando, perto o suficiente para sentir o hálito de cigarro mentolado misturado com algo doce que ela não reconheceu — Você não entende que dói ver isso?
Camile desviou o olhar e cruzou os braços. Sabia que Sarah estava esperando uma resposta. Mas Camile não tinha o que dizer. Não podia rejeitar, olhar naqueles olhos castanhos claros e dizer que ela deveria desistir. Não podia aceitar, queria destruir apenas a si mesma, machucaria muito menos mantê-la longe. E não podia ficar calada, ela não sabia o que falar.
Passou a vida inteira sendo a garota calada que se escondia atrás da própria inteligência. E essa inteligência não cobria a parte sentimental, ela não lidava com emoções. Afinal, era mais fácil esconder o modo como Rebecca agia quando fingia estar interessada demais nos estudos para se aproximar de alguém. Quando encarcerava cada sentimento em uma caixa trancada a sete chaves dentro do seu peito.
Então Camile não sabia como lidar com emoções porque elas machucavam. Simons sabia lidar com dor.
Raiva e ódio eram incontroláveis. Medo e nojo deixavam ela completamente irracional. Amor era estranho, diziam que quem ama protege. Seu pai e seu irmão diziam que a amavam, mas nunca conseguiram protegê-la de Rebecca. Sentimentos eram o ponto fraco dela, deixavam ela confusa mesmo que ela gostasse de imaginar que alguma hora aprenderia tudo aquilo.
Enquanto não entendesse, ela seria uma idiota.
Sarah talvez não visse esse defeito, para ela não era complicado sentir. Ela sentia demais, dava tudo de si. Então ela só queria que Camile deixasse ser cuidada. E não fazia ideia que a garota estava fugindo, caindo em um poço de autodestruição pelo simples motivo de não saber como agir.
Ela não estava apenas apaixonada, estava começando a amar.
— Por que você não pode simplesmente desistir? — precisou de toda raiva que era capaz de direcionar a Sarah para fazer aquela pergunta
— Porque eu não sou capaz de desistir de quem eu amo
— Então pare de me amar e você vai ser muito bem capaz de desistir de mim
— Camile, Camile — respirou fundo — Você não sabe nada sobre amor
— E nem pretendo saber — segurou seus pulsos e afastou suas mãos dela — Tenho coisas muito melhores para fazer do que viver ilusões
— Ilusões? — ergueu as sobrancelhas, surpresa com as palavras — Você acha que eu amar você é uma ilusão?
— O que garante que não é? — ergueu as sobrancelhas, seu olhar era tão frio quanto gelo e o tom era vazio — Nada garante, Parker
— Então vá pro inferno — espalmou as mãos em sua barriga e a empurrou — Você e sua canalhice — Camile a encarou com o cenho franzido — Você não queria sair daqui? Agora vai
Empurrou ela até a porta, abriu e praticamente jogou a garota para fora. Fechou a porta com toda a força. Camile ficou alguns instantes encarando a madeira escura. Fechou as mãos, respirando rápido de raiva. Raiva por Sarah ser tão insistente e raiva por estar tão confusa com o que queria.
Ela odiava ser tão inconstante. Tão imprevisível que nem ela mesma conseguia saber exatamente como agiria. Era como se não conhecesse mais a si mesma.