O Jogo em Vermelho
Capítulo 05
Orgulho brilhava nos olhos do homem naquele momento, vendo a garota terminar de se arrumar. O uniforme era perfeitamente ajustado ao seu tamanho, escuro e contrastava com a pele tão clara dela. Ela sorriu, ele também e a abraçou. Mal podia acreditar que era a garota que quase ele havia salvo anos antes. A garota que por semanas ele havia achado que nunca mais acordaria. E ali estava ela, na formatura. A melhor da classe, com a maior chance de crescer na carreira. Ele poderia correr de felicidade, mas apenas a abraçou. Forte, muito forte, como se não pudesse a deixar ir. Mas deveria, precisava.
— Minha garota
Ela poderia voar.
Kriss correu, em disparada, estava no horário de acordar Camile. Pulou e aterrissou em suas costas, a fazendo acordar e quase pular. Ela gostava da sensação, as patas geladas nas costas, ele andando até seu ombro e se esfregando na sua orelha. Ronronando e pedindo comida. Ela o puxou, deixando ele de barriga para cima e enfiou o rosto no pelo quente e macio do gato.
Seu momento com o felino foi interrompido com o toque do telefone, o bicho rosnou quando ela se esticou para pegar o aparelho e parou de fazer os carinhos que ele tanto adorava. O identificador de chamadas mostrou que era Katherine, o que era estranho.
— Katherine? — resmungou, ainda acordando e com a voz levemente abafada por ter enfiado o rosto outra vez na barriga do gato — O que aconteceu?
— Temos um novo corpo — ela parecia estar se movendo com pressa — O endereço é relativamente perto das Host's Hill
— E por que você está tão... — ela não sabia exatamente como se expressar — Você nunca está acordada no horário — rolou na cama para sair
— Ele está em um açougue, Simons — Camile para ouviu ela resmungar xingamentos e o som do carro sendo ligado e se perguntou se a garota havia tirado a neve antes de ligar ou alguém havia feito para ela — É uma merda
— O que há de tão errado com isso? — perguntou enquanto andava em direção a cozinha — Ele não pode estar tão pior assim
— Ele não é daqui, sua identidade diz que ele é da capital
— Capital? — com uma mão, tentou não derrubar tudo enquanto colocava cereal na tigela — Agora o governo vai querer mandar agentes
— Eles já mandaram — bufou — Esse é o problema, mandaram uma agente
— Você não parece gostar dela — riu enquanto observava Kriss enfiar o focinho dentro da tigela e empurrar flocos de milho grunhindo por não ter leite
— Eu não gosto de agentes federais
— Teoricamente eu também sou — claro que era, ela trabalhava para o governo e não para a polícia local
— E quem disse que eu gosto de você?
— Ouch — jogou leite dentro da tigela e tentava pegar cereal enquanto o gato não lhe dava chance — Essa doeu
— Eu não quis te ofender — suspirou
— Estou brincando — empurrou a tigela, desistindo de tentar competir com o bicho — Mas você parece muito irritada com ela, mais irritada do que comigo
— Por que você acha que eu estou mais irritada com ela do que com você?
— Apenas acho — voltou para o quarto e pegou roupas, podia imaginar Katherine revirando os olhos
— Esquece isso, apenas vem
— Ótimo — resmungou — Endereço?
— É perto da Host's Hill, é o açougue abandonado
— Por que diabos o cara largou o corpo em um açougue abandonado?
— Não está apenas largado, o policial disse que é algo grotesco
— Todas as cenas são
— Apenas venha, rápido
E desligou.
Katherine parecia com um humor pior do que o comum, os braços cruzados e a esperando. Havia um policial e um perito perto dela, e um perito conversando com uma mulher que Camile sabia que conhecia ela de algum lugar. Não fazia ideia de onde, mas algo nela era familiar. E Katherine a encarava com um olhar de ódio, diferente de como olhava para a detetive, que era apenas um pouco de irritação. Na verdade, a legista olhava a todos com indiferença, menos Camile, e agora para aquela agente.
— Você a conhece? — parou atrás dela
— Isso não te interessa — rosnou e virou em direção a entrada — Vamos
— Cooper, acho que eu posso saber, já que você detesta tanto ela
— Não, você não pode — girou para ficar de frente a ela, com o mesmo olhar de ódio que lançava à agente — Então pare, está bem? Pare de tentar ser legal comigo, pare de tentar ser minha amiga. Eu não quero isso, não quero que se aproxime de mim. Então pare de ser assim. Fique longe de mim
Camile deu um passo para trás, não esperava aquele tipo de resposta, como se tivesse levado um soco no estomago. Não precisava saber, não eram amigas, apenas duas mulheres que estavam sendo obrigadas a trabalhar juntas em algo tão difícil e complicado quanto assassinatos. Mas também não precisava desse tipo de reação. Katherine voltou a andar em direção aos fundos, onde ficava o depósito e onde estava o novo corpo. Camile enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e a seguiu.
Era um corredor curto, o cheiro de sangue ficava mais forte enquanto se aproximavam do depósito. Camile presumiu que talvez a tal agente entrou antes e já havia visto o corpo e que Katherine estava irritada com isso.
A legista sabia que não precisava ter respondido daquele modo, com aquelas palavras e aquele tom. Podia apenas ter dito que não queria conversar ou algo do tipo. Não era culpa da detetive se algumas coisas a estressavam a ponto de fazê-la quase explodir de raiva. Ela não queria explicar que conhecia a agente, muito menos o tipo de relacionamento que tiveram.
Então apenas se concentrou no caso.
O depósito era grande, bem grande. Dezenas de ganchos pendurados pelo teto. O homem estava pendurado em um deles, Katherine se aproximou dele, fedia a sangue e urina. Ele estava em estado deplorável, cheio de hematomas e feridas. Esperava que Camile falasse algo, mesmo depois do que ela havia dito, então virou para ver o que a garota estava fazendo.
Camile estava parada na porta, paralisada encarando o corpo. Ela sentiu se estomago se revirar, querendo expulsar o pouco cereal e leite que ela havia consumido. Sentiu que suas mãos estavam ficando geladas dentro das luvas e sabia que estava pálida. Mais branca que o normal e a garganta se fechando. E também que suas mãos estavam começando a tremer, ela as fechou para tentar controlar algo. Parecia que um tanque estava em seu peito, estava difícil respirar.
Reagindo fisicamente à imagem.
— Ei, o que houve? — caminhou em sua direção, Camile deu alguns passos para trás como se tivesse se assustado com a proximidade — Simons?
— Eu... eu só não... — limpou a garganta, a voz entrecortada e mais aguda que o comum — Eu não esperava que estivesse tão ruim, que ele estivesse... — gesticulou em direção ao corpo — Pendurado
— E eu não esperava que você fosse sensível
— Eu não sou sensível — resmungou e olhou pelo depósito, para as paredes e para o chão, evitando os ganchos e principalmente o homem
— Você parece que vai vomitar — parecendo esquecer o que havia dito sobre não serem amigas, Katherine tirou a luva de látex e pôs a mão na testa da detetive — Você esta gelada — antes que ela pudesse se controlar, empurrou a detetive delicadamente pelos ombros para longe da cena de crime, que se encolheu ao toque —Eu não vou te machucar
Camile não disse nada, deixou que Katherine a levasse até o lado de fora. Para onde era aberto e frio, onde não fedia e não havia um homem pendurado em um gancho. A mulher que Camile supôs ser a agente não estava mais ali, havia apenas os dois peritos e o policial. Nenhum dos três falou algo sobre como a detetive parecia doente, eles sabiam o quão feio estava a cena e também que todos tem dias ruins, talvez esse fosse um.
Katherine praticamente a arrastou para o carro e a fez entrar nele. Era uma médica, mesmo que muitos esquecessem desse detalhe, ela era formada em Medicina antes de se especializar em Medicina Forense. Sendo assim, ela sabia como cuidar de uma pessoa e também podia diagnosticar algumas coisas. Muitas coisas, na verdade. E seu instinto dizia que Camile estava em algo entre um ataque de pânico e choque. Ligou o aquecedor e apenas ficou observando a detetive, que encostou a cabeça no apoio do banco e abraçou o próprio corpo, com um pouco de dificuldade, puxou as pernas para cima do banco e se encolheu quase como uma bola, enfiando o rosto entre os braços.
Não demorou muito tempo para Camile abrir a janela do carro e enfiar a cabeça para fora e expulsar a pouca comida que tinha dentro do estomago. Katherine pegou uma garrafa d'água que estava no porta copos e lhe deu, ela não pensou duas vezes antes de bochechar com um bocado e depois beber quase metade.
— Melhor?
— Sim — sussurrou, continuou com as pernas para cima, mas não enfiou o rosto entre os braços — Você não precisa ser legal comigo
— Não estou sendo legal com você — pôs o cinto de segurança — Não se deixa sua parceira desmaiar na cena do crime
— Eu não ia desmaiar — virou o rosto em sua direção
— Não? — riu — Ok, não se deixa sua parceira vomitar na cena do crime
— É um argumento válido — admitiu e, com quase a mesma dificuldade, colocou as pernas no lugar certo — Você não precisa me dar uma carona
— Você não parece muito bem — manobrou o carro para entrar na pequena rua — Eu não sou louca de te deixar andar por aí nesse estado
Camile não reclamou, apenas encostou a cabeça no apoio e fechou os olhos. Se amaldiçoando por ter essa reação nem um pouco discreta. Ao menos não desmaiou e Katherine não a encheu de perguntas. Ela não esperava que seu corpo reagiria a visão, ela não estava acostumada com isso. Era irracional e a fazia se sentir uma criança, fazia muito tempo que seu corpo reagira a algo sem seu consentimento. Mas naquela época, aquilo fora bom e ela podia culpar os hormônios. Agora, não havia hormônios a serem culpados ou desiquilíbrios psicológicos.
Era apenas um homem morto.
Então desviou os pensamentos para descobrir de onde a mulher era familiar, aonde ela havia visto. O nome, o nome dela parecia escapar toda vez que ela chegava perto. Camile conhecia a agente, talvez não pessoalmente, mas sabia de algo sobre sua vida. E também que isso estava relacionado a Katherine, ela apenas precisava lembrar.
Apenas lembrar.