O Palhaço e o Psicanalista
A Escuta Lúdica Como Jogo de Linguagem
7 A escuta lúdica como jogo de linguagem
Assim como o palhaço, o psicanalista tem que se despir de suas próprias vestes egoicas, suspendendo juízos, valores e preconceitos, assumindo a roupa disponível para o papel requerido pelo paciente. Iniciamos nossa escuta como iniciamos uma viagem, que será conduzida pelo próprio paciente. Como convidados, é importante levarmos mínima bagagem possível, se não quisermos definir o roteiro ou estabelecer nossos próprios interesses quanto a ele. Nos despimos assim de nossos interesses e deixamos cair nossas pretensões palacianas, inclusive a de agradar e de ser amado pelo outro.
O que estamos chamando de escuta aqui é uma espécie de subversão calculada do esquema que usamos para pensar a linguagem como um meio de comunicação. Para o escutador, a linguagem é muito mais do que isso. Tradicionalmente pensamos a comunicação como uma operação a cinco termos:
Estas cinco funções inspiram diferentes atitudes de escuta:
1. Escuta hospitaleira: é centrada no receptor e no pacto que ele estabelece e reformula a cada
vez com o emissor.
2. Escuta como hospital: é orientada pelo exame da mensagem, nos signos e nas regularidades
que ela propõe, nos seus efeitos de repetição ou de estranhamento, na análise mesma da literalidade do dito.
3. Escuta como hospício: revê e reinventa os códigos e canais em uso, corrompe o sentido
corrente e o senso comum, criando novos usos e relações entre as palavras.
4. Escuta hospedeira: se volta para o fato de que aquele que foi receptor em outro momento
torna-se emissor, transmitindo a mensagem recebida, conservando sua fidelidade e mantendo o rigor de seu acontecimento.
5. Escuta lúdica: confunde e altera a hierarquia das funções, subvertendo a comunicação.
A comunicação perfeita aconteceria quando o emissor envia uma mensagem que supostamente traduz o que está em sua mente ou na realidade referencial, em um código (língua, por exemplo) por meio de um canal (carta, e-mail, fala). O receptor sanciona o código, valida o canal e traduz a mensagem, reconstituindo a ideia original. O fato de que mensagens circulam do emissor ao receptor, que na sequência se tornará ele mesmo um emissor, forma uma espécie de relação entre emissor e receptor que tende a antecipar certos efeitos de código e de mensagem. Um bom exemplo do funcionamento deste esquema é a relação que a criança pequena tem com certas histórias que ela escuta. Ela invariavelmente pede para o adulto contar de novo e repetir a narrativa com aquelas palavras exatas (hospedeiro). Ela quase sempre se fascina com os personagens malvados, como a bruxa e o lobo (hospício). Ela investiga a relação entre aqueles personagens e os signos que compõe a sua realidade (hospital). Ela sempre estará disposta e hospitaleira a escutar aquela mesma história como se fosse a primeira vez. Finalmente a escuta espontânea da criança é lúdica, escutar uma história é construir uma brincadeira.
Ora, esse esquema é válido para pensar a comunicação, mas se adapta com algumas dificuldades quando falamos da escuta. Nela, por exemplo, nem sempre o conteúdo informativo da mensagem é o mais importante. Para a escuta às vezes o essencial está nos desencontros e nas contradições entre código e canal, ou na incoerência entre a mensagem enviada e a recebida. Mas, principalmente, para os escutadores profissionais, trata-se de fazer o sujeito escutar sua própria mensagem que lhe chega invertida e cifrada a partir do outro. Nos interessa, como dissemos anteriormente, antes de tudo, que o sujeito “se escute” – se acolha e se cuide – para então poder escutar o outro.
Os estudiosos da história dos jogos[6] detectaram quatro tipos principais de atividades lúdicas no ser humano. E essas formas de brincadeira podem nos ajudar a perceber como a arte da escuta é uma espécie de arte do desequilíbrio do “bom funcionamento da linguagem”. Algo assim como quando usamos de outro jeito o que foi projetado para uma finalidade ou com um propósito diferente do original. Vejamos estes quatro tipos associando-os às funções da linguagem:
Jogos do tipo Antagonista-Cooperador colocam o outro como aliado (parceiro) ou antagonista (adversário). São os jogos mais correntes, como o futebol e o basquete, ou o xadrez e o gamão. Observe como eles geralmente se organizam em turnos, rodadas ou em oposições do tipo ataque e defesa, como a nossa conversa que inverte quem fala e quem escuta segundo uma alternância temporal. A mensagem que endereçamos ao outro terá também essa dupla valência, conjugando os interesses de um contra os interesses do outro. Jogos coletivos conseguem incluir interesses comuns de vários, combinando assim mensagens cooperativas e competitivas simultaneamente.
Jogos do tipo Mimicri são aqueles que têm estrutura ficcional ou de “como se”. Nestes cria-se um campo de realidade simulada, com regras abertas ou fechadas nos quais se mantêm relações de comparação ou de divergência com o mundo no qual a brincadeira se opõe, mas sobre o qual ela reflete. A brincadeira não é apenas uma atividade autogratificante e prazerosa, ela é também uma forma de pensar e simbolizar. Brincar de boneca ou de super-herói não é apenas uma preparação modificada para nossos papéis sociais vindouros, também ajuda a dar forma aos nossos ideais e desejos, a reconhecer as “regras” do jogo social no qual estamos imersos e, portanto, abrir soluções inusitadas para problemas mal formulados.
Jogos do tipo Alea são aqueles nos quais o motivo lúdico é o acaso. Jogos de dados, roleta ou também chamados “de azar” constituem um modelo para negar a principal função dos códigos de comunicação, que é estabelecer como as coisas devem ser ditas para serem bem compreendidas. O “ruído” na comunicação, o desentendimento e o equívoco geralmente indicam que o código não é tão fechado nem tão coercitivo assim. Ele pode gerar combinações imprevistas, de sorte ou azar, que nos fascinam porque são também um forte modelo para pensar a criatividade humana.
Finalmente os jogos do tipo Ínlix são aqueles nos quais trata-se de produzir uma sensação em nós mesmos, que nos tira do lugar ou da posição de senhor e dono de nosso próprio corpo ou de nossa alma. Por exemplo, quando a criança gira em torno de si até cair, brinca de prender a respiração debaixo da água, ou anda em cima de uma linha ou estabelece que só pode pisar no branco ou no preto de um quadriculado, ela está se propiciando uma situação de transe, espasmo ou concentração que a tira do mundo, e portanto nega o seu lugar soberano de administrador soberano de sua mensagem.
Escutar o outro é como um jogo que envolve estratégia e tática, ler as regras escritas e não escritas a partir das quais aquela pessoa se expressa, pensa e se coloca diante do outro. Um bom escutador sabe sempre que tipo de jogo está sendo praticado, justamente para, conforme o caso e a situação, promover giros ou mudança no tipo de jogo, e a mudança fundamental aqui é a do modo “não lúdico” para o modo “lúdico”.
Na relação de escuta, tudo se passa como se problematizássemos na prática nossos modos de circulação de informação e de troca de mensagens e, para isso, nos perguntamos ou fazemos o nosso interlocutor ouvir a nossa relação com ele quando ele esperava apenas a eficácia da transmissão da mensagem, ou então a ressonância poética quando ele pedia por uma referência descritiva. Como bufões, nos fazemos desentender para revelar que o mal-entendido é a essência da comunicação.
Uma das coisas que tem tornado a experiência da escuta mais difícil e rara é que os progressos de nossa individualização nos tornam cada vez mais buscadores de resultados concretos e mensuráveis, o que nos subtrai do caminho e nos coloca antecipadamente em pontos de chegada. Escutar é essencialmente estar no caminho. Observe uma mãe ou um pai levando uma criança a pé para a escola. Enquanto os adultos correm querendo chegar, seus filhos brincam de pisar só nas pedras brancas, só nas pedras pretas, de andar em cima da linha ou de chutar pedrinha. Perguntam a todo instante, o que é isso, e por que aquilo. Obcecados, ou viciados em chegar, os adultos se esquecem de que a vida é feita de idas, idas e idas. Não à toa ao ficarmos velhos nos chamarão de idosos. Cegos e surdos ao caminho olhamos, às vezes tarde demais, para trás.
Olhamos para situações com uma espécie de óculos de avaliação bifocal. Na parte de cima enxergamos os riscos e benefícios, a segurança e a promessa. Mas na parte de baixo está nossa pequena máquina de calcular benefícios e investimentos, de modo que as relações tornam-se crescentemente organizadas por uma espécie de contabilidade de interesses, com o óbvio posicionamento de vencedores e vencidos. Isso afeta muito a situação de escuta, pois ela é, por definição, centrada mais no processo que no produto, mais dependente de caminhar junto que de chegar ao lugar certo.