O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 44 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Escutando Chatos, Fascistas e Outros Fanáticos

42 Escutando chatos, fascistas e outros

fanáticos

 

Wittgenstein dizia que “os limites de minha linguagem são os limites de meu mundo”.[48] Ele também afirmava que o humor é uma visão de mundo. Todo escutador deve ter se deparado com situações-limites, obstáculos incontornáveis e pessoas que definitivamente não querem ser escutadas. Elas querem se obedecidas, respeitadas, admiradas ou então querem continuar a falar sozinhas, e por um descaminho da vida, dividem a vida, ainda que por um breve encontro com você. Para o psicanalista e para o palhaço esses são os pacientes difíceis e os auditórios insuportáveis. Parecem ter decidido que você quer agradá-los e que eles não vão concordar com isso, seja lá o que você faça ou tente fazer. A graça da conversa, para esse tipo de pessoa é o corte, dar uma resposta que te “esnoba” ou que insiste em colocar uma legenda fática: “Não preciso de você” embaixo de qualquer coisa que você diga ou faça. Estamos falando dos preconceituosos, turrões, convencidos que atravessaram a história de todos os que temem entrevistas, apresentações e outras situações de conversa “necessária”. O entrevistador sádico é um personagem de nossos sonhos, seja na véspera de decidir aquele sonhado emprego, seja no dia antes de chamar alguém para sair, seja na hora de dizer aquela palavra difícil.

Aqui, a escuta lúdica é muito importante, mas nunca presuma que o outro quer brincar. Há muita gente que se compraz em levar a bola para casa, discutir regras em vez de jogar e desmanchar o prazer alheio como forma de satisfação narcísica. A escuta torna-se particularmente difícil quando estamos diante de temas como religião, política ou valores morais. Nesses casos, colocar o assunto em pauta e iniciar a jornada da escuta significa suspender as certezas de que temos sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Para muitas pessoas, particularmente em situações de vulnerabilidade, isso é impossível. Nesse caso, em vez de viajar, a conversa se tornará uma defesa de castelos (às vezes vazios).

Entretanto também esses são os casos em que mais se aprende sobre escutar os outros. São os casos nos quais os limites do seu mundo, e não apenas do outro, são testados.

Comece imaginando que sempre se é o irracional de alguém. Ou seja, sempre haverá alguém que o considerará louco, ignorante, incapaz de discutir e desqualificado em relação ao nível e ao consenso em que aquela pessoa vive. Considere que para, muitas pessoas, a conversa se reduz a saber quem você é, não o que você faz, o que você gosta ou o que vocês podem fazer juntos. Há pessoas para quem a empatia é apenas um embuste, usada para parecerem mais simpáticas, obtendo assim alguma vantagem. Ou seja, a empatia é uma qualidade dos fracos, que precisam de outras pessoas e não são autossuficientes. Considere que para essas pessoas você é simplesmente alguém que está a mais no mundo, atrapalhando o glorioso destino que o outro já estabeleceu para si. Para isso é preciso despir-se de si, considerar que aquela pessoa de fato nunca vai começar a conversa falando com você, ela pensa e transfere os próprios preconceitos ou estereótipos que tem com relação a alguém que é “como você”. É por isso que a arte da escuta começa por ser capaz de desnudar-se, mas também por abrir mão de si, despossuir-se. Só assim você poderá deixar-se ser colocado em um lugar imaginário que seu interlocutor adora colocar os outros. Entenda que ele não consegue fazer diferente.

É muito importante localizar o lugar em que você é colocado. Pense no preceito bíblico “conhece teus inimigos”. Ele não vale para você confirmar os outros que não são iguais a você, mas para saber como eles pensam, o que eles pensam de “gente como você”. Isso é muito importante para seguir a pista número 1, ou seja, acolher com hospitalidade o ogro que você tem pela frente. Logo, não confundir hospitalidade com ingenuidade.

A reação que esse funcionamento desperta nem é sempre de desagrado. Mas atenção: nunca responda a esta primeira impressão. Tente “livrar-se da marcação”, “fazer-se de” ou, simplesmente, rir da situação ridícula que o outro está criando.

Quando isso é subjetivamente possível, o que nem sempre é o caso, podemos pensar no segundo movimento que é: responder de outro lugar que não aquele no qual você foi colocado. Para isso será importante não apenas se despir de quem você é, mas também suspender, ainda que por algum tempo, seus próprios interesses. A atitude diagnóstica ajuda muito nessa situação. Ou seja, em vez de enfrentar o problema, responder às provocações ou aos brados de conflito, examinar o caso como se estivéssemos diante de uma doença. Nenhum médico receita nada antes de muitas perguntas. Ganhar tempo não é só adiar o enfrentamento, mas estudar esse personagem fantasma que o outro está fazendo sobre você. Se for possível, ofereça alguma confiança ou alguns traços de pertinência. Gente preconceituosa está sempre atrás de outro preconceituoso para confirmar a sua crença. Esse é um ótimo exercício para descobrir o canalha que existe dentro de você mesmo. (Ele sempre está aí em algum lugar, se você não o conhece você não se conhece).

Se você ainda não perdeu a paciência e desistiu do jogo até aqui é a hora de testar adversidades. Experiente algumas frases como “Você tem toda razão, mas…”, ou então “Já passei por algo assim, e neste caso…”. O tempo será um fator decisivo a partir daqui. Nunca tente fazer seu ponto logo na segunda volta. É preciso deixar que a simpatia inicial se torne uma espécie de jogo cognitivo, no qual a situação hipotética está em primeiro plano. A criação dessa espécie de cena paralela, ou de metáfora da situação, é muito importante para evitar o que todo preconceituoso quer, que é a realização e confirmação de sua própria maneira de ver o mundo.

Nesse caso, sua capacidade de ir e voltar entre plano lúdico e o plano de seriedade, ou entre a gramática cooperativa e a competitiva será testada ao limite. Nunca tente de saída usar bons argumentos, dados e evidências, mesmo que o outro esteja flertando com isso. Se você ainda estiver em pé a essa altura da conversa, será possível começar a entender qual é o ponto de vulnerabilidade que aquele exagero de convicção está contribuindo. Posto isso, invista sobre o alvo mais importante. É a experiência repetida de demissões e fracassos no trabalho, ou o sentimento persistente de que sua origem humilde o torna inferior, ou a sua insegurança sexual ou relacional? O hospício de uma loucura muito diferente da sua é sempre o pior hospício.

Por isso, aproximar-se de alguém que não quer compartilhar nada com você não precisa começar por qualquer atitude bondosa de auxílio, solidariedade ou ajuda. Pelo contrário, brinque de bancar o escravo do mestre. Peça que ele dê mais explicações e crie mais argumentos, como se ele fosse o professor e você o aluno. Nunca tente estabelecer as regras do jogo e depois convidar a pessoa para “dançar”, porque o que define um chato, dogmático ou fanático é que no mundo dele só ele faz as regras. Nunca tente estabelecer uma conversa “razoável” com aquele que está apenas interessado em criar efeitos de convencimento, de exibição ou de pirotecnia narcísica. Este é o exercício básico: suportar e achar interessante conversas cuja estrutura não é o diálogo colaborativo com vista ao fim colaborativo comum.

Só depois disso, faça o lance decisivo: responda de outro lugar que não o que você foi colocado. Esta surpresa só pode ser realizada uma vez a cada oportunidade. Lembre-se, nessa situação, o mais importante é continuar vivo e brincando. Se você submergir ao espelho que o outro propõe, estarão rapidamente gritando cada qual consigo mesmo ou rolando na lama das vaidades e dos ódios.

Considere em detalhe a situação de escuta. Uma conversa a dois é totalmente diferente de uma conversa diante de um “público”. Entenda que muitas vezes seu verdadeiro interlocutor não é seu “oponente”, mas os que acreditam ou estão sendo oprimidos por ele. O inverso também deve ser detectado. A pessoa está realmente falando com você ou te usando para se exibir aos amigos, que acha que pensam como ela? Observe cuidadosamente a reação do auditório. Não ignore os pequenos sinais de assentimento, e, portanto, de aliança, que podem advir de pessoas que também acham o tal sujeito de “difícil trato”. Aliança, ainda que tácitas ou silenciosas, com outros que estão sendo sistematicamente achacados, pode ser um ponto crucial, para gradualmente deslocar, gradual, mas intencionadamente, a conversa para uma posição terceira, deflacionando o poder do interlocutor.

Tenha uma coisa em mente só para você. Isso tudo é um exercício para ampliar o tamanho do seu mundo e não uma manobra para salvar almas alheias ou trazer pessoas para o Lado Bom da Força. A vida como ela é, e o mundo como ele é incluem fanáticos, chatos e calhordas. Se você quer seu condomínio exclusivo e customizados sem eles você está no fundo praticando o mesmo fechamento do qual eles obviamente padecem. Para isso, é preciso ser capaz de levar o jogo da escuta mais a sério do que levar você e seus valores a sério.

Responder de um lugar diferente do qual você foi colocado pode significar:

1. Criticar ícones representativos da sua própria posição.

2. Mostrar-se em dúvida ou incerto quanto a determinados juízos óbvios.

3. Deslocar o protagonismo da conversa para uma posição terceira, nem a sua, nem a de seu

interlocutor.

4. Mudar o rumo da conversa sistematicamente até que não fique mais claro ou determinado o

que “você quer dizer ou provar”.

5. Incluir terceiros e quartos na conversa, como que a chamar testemunhas ou instabilizar as

relações de forças.

6. Diga o que você está dizendo, a cada vez, de uma maneira totalmente diferente, variando

exemplos, argumentos e fatos, o máximo que conseguir. Quando perceber que está repetindo palavras, elevando a voz ou insistindo em um mesmo ponto, interrompa a conversa.

7. Saiba parar quando está perdendo. Este velho e difícil conselho aos jogadores compulsivos

não significa sair de campo quando o outro fez o melhor argumento e você declara-se derrotado. Entenda que este jogo é você contra você mesmo. Toda vez que você perde a paciência, desiste de responder, bate boca ou apenas luta para encaixar mais um golpe que você perdeu. A tentação de jogar o jogo da escuta é a de enfrentar os adversários mais inexpugnáveis e mesmo assim não perder para si mesmo, ou então reconhecer claramente a hora que perdeu e está apenas deixando a raiva tomar conta do cavalo louco.

Apesar de todos os seus esforços, nunca faça uma medida muito imediata dos resultados. Nunca espere uma declaração óbvia e ostensiva do tipo: “Estou convencido, você tem razão”. Muitas pessoas que parecem totalmente insensíveis ao que você diz, comportando-se com uma porta fechada sem maçaneta, podem estar justamente dispostas a pensar no que você disse em particular. Os melhores argumentos são aqueles que agem na solidão do travesseiro.

Arthur Shopenhauer escreveu um livro sobre como vencer um debate sem ter razão:[49] exagerando os exemplos, traduzindo deslealmente o que o outro diz, passando do ocasional ao necessário, partindo de premissas falsas ou não explicitadas, mudando a pergunta ou perguntando desordenadamente, deixando o outro com raiva, dando pistas falsas, manipulando as definições, forçando escolhas desnecessárias, declarando-se vitorioso, argumentando a partir de quem o outro é (não pelo que ele diz, pensa ou faz), interrompendo a conversa, citando autoridades, ironizando, rotulando ou julgando o outro, usando palavras ou referências difíceis para expor a ignorância alheia, invertendo a causa pela consequência ou ofendendo pessoalmente o outro. Tais estratégias são recursos de quem está mais interessado em ter razão do que brincar, instruir-se ou transformar uma determinada situação. É muito difícil renunciar a ter razão, especialmente quando isso trará sentimentos de diminuição de si, vergonha ou desamor, mas, nesse caso, lembre-se de que a última coisa que um palhaço ou um psicanalista estão interessados é em ter razão. Quando isso acontece, cada qual deve considerar uma reanálise ou um curso extra de palhaço. Ter razão é antes de tudo ter, possuir, ser proprietário de algo e vimos desde o início deste livro que a escuta começa pela renúncia ao poder e à possessão, de si e do outro.

Diante da alternativa entre ter razão ou ser feliz eles já fizeram sua escolha.