O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 3 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

O Começo: Versão do Palhaço

1 O começo:

versão do palhaço

 

Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto…

SECOS E MOLHADOS, “Fala”, 1973.

 

Tudo começou com três convites, um susto, e três “sins”.

O primeiro convite foi meu para o Christian. Na verdade, um convite coletivo. Sou coordenador de um projeto chamado Escola dos Pais, que se dedica a elaborar e compartilhar experiência de mães e pais no contexto da educação de seus filhos. Falando sobre desafios, alegrias e angústias que envolvem maternidade e paternidade, chegamos a uma etapa na qual convidamos um especialista para nos ajudar a escutar as inquietações do grupo naquele momento. Logo surgiu um nome: Christian Dunker.

Eu já tinha ouvido falar dele, sabia que era psicanalista e tal, mas, agora que ele seria nosso convidado, tratei de pesquisá-lo na internet. Encontrei várias entrevistas, artigos, teses, mas uma coisa me surpreendeu: ele tinha um canal no YouTube. Mundo moderno, pensei. A primeira coisa que me chamou atenção, ainda antes de assistir a qualquer vídeo, foi a quantidade de views. Achei curioso um canal de psicanálise ter tantos acessos. Pensei: Ou o mundo tem muito psicanalista ou tem muita gente precisando. Ou os dois. Cliquei para assistir a um dos vídeos e fiquei surpreso. Não tinha ninguém deitado num divã com uma caixinha de lenços ao lado. Não era chato como eu julguei que pudesse ser, nem acadêmico, nem muito cabeçudo. Nada disso. Só o Christian falando para a câmera. Melhor: ele falava de temas complexos, profundos, filosóficos… e eu entendia! Estava claro agora o porquê do sucesso: os vídeos eram para todo mundo. Tipo papo de bar, só que em vez de falar do Neymar ou do Cristiano Ronaldo, ele falava de outros caras: Freud, Lacan, Sartre, Sócrates, o filósofo, mas bem que podia ser o jogador, tamanha a informalidade da abordagem. Falava de um jeito que era possível escutar sem se sentir numa sala de aula. Virei fã e mais um número na contagem de views.

Alguns dias depois, veio o primeiro dos três “sins”: ele tinha topado ir ao nosso encontro. Fácil assim. Ficamos muito felizes. Os dias se arrastaram até que finalmente chegou aquela noite. Estávamos todos excitados, falando pelos cotovelos, arrumando tudo muito bonitinho, parecendo crianças aguardando o Papai Noel. Na hora combinada, avisaram-me que ele tinha chegado. Coração pulou. Eu tinha virado fã do cara e agora ele estava ali, prestes a falar comigo. Vesti minha cara de anfitrião e fui recebê-lo. Prazer, boa noite, bem-vindo, essas coisas que todos esperam escutar e dizer nesse tipo de encontro. Rompendo minha timidez e sem fazer rodeios, ele disparou: “Caaaara! Gosto muito do seu trabalho, topa dar um curso comigo na Casa do Saber?”.

Foi exatamente assim, de repente, sem preliminares.

Entrei na vibe. Igualmente rápido e sem pestanejar, respondi ao segundo convite com um segundo sim: “Claro! Quando? Ah!… Sobre o quê?”.

Um mês depois, estávamos lá, falando sobre “Como escutar os outros”, tema que definimos ainda naquela primeira noite. O curso foi bacana e divertido, aparentemente para nós dois. Mas o susto aconteceu bem no finalzinho do encontro, quando já estávamos nos despedindo dos participantes. Empolgado com a receptividade da pequena plateia, o Christian anunciou: “Nós vamos lançar um livro juntos!”.

Tive a impressão de que se fez uma breve pausa no tempo. Mas acho que foi no meu cérebro. Apenas assenti com a cabeça como se eu soubesse daquilo havia séculos. Alguns minutos depois, enquanto a gente tomava a primeira margarita da minha vida (e também a última, espero), eu lasquei o terceiro sim deste começo:

“Christian, vou começar a escrever amanhã mesmo. Tem ideia de como o livro pode chamar?”.