O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 33 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

A Arte de Perguntar

31 A arte de perguntar

 

Entramos na escola com olhos e ouvidos abertos. Curiosos, investigadores, detetives, cientistas, por natureza. Costumamos sair dela com viseiras. No lugar das perguntas, respostas prontas. No lugar da curiosidade, obediência. Talvez a maior diferença entre a cultura Ameríndia e a nossa, no que se refere à educação, esteja justamente na discrepância entre ensinar e aprender. Enquanto confinamos nossas crianças em salas para que professores lhes ensinem o mundo, os tupis oferecem o mundo aos seus filhos para que eles o aprendam. Isso muda tudo. Ensinar é esperar respostas, aprender é fazer perguntas.

Certa vez perguntaram a Isidor Isaac Rabi (1898-1988), vencedor do prêmio Nobel de Física de 1944, qual o motivo de ter se tornado cientista. Ele respondeu que teria sido por causa da sua mãe. Explicou que em sua infância, na saída da escola, enquanto todas as mães da vizinhança perguntavam: “Filho, o que você aprendeu hoje?”, sua mãe lhe indagava: “Filho, o que você

perguntou hoje?”.[33]

Bons jornalistas, assim como palhaços e psicanalistas, incorporaram a regra dos cinco porquês que definem a apuração de uma notícia ou acontecimento:

1. Quem?

2. O quê?

3. Quando?

4. Onde?

5. Por quê?

Note que as perguntas têm uma ordem e só a última procura relações causais, sendo as quatro anteriores descrições do acontecimento. Isso já nos indica um erro básico do mau escutador: julgar antes de investigar. Escutar presume, antes de tudo, reconstruir.

Outro conceito jornalístico importante é o de pirâmide invertida. Segundo Carl Tiuí Hummenigge (1853-1935), antes de divulgar, noticiar ou responder a um acontecimento qualquer, é preciso:

1. Compilar, isto é, colher versões, examinar variedades de pontos de vista ou zonas de

interesse que estão envolvidas no acontecimento.

2. Limpar, isto é, separar as reações exageradas ou amortecidas, as interpretações e as versões

envolvidas no evento.

3. Contextualizar, ou seja, inserir o ocorrido em uma série histórica, mostrar como ela se

conecta com outros eventos ou que ele depende de uma cadeia de causas, razões ou motivos para se tornar compreensível.

4. Combinar, isto é, articular a mensagem que será dada com outras assim como checar as

versões com os envolvidos, quando possível, para que as suas fontes aprovem ou pelo menos acompanhem o que você irá noticiar.

5. Comunicar, ou seja, tornar público e manifesto um acontecimento, torná-lo relevante e

contributivo para a formação de opiniões e concorrer para o esclarecimento das pessoas sobre o que determina suas vidas.

Em tempos de pós-verdade e fake news é esse trabalho que estamos deixando de ter. Lemos títulos e cabeçalhos e antecipamos a notícia, identificamos quem enviou a mensagem e antecipamos do que ela é feita, e, no mais, estamos fortemente guiados pelo viés de confirmação, ou seja, reencontrar no que o outro está dizendo apenas o que queremos ouvir e não o que ele está efetivamente dizendo. É por isso que as pessoas sentem que são escutadas cada vez menos, que vivemos em bolhas autoconfirmatórias, e que, apesar da imensa facilidade de recursos para confirmar, desmentir ou problematizar algo, na realidade não nos damos ao trabalho do rigor das perguntas ou ao esforço de apuração de fatos.

Até aqui estamos aproximando a arte de fazer perguntas do processo de escuta, porém essa aproximação tem limites e o mais óbvio deles é que nas cinco perguntas e cinco movimentos de apuração da notícia, falta uma nas quais palhaços e psicanalistas concentram suas energias: Como?

Como alguém diz o que diz é uma chave essencial para entender o dizer. As perguntas que se orientam para o como podem ser distribuídas entre as que nos ajudam a verticalizar a conversa, aprofundando temas e assuntos, as que mudam a “marcha” da conversa, seja por aceleração e lentificação ou para ir para a frente ou para trás no contrato entre os interlocutores, e também as perguntas que checam como estamos indo e como estamos nos sentindo com o outro naquela pequena viagem feita de palavras.

As perguntas de aprofundamento podem ser chamadas de perguntas snorkel. O snorkel é um equipamento de mergulho utilizado para respirar embaixo da água. Há pessoas que, em certos assuntos, estão munidas de verdadeiros tanques de oxigênio e parecem ser capazes de viver no fundo do mar por horas. Mas cada um tem o snorkel que o habilita a mergulhos mais ou menos profundos. O mergulho, é claro, dependerá do tipo de mar onde ele acontece. Em águas revoltas e movediças, como as que envolvem certos temas polêmicos, você pode estar com o melhor snorkel do mundo e logo se sentirá asfixiado. Há outros temas nos quais todos podem mergulhar perfeitamente, e costumam ser um ótimo campo de experimentação para outros dois tipos de perguntas.

As [34] perguntas-contrato ou com-trato alteram a relação de pacto, ou de contrato comunicacional, entre quem diz e quem escuta. Elas são geralmente organizadas pelo antagonismo (um tem a razão e o outro não) ou pela cooperação (ambos têm um problema e buscam um horizonte comum para resolvê-lo ou tratá-lo). Por exemplo, quando você está de boca aberta e o dentista, com o motorzinho na mão, te pergunta: “Está doendo?”. Ele está negociando um contrato, pedindo permissão para aprofundar os procedimentos. Saber quem é quem na conversa pode se transformar em uma tarefa chata e desinteressante quando se trata de uma competição para ver quem sabe mais, quem aparece mais, ou quem tem a melhor imagem para a selfie. Boas conversas têm seu foco no encontro, oscilando e aprofundando para um ou para outro interlocutor. Mas, como vimos antes, a oscilação entre competir e cooperar é uma dimensão incontornável da escuta, e pode ser aprimorada desde que possamos passar da competição entre um e outro para a competição entre “nós” e o “outro”. Isso gera laços baseados na exclusão ou no ataque a um terceiro, como a fofoca e a intriga, mas também nos faz passar da competição entre indivíduos para a cooperação entre indivíduos e a competição contra causas: por exemplo, juntos contra a ignorância, juntos contra os que propagam a violência, juntos contra quem escreve livros sobre escuta etc. Essas perguntas são perguntas-contrato, pois elas recapitulam, estabelecem ou transformam as regras da conversação, os pontos estabelecidos e os que ficaram para trás. É como se estivéssemos em um jogo que redefine suas regras durante o percurso.

Por fim, existem as [35] perguntas contato ou com-tato, ou seja, as que alteram a relação de quem fala com o que ele mesmo está dizendo. Está falando a verdade? Está brincando? Está testando para ver até onde acredito? São as perguntas que investigam o grau de adesão ou de convicção ou de certeza que alguém apresenta em relação ao que está dizendo. O outro acredita naquilo ou está te dizendo apenas para produzir um efeito sobre você? Por exemplo, te provocar? Aqui podemos colocar as perguntas sobre que tipo de filme está sendo produzido pela conversa: documentário ou ficção? Que tipo de seriedade podemos localizar na conversa? Estamos mentindo? Estamos brincando? Estamos nos enganando, repetindo apenas o que achamos que o outro quer ouvir? Escutar é abrir-se para a experiência, acolhendo a vulnerabilidade e a contingência que introduzem “viradas” na conversa, ou seja, quando passamos, por exemplo, da comédia para a tragédia, do drama para o épico, do mais baixo ao mais alto, do discurso técnico ou erudito ao discurso popular e casual. Essas perguntas podem ser chamadas também de perguntas “com tato”, no sentido que devem ser feitas com cuidado, pois elas exploram o tipo de encontro que está em curso alterando ou reassegurando o nível de empatia e de ludicidade da conversa.