O Palhaço e o Psicanalista
Sete Escutas da Língua Tupi
30 Sete escutas da língua tupi[32]
Enquanto os filhos do “homem branco” estão trancados em salas aprendendo que a diretora é um monstro e que escutar é uma coisa menor, indígenas da etnia tupi exercitam suas escutas do mundo.
Para a sabedoria tupi, nós temos sete formas distintas e complementares de escutar. Elas estão em todos nós e cada um costuma nascer com uma dessas escutas mais desenvolvida, como uma característica pessoal. Desde pequenos, conforme seu modo de criação, eles são levados a reconhecer e praticar a escuta de si e do outro como um processo contínuo e evolutivo. A regra geral pode ser chamada de “perspectivismo”, ou seja, minha escuta deve reconhecer a perspectiva do outro na qual estou incluído. Ser visto e reconhecer minha posição no olhar do outro e, a partir disso, concluir qual a perspectiva que me cabe, parece uma atitude compatível com o que aqui estamos chamando de escuta empática.
Dentro disso distinguem-se sete formas de escuta:
1. Ouvido direito (WaK´Mie): É um modo de escuta associada ao masculino, não como
gênero, mas como atitude propositiva, ativa e impulsiva.
2. Ouvido esquerdo (Kat´Mie): Escuta associada à energia feminina, tida como passiva,
apreciativa ou sem filtros, no sentido de maior acolhimento e abertura, pois não seleciona ou dirige a fala do outro. É o ouvido de quem gosta de “assuntar”.
3. Ouvido terra: Forma de escuta baseada no corpo e na receptividade global, mais tátil e
concreta do que a que se pratica com os ouvidos. Percebe o ambiente com ênfase em suas pequenas diferenças.
4. Ouvido água: É a escuta dos pescadores de afetos, emoções e sentimentos. Ela flui como a
água, ora formando cascatas, ora em corredeiras intensas, ou ainda em vagorosa morosidade e até mesmo formando lagoas ou poças pantanosas.
5. Ouvido ar: É a escuta reflexiva ou filosófica, que nós entendemos como demais curadores
de alma. Disposta a acolher aquilo que é mais reflexivo ou argumentativo construindo cenários e futuros possíveis assim como histórias imprevistas.
6. Ouvido fogo: É a escuta intuitiva ligada às narrativas imagéticas. É uma forma de escuta
que convida para a ação, para a decisão, assim como para a solidariedade e comunidade entre as pessoas em torno de uma história ou de um sentido comum. Ela se faz valer de paisagens e cenários sonoros que aguçam a curiosidade em busca das possibilidades escondidas de uma determinada situação ou pessoa.
7. Todos os ouvidos integrados: Escuta ampla e totalmente integrada, acessada por poucos,
envolve coordenar os sucessivos movimentos cooperativos e competitivos, em um esforço simultâneo de acolher e transformar a situação pela ação conjunta dos participantes. Aproxima-se do que chamamos neste livro de escuta empática e lúdica do líder escutador.
Os tupis aprendem a escutar nas trocas cotidianas em comunidade, transmitindo histórias e fazendo perguntas. Treinados desde sempre a perceberem e exercitarem suas escutas, os indivíduos da tribo vão igualmente reconhecendo qual a característica de escuta de cada integrante da aldeia. Esse conhecimento permite que num diálogo usem expressões e verbos que vão “acender” a escuta do outro, ao modo de “iscas” para a curiosidade.
Por exemplo, se reconheço no outro a escuta terra (concreta, tátil) posso, por exemplo, iniciar a conversa dizendo: “Sabe o que me toca em você?”. Se meu interlocutor possui uma escuta fogo, (visão, imaginação), eu posso instigá-lo empregando expressões como “veja só…” ou “imagina uma coisa…”. Quando reconheço a escuta predominantemente água (afetiva, emocional), ajusto minha abordagem fática para expressões como “Eu sinto que…”. Assim como se me percebo diante de alguém que me escuta de forma reflexiva ou mental (escuta ar), posso utilizar algo como “quero que você reflita sobre um assunto”.
Fazer o diagnóstico da escuta é um passo muito importante. Perceber que seu líder tem uma escuta mais terra, tipo “pão-pão queijo-queijo”, você encurtaria o caminho chegando com informações concretas, trazendo dados. Eventualmente, você sente que ele não lhe dá a devida atenção, mas isso pode ser apenas e tão somente um desencontro de modos preferenciais de escuta.
Reconhecer que a pessoa em quem você está interessado tem uma escuta mais “aérea”, ou seja, reflexiva ou mental, pode evitar abordagens que a deixariam com a impressão de que você é ou está sendo muito terreno e concreto, ou até mesmo chato. Mas não imagine apenas que você deveria se adequar ao tipo de escuta do outro. É muito importante ler em si mesmo qual o seu tipo de escuta preferencial, ou pelo menos qual está em vigor ou preponderância naquele dia e naquela situação. A regra é recíproca, pois alguém que não consegue ou não se interessa por ler seu estilo de escuta, talvez não seja mesmo a melhor companhia para você.
A importância da escuta para os povos tupis se traduz no termo que utilizam para designar o cacique: Acanguatara. Esta palavra significa Cabeça Boa de Escutar. Aqui se torna irresistível fazer uma comparação com os “homens brancos” que admiram líderes que “falam bem” enquanto nossas populações ancestrais consideram líder aquele que melhor lhes escuta.