O Palhaço e o Psicanalista
Preâmbulo
A gente nunca soube de um casamento que tenha acabado porque ela não tinha ideia de onde ficava Trinidade e Tobago, o cara se atrapalhava ao cortar cebolas ou um dos dois não sabia trocar o pneu do carro. Esse tipo de coisa a gente já fica sabendo no primeiro mês de namoro. Da mesma forma, nas empresas, grande parte das promoções ou demissões não se dá por competências ou incompetências técnicas. Isso se descobre no currículo, na entrevista ou no período de experiência. O bicho pega mesmo é no relacionamento. E relacionamentos são feitos de palavras e encontros.
Infelizmente ainda são poucas as escolas que consideram que preparar alguém
para a vida ou para o mercado de trabalho é muito mais do que ensinar matemática, português ou geografia. Todo e qualquer conteúdo que aprendemos vem junto com uma forma de escutar e de dizer. E é dessa forma – você vai ver neste livro – que ainda aprendemos que escutar é obedecer e falar é mandar. Assim forma-se o conceito “quem sabe fala, quem não sabe escuta”. Como se escutar fosse próprio do lugar do subalterno. O resultado desse despreparo nós vemos todos os dias. Uma sociedade individualista, competitiva ao extremo e com enormes dificuldades de convívio harmônico. Essas dificuldades desmoronam casamentos, detonam a vida no trabalho e minam os melhores projetos e intenções.
Maridos e esposas, companheiros e camaradas, filhos e pais, colegas e
colaboradores, clientes e fornecedores, parceiros e brothers: todas essas palavras formaram-se junto com o que significa “escutar”. Expectativas de expressão, de ocupação de lugares de fala, de autorização e valorização da palavra, definem a cooperação ou o antagonismo, a convivência ou intolerância. O desejo genuíno de aprender como escutar os outros e de aprender isso com o outro é um ponto de partida ético fundamental para qualquer forma de vida que se considere comum, mas
é também o ganha-pão e o modo de vida de dois personagens que se encontraram neste livro: o psicanalista, que passa o dia a escutar o sofrimento e os desejos dos outros e o palhaço, que dedica sua existência a nos fazer escutar de outra forma a comédia e a tragédia humanas.
Muitas pessoas sentem-se perdidas quando descobrem a complexidade e a
importância de escutar o outro. Às vezes, isso adquire contornos dramáticos, quando uma avaliação profissional aponta essa dificuldade como um sério empecilho para a carreira de alguém, ou quando a esposa ou o marido bate à porta com a separação iminente.
A vida em ambientes onde pessoas não se escutam torna-se gradualmente
insalubre, chata e um fermento permanente para agressividade. Encontros familiares, funcionamentos institucionais de grupo ou de massa, além de plataformas digitais são particularmente vulneráveis ao fracasso da escuta. Isso acontece porque, em geral, ninguém quer abrir mão de sua posição e vai, para tanto, confirmando a posição correlata do outro, que justifica e solidifica lugares e argumentos.
Em vez de entrar com cuidado na casa alheia, pedindo permissão e perguntando,
nos colocamos de forma arrogante, impondo nosso mundo e nossos valores. Como agimos assim, autorizamos o outro a fazer isso também. Porta que abre para um lado abre para o outro. Portanto passamos a nos defender e colocar palavras na boca das pessoas. Insistimos em criticar, menosprezar e atacar o outro, por meio de uma comunicação violenta e que ignora solenemente o ponto de vista alheio. Isso ocorre em uma espécie de crescente. Primeiro perdemos a polidez, depois a etiqueta, em seguida o cuidado com o outro. Finalmente estamos esbravejando coisas imorais sem nos darmos conta. O que obviamente dá razão e justificativa para que façam o mesmo conosco.
Cedo ou tarde, estão os dois lados gritando que foi o outro quem começou e um
dizendo que o outro o incitou a fazer o que está fazendo. O fenômeno coletivo da “desescutação” mútua sempre se baseia no sentimento de que cada lado está “apenas” reagindo ao outro. Assim que se criam os novelos familiares, amorosos e laborais, que se reproduzem por si mesmos, indefinidamente. O espelho está para o narcisismo assim como o eco está para a “desescutação”.
Livros sobre escuta surgem nesse cenário como manuais que servem apenas a
quem não precisa mais deles. Esperamos que este livro ajude você a valorizar a
importância da escuta como um tratamento social e psicológico dos conflitos, mas também como uma forma de tornar a experiência humana mais rica e interessante.