O Palhaço e o Psicanalista
Educados para a Solidão Silenciosa
27 Educados para a solidão silenciosa
Pesarosamente, a maioria de nós não foi educada a escutar. Foi, sim, adestrada para ser muito comportada e a ficar quieta “senão vocês vão para sala da diretora!”, que é um jeito eficientíssimo de matar dois coelhos com uma cajadada só: a diretora passa a ser vista como um monstro e a escuta como coisa de pau-mandado. Não é à toa que “escutar” tenha se tornado sinônimo de “calar, obedecer e resignar” solitariamente, no castigo do isolamento de quem tem que ir “lá no canto pensar no que fez”. Como se o recolhimento, a meditação e o escutar fossem, antes de tudo, um castigo. “O chefe fala, o funcionário escuta.” “Quem sabe fala, quem não sabe obedece.” Ou seja, a história que a maior parte de nós aprendeu que escutar é o lugar do subalterno, e falar é para quem manda.
Os professores valorizam quem fala, mesmo que levantem a mão apenas para dizer asneiras. Este é visto e percebido como alguém que faz alguma coisa. O escutador que está pensando profundamente sobre o que acabou de ouvir, às vezes fazendo aquelas maravilhosas junções cognitivas que parecem reunir partes da cidade que conhecíamos independentemente, mas que não sabíamos que se ligavam entre si. As imensas e metafísicas relações evocadas por aquelas palavras, tudo isso acontece em silêncio e na solidão que te confundirá com o mais aéreo e disperso aluno, em estado de corpo presente, mas com o espírito vagando entre a Ursa Maior e Alfa Centauro. Como saber, e premiar, alguém que, no meio da multidão está te escutando? Alguns poucos professores conseguem decifrar faces, mas basta que a classe seja um pouco maior e o número de alunos mais extenso para que essa habilidade comece a enfraquecer. Ademais, como dar nota pela escuta?
E quando perguntamos para as pessoas como elas aprenderam a escutar, a resposta usual é: valorizando aqueles momentos raros e aquelas pessoas mágicas que nos escutaram quando mais a gente precisava. Ou seja, de modo empírico, informal e dependente do bom acaso.
Não fomos educados a escutar o que sentimos nem a sermos hospitaleiros com nossas vozes dissonantes. Não fomos educados a pesquisar como expressar esses sentimentos de forma saudável, e jamais nos fizeram refletir sobre a arte de modular a expressão de nossos afetos e a importância de escutarmos o outro ou sermos por ele escutados. Ainda assim, sabemos que, quando estamos muito eufóricos, exageramos positivamente a realidade, que, quando partilhamos o nervosismo, isso parece contaminar os outros à nossa volta. Intuitivamente sabemos que aquele sujeito de humor depressivo pode se indispor com nossa alegria, e aquele outro pode ficar intimidado com nossa extroversão, apenas pelo fato de manter uma atitude mais esquiva com os outros. Fica claro que para escutar o outro, além de ler as palavras e a gestualidade, é preciso entender a dinâmica de como somos atingidos pelos afetos, de como nos movem, comovem ou emocionam em determinadas direções, e, finalmente, como se estabelece uma espécie de construção compartilhada dos afetos e das emoções de forma a estabelecer sentimentos comuns.
Não fomos educados a escutar o outro. Não fomos educados a tentar compreender e lidar com a forma humanamente particular, torta e atabalhoada como cada qual consegue e fracassa ao expressar tudo que sente, pois também, como nós, não foi educado a acolher, cuidar e expressar seus sentimentos. Não fomos educados a tolerar, compor, cooperar. Nos ensinam na escola que ser sociável é perseguir nossos próprios interesses de forma individual, respeitando os outros e obedecendo leis de convívio e educação. Fomos adestrados a cuidar de nós mesmos, a encontrar nossas próprias soluções e caminhos, sem que a escuta do outro e de nós tenha um grande papel nisso.
Diante dos alunos alvoroçados, a professora e o professor dizem: “Levanta a mão quem quer falar”. Afoita e imediatamente todos levantam os braços. Um felizardo, então, é escolhido, mas, enquanto ele conta sua novidade, todos os outros continuam com mãos erguidas, prontos para darem o bote, e ocupar o valorizado lugar de fala. Os dedinhos em pé sinalizando que enquanto o amigo fala todos continuam pensando no que queriam dizer.
Fomos sistematicamente educados a este vazio relacional: a aluna ou aluno que fala está feliz apenas por ocupar espaço ou tornar-se o centro das atenções, não necessariamente por estar sendo ouvido. O mais importante já foi conquistado, um lugar ao sol: o microfone é meu. E melhor, só meu. Isso tem sérias consequências para formação de uma cultura que valoriza o debate, a diferença de ideias, a oscilação entre conflito e conciliação, pois escutar o outro é sentido, muitas vezes, como uma espécie de derrota ou perda de espaço.
Faz parte da função hospedeira da escuta transmitir e ensinar a escutar. Transmitir o que nos foi transmitido é como cuidar daqueles que cuidam, isso significa compreender a prática da escuta como parte da construção de uma cultura. E compreender uma cultura ou uma comunidade não apenas como um grupo definido por interesses semelhantes, mas também pela capacidade de escutar.
O hospedeiro é aquele que se torna protagonista da experiência vivida, pois se apropria da herança deixada pela experiência. Ser protagonista, na cultura da competição, é ocupar o centro das atenções, ter o microfone para si a ponto de levá-lo para casa. Mas ser protagonista na cultura da cooperação é ser, conforme a etimologia da palavra, aquele que, por conter em si o conflito, também o propaga e representa. Protagonista vem de proto (portador ou precursor) e agon (conflito).