O Palhaço e o Psicanalista
Maneiras Práticas de Domesticar o Abominável que Existe em Você
39 Maneiras práticas de domesticar o
abominável que existe em você
1. Nunca subestime o outro: Evite minorar o outro, estabelecendo regras diretivas ou
decisões que não são construídas com o outro. Você pode saber mais, ter mais experiência ou estar imbuído da sagrada verdade, mas nada disso vai adiantar muito se só te faz ficar sozinho.
2. Não se leve tão a sério: Conversa não precisa ser sempre uma disputa para ver quem tem
razão, quem brilha ou sofre mais. Alternar padrões de conversa e funções de linguagem é salutar: passe do antagonismo à colaboração quando a situação exige. Mude a chave. Experimente sair do modo debate (derrotar o outro) para o modo diálogo (compreender o outro).
3. Leve as palavras a sério: Esteja presente e implicado no que diz, mesmo que seja uma
brincadeira ou uma piada. Jogar conversa fora é apenas mais um jeito de evitar escutar-se e escutar o outro. Não acredite em sinônimos e em expressões como “foi só uma maneira de dizer”. A forma rigorosa e específica como alguém escolhe suas palavras escondem todos os segredos do que é o mais difícil de escutar e que quase sempre está sendo mostrado por quem fala, se não em suas palavras, no tamborilar de seus dedos, na atitude de seu corpo ou na espessura do seu olhar.
4. Varie posições: Alterne as funções da linguagem. Nem tudo que o outro te diz precisa ser
rebatido com resposta prática para solucionar o problema ou com uma declaração de que você não sabe o que fazer. Não saber o que fazer pode ser uma experiência mais interessante do que produzir resultados e resolver demandas.
5. Crie descontinuidades: Respire fundo, espere um instante de silêncio ou introduza uma
pequena pausa para pensar antes de reagir ao que o outro diz. Não se agarrar apenas às palavras, ao uso de imagens, às lembranças e digressões que nos atravessam o caminho pode mudar uma conversa aparentemente sem saída.
6. Pratique a dúvida: Permita-se voltar atrás, mude de opinião, altere a linha argumentativa,
encontre novas perspectivas e ângulos para avaliar uma situação. Nada mais interessante do que ver alguém se transformar durante uma conversa. Geralmente isso transforma a gente também.
7. Faça terapia: A vida não vem sem sofrimento e miséria. Se isso fosse suficiente para
determinar a procura de ajuda, seria simples: psicoterapia para todos. Pedir ajuda é um grande sinal de salubridade psíquica. Indica que você foi capaz de escutar, perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento. Sugere também que você entende que isso não é apenas uma deficiência moral, uma insuficiência de sua educação ou uma ofensa ao seu sistema de crenças. Antigos filósofos já diziam que era difícil suportar a ideia de ser “libertado pelo outro”, tanto porque isso indica passividade e fraqueza, quanto porque seria uma liberdade falsa, obtida por meios que não são próprios. Essa oposição entre resolver-se por si, “aceitando-se como você é”, ou pedir ajuda e ficar dependente nas “mãos do outro” deve ser superada. Como em tudo mais na vida, atravessamos problemas e nos tornamos autônomos com os outros e não sem eles. Talvez a função do psicoterapeuta ou do psicanalista seja parecida com a de um carteiro que pega cartas embaralhadas, as cartas de nosso destino, e ajuda a entregar as que podem ser entregues, reenviar as que estão sem destinatário e cuidar daquelas que ainda não foram escritas.
8. Tente frequentar gêneros de linguagem que não são predominantemente referenciais,
informativos ou descritivos. Leia poesia, com calma e tempo, sem querer entender tudo de uma vez. Escute música clássica ou instrumental tentando perceber como em uma mesma mensagem há várias vozes (ou instrumentos), há variações de ritmo, há tensão e distensão que nos dão um exemplo do tempo. Tente contar piadas, mesmo que isso não represente uma experiência feliz no começo, encare a coisa como uma disposição de espírito. Assista bons comediantes e aprecie bons contadores de piada, perceba como eles encaixam uma piada na outra. Preste atenção em seus sonhos, eles são exemplos produzidos por você mesmo de um uso da linguagem não narrativo e não orientado para a realização de sentido.
9. Leia biografias, peças de teatro e filmes ou simplesmente escute amigos e familiares:
Opte por aqueles que narrem, de forma mais extensa e detalhada, as histórias de vida. Perceba como, se colocado sob uma dada perspectiva, que às vezes é difícil de encontrar, são as histórias que nos tornam interessantes ou desinteressantes. Não há, portanto, assuntos, pessoas ou temas que seriam dignos e outros que não valem a pena. Atribuir
“interessância”[47] às pessoas ou às coisas é como dizer que você não consegue brincar porque não tem os brinquedos adequados. Lembre-se, crianças brincam virtualmente com qualquer coisa: um resto de barbante, uma pedra jogada, um monte de folhas. Se você não consegue é porque desaprendeu.
10. Invente personagens e relações imaginárias: Por exemplo, tenho uma brincadeira que
faço com minha esposa, quando encontramos alguém na rua que se parece com um conhecido nosso e logo eu pergunto: “O que tal pessoa está fazendo aqui?”. Ao que ela responde ficcionalmente: “Deve estar sendo enviada pelo departamento X ou Y para te perseguir”. Ao que eu respondo inventando uma história que a provoque no sentido contrário. Diálogos imaginários podem ser criados a partir da casa onde as pessoas moram, ou de encontros imprevisíveis que se dão na realidade, mas que podem ser “estendidos” em versões possíveis do que poderia ter acontecido.
11. Faça um curso de comunicação não violenta para baixar a radioatividade de suas
palavras: Faça coaching para ver como seu abominável atrapalha sua carreira. Insista nos cursos de teatro e oratória para regular sua relação entre o personagem e o diretor de si mesmo e para descobrir-se ator e autor de sua própria vida. Não desista do mindfulness ou de outras tantas formas de meditação ou de ioga para escuta do silêncio. Volte para a aquele curso de dança e escute seu corpo. Faça um curso de astronomia para escutar a música dos planetas e outro de jardinagem para entender por que o tempo não é o seu tempo. Mantenha-se no workshop de escrita criativa, literatura e roteiro, para aprender que a linguagem tem mais recursos do que você pensa.
12. Pelo amor de Deus, faça qualquer coisa.