O Palhaço e o Psicanalista
Sobre Escrever o Prefácio de um Livro Sobre Escuta
Sobre escrever o
prefácio de um
livro sobre escuta
Fui gentilmente convidada a escrever o prefácio do livro O palhaço e o psicanalista de Christian Dunker e de Cláudio Thebas. Logo me coloco naquela posição de que esta é uma tarefa grande demais, que não saberei o que escrever até chegar o dia em que os editores não puderem mais esperar. Pois é, este dia chegou… nasceu um sol maravilhoso, estou aproveitando meu último dia de férias e, sentada em um bote inflável, de frente para o mar, laptop no colo (onde ele sempre deveria estar, já que tem este nome…), me proponho a escrever.
Li o livro aos bocados. E acho que você que agora me lê, o fará assim também. Logo no começo, os escritores [autores] nos fazem uma provocação… escrevem como dois escritores distintos, mas, ao final da leitura, não podemos mais saber onde escreve um, onde pensa outro. No meu caso, sem dar nenhum tipo de spoiler, adianto que isso não funcionou. Conheço bem demais os autores para me deixar enganar por esse truque.
Também no início do livro, eles contam, cada um a seu modo, como se conheceram. Nessa hora, fico pensando… é real a ideia de que todos os fatos têm mais de uma versão. Cada um trouxe a sua e eu tenho a minha, que é a verdadeira, é claro!
“Quando você escuta os sussurros que a vida dá, ela te presenteia.”
Desde que conheci Thebas, a cada palavra que ele falava, a cada questão incrível que ele me trazia, a cada jeito de aprofundar a conversa, sem deixá-la chata e obscura, eu pensava: Christian precisava conhecer esta pessoa…
É, de novo eu tinha razão!
A escuta do palhaço e a escuta do psicanalista são fundamentais para entendermos como se dão as relações humanas. A escuta que se dá por outras vias, que não se confunde com o que se passa exclusivamente no ouvido. E a orelha amplifica… amplifica o som para ouvirmos melhor. E eu, aqui, fazendo o papel da orelha… amplificando a escuta que, de uma forma ou outra, consegui produzir em meus encontros com cada um.
O dia vai passando e o sol me faz lembrar de que tenho corpo, que sou mais do que orelha e que… me queimo. Mudo de bote e sento-me à sombra.
Sigo lendo o livro e vou me deparando com modos diferentes de se pensar sobre as relações com desconhecidos, as que se dão entre amigos, entre amantes, entre colegas de trabalho e entre esposos. Reconheço-me em muitos deles… entendo outros tantos que antes não tinha sido capaz de escutar. Às vezes, precisamos do texto para que a escuta se dê.
Agora sei por que meu marido vez ou outra fecha a cara quando está lavando a louça… é, não tem nada a ver com o fato de eu ter falado a ele que deveria fazê-lo, claro! É apenas o homem das cavernas…
Penso também sobre meu papel de educadora, de diretora de escola e de empresária. Tantas denominações diferentes para quem mergulha no trabalho, cotidiana e apaixonadamente, sem sequer lembrar-se de que se formou também para a escuta. Sou psicóloga de formação, e escutadeira em geral. Crio todo dia modos diferentes de trabalhar e sinto que o dia foi bom quando consegui ter ao menos um bom encontro. A escola também se faz de encontros todo o tempo, assim como o consultório, o picadeiro ou a rua.
Que tipo de liderança será que eu exerço? Sonho com o dia em que eu puder sentir que exerço meu papel de liderança como os líderes descritos no livro:
“(…) que conseguem colocar no centro de sua experiência com o outro uma espécie de não saber. É porque eles não sabem exatamente como agir que se orientam para pedir ajuda, que criam grupos de trabalho para si, aos quais respeitam genuinamente, pois sabem que dependem de cada qual para chegar a algum lugar. Um líder escutador tem por contraste o líder que fala, o condutor e maestro que com seus longos discursos e com sua atitude em geral controladora dirige as pessoas, mas não dirige o processo.”
Como criar um ambiente onde crianças e adolescentes e professores possam ver sua voz circular, possam escutar e ser escutados em seus encontros, uns com outros e com o conhecimento? Escutar vez ou outra parece ter a ver também com aquela sensação de que, ao nos depararmos insistentemente com alguma explicação, ou com a reflexão sobre uma boa pergunta, de repente temos um estalo. Bingo! Agora entendi! Algo da escuta se deu aí.
E como criar um ambiente onde os invisíveis tenham voz e sejam escutados? Penso que conseguimos isso um pouquinho a cada dia. Nossos alunos e alunas saem da escola sabendo que cuidar do outro é muito mais do que dar bom dia para o porteiro. É relacionar-se com ele de fato, é escutá-lo vez ou outra e contar com seu olhar também educativo dentro da escola. Isso é um orgulho!
Mas falta, falta sempre… O desafio de trazer para perto aqueles que trabalham numa empresa é muito maior do que os nomes que damos a seu grupo. Empregados, funcionários, equipe e colaboradores são palavras que, como está bem dito no livro, precisam de maior atenção. Cada uma delas aponta para um aspecto da relação entre pessoas e instituições. Cada uma tem seu ponto forte e ponto fraco. Precisamos garantir que estes pontos circulem, que a colaboração seja de verdade, por conta de uma sensação de pertencimento ao projeto, mas que também não deixe a impressão de que quem colabora está de passagem… O projeto é de quem está, é permanente! Empregado é aquele que tem um emprego, portanto tem direitos e deveres de todos os trabalhadores. O funcionário que funciona pode ser um bom colaborador, mas precisa se reconhecer ali. O termo equipe parece borrar vez ou outra as diferenças. Há que se lembrar sempre de que equipes são constituídas de indivíduos singulares e lidar com essas diferenças é um enorme desafio. Ora, pois, as relações de trabalho não são simples mesmo, assim como não é a lida com as diferenças, mas, fazê-las avançar, produzir movimento, é o que pode transformar a vida do trabalho numa vida interessante, assim como a análise pode ajudar a dar movimento à vida do analisante.
Os tempos em que vivemos precisam de maior cuidado. Como dizem os autores, “Quem escuta se faz testemunha e portador de um patrimônio que, no fundo, poderia ser de todos nós e que alguns chamam de cultura, outros, de memória coletiva[…]”.
Precisamos de embaixadores dessa escuta, como Christian e Thebas, que nos ajudam a tornar comum o que é de cada um, para que possamos fazer circular palavras e afetos, produzindo grandes encontros, como este que eu orgulhosamente posso dizer que produzi.
Boa leitura e belos encontros.
ANA CRISTINA DUNKER
Diretora da Escola Carandá Vivavida,
esposa do Christian e amiga do Thebas