O Palhaço e o Psicanalista
Funções da Linguagem e Lugares de Escuta
25 Funções da linguagem e lugares de escuta
Conjuntos de rock são usualmente compostos por baixo e bateria, guitarra e vocal. Diz-se que o baixo e a bateria são a cozinha do conjunto, eles marcam o ritmo e dão o tom do fundo, ao passo que o vocal é onde fica, em geral, o foco do que vai acontecer. As guitarras podem estar tanto dialogando com o baixo e a bateria quanto podem assumir a condição de protagonistas, quando fazem um solo e falam por si mesmas.
Imagine que construir uma situação de escuta é como montar sua banda. Uma banda pode tocar muitas músicas, mas, em geral, vai formando um repertório. Isso acontece com a prática de conjunto e a experiência, muitos ensaios e outros tantos shows. Saber tocar um instrumento é uma arte. Saber tocar o instrumento com outros é outra arte. Cada banda pode ter seus locais preferidos de apresentação: reuniões corporativas, encontros amorosos, salas de aula e assim por diante. Assim como na experiência da música ou quando for andar de bicicleta, se você parar para pensar, é possível que dê tudo errado. Mas, por outro lado, há formas de pensar que se incorporam de tal maneira que você sabe onde está o baixo e a bateria assim como pode adivinhar onde vão entrar as guitarras, e se vamos ter um solo ou um dueto. A cada vez você terá que escolher onde se posicionar, mesmo que seja apenas para fazer um back in vocals animando a escuta.
Considere agora que, assim como numa banda de rock, a situação de escuta envolve quatro funções de linguagem:
Ou seja, tudo é música, tudo envolve melodia, harmonia e ritmo, mas há funções diferentes operando na linguagem que correspondem ao que queremos fazer com ela. Descrever coisas ou dar ordens? Expressar sentimentos ou controlar o outro? Cada uma das funções da linguagem nos ajuda a pensar instrumentos diferentes de escuta.
Veja só quantas funções a linguagem pode ter:
1. Referencial: por exemplo, quando eu digo “tem pão na geladeira”. Aqui o foco é no
assunto ou no problema, e a linguagem é entendida como um meio de transmitir informação. Quando enfatizamos este lugar, queremos criar melhores descrições sobre o mundo ou sobre o estado das coisas. A procura do rigor no que se diz e a precisão nos detalhes é uma característica do lugar. Clareza de expressão, objetividade no encadeamento de ideias e a precisão nos números são virtudes do lugar referencial. Por exemplo, um bom briefing para um trabalho é aquele que é eficaz na definição referencial do que se quer. Dados são excelentes auxiliares da função referencial. A escrita de manuais e códigos de procedimentos são eminentemente referenciais. Mas, para aquele que só consegue dançar a música referencial, as outras músicas são sentidas como equívocos e mal-entendidos, uma espécie de ruído indesejável que impede que a boa comunicação ocorra. O foco na referência acontece quando estamos no hospital e precisamos saber qual é o problema e qual é o remédio.
2. Autoria: o problema da função referencial é que ela não consegue, por si mesma, decidir
nem criar regras de ação. Disso depende que, em algum momento aquelas pessoas escolhem
A ou B. Muitas reuniões são intermináveis, apesar da fartura de gráficos e dados, porque não saímos do lugar referencial de tal modo a assumir um lugar de fala. Exemplos do lugar de autoria são frases que começam por: “na minha experiência” ou “segundo tal livro” (que diz que você conhece o livro). Muitas histórias e digressões que habitam a mitologia das reuniões têm relação com uma maneira, eventualmente prolixa, de autorizar-se ou desautorizar os outros em uma determinada matéria. Quem diz lugar de fala diz autoria e autoria remete a autoridade. A autoridade é a prerrogativa ou o risco que alguém assume quando escolhe e, portanto, está disposto a pagar a conta se aquela não for a melhor escolha. Há decisões compulsórias, pois são inerentes ao cargo, função ou justificativa para dizer o que diz. Muitas vezes os casos vividos, as digressões e as mudanças de assuntos que desgovernam as reuniões são tentativas erráticas de organizar ou estabelecer, de criar ou de barrar posições de autoridade. Quem escreve roteiros para televisão ou cinema costuma dizer que o problema básico consiste em alternar o foco no personagem (autoria) ou o foco na ação (decisão). Um bom filme, bem como uma boa reunião, ocorre quando conseguimos alternar uma função com a outra: escutar os dados, fazer a geografia do problema, estudar o terreno, mas, em seguida, caminhar na direção da decisão e da ação, por mais arriscada ou difícil que ela seja.
3. Recepção: a dança das decisões, com seus sintomas característicos de adiamento e falas
circulares, tende a acontecer porque, apesar de os lugares de poder e de autoridade estarem bem definidos e das referências se apresentarem de forma clara e distinta, deixamos de lado os participantes do processo. Ninguém gosta de viver apenas como plateia, e os processos nos quais as coisas acontecem, como se nossa participação fosse dispensável, são, em geral, sentidos como chatos ou desinteressantes. Para isso não basta perguntar “como foi para você?” no final de tudo, nem proclamar “estão todos de acordo?”. Por outro lado, para qualquer interessado em vendas, o foco da linguagem deve estar dirigido à recepção. O foco no outro é uma versão da hospitalidade. Aquele que sabe recepcionar sabe transportar e inverter sua autoria para o outro. Interessar-se pelo destinatário da mensagem envolve ler o problema e a solução do ponto de vista do outro, na linguagem dele e no tempo dele. Quando tentamos persuadir ou convencer alguém de algo, estamos nos orientando para o lugar da recepção. Em uma aula ou apresentação abrir para perguntas requerer a participação dos destinatários ou as palmas ao fim de uma peça de teatro são exemplos de como assumir o protagonismo da dança dos lugares de fala. Mas, em uma época dominada pelos resultados, o foco no processo, e, portanto, nos outros que nos ajudaram a chegar,
tende a ser desprezado. Isso cria muitos efeitos de resistência e improdutividade. Por exemplo, uma decisão que não envolve e inclui os participantes pode estar ligada à falta de implementação futura do que foi decidido. Isso ocorre porque os envolvidos na reunião não se reconhecem como verdadeiros participantes, ativos e contributivos, logo implicado nas consequências e deliberações. A inversão entre quem fala e quem escuta é uma regra importante para diminuir o efeito de isolamento e a sensação de monólogo inútil, mas, cuidado, a inversão perfeita também não é muito desejável. Ou seja, quando batemos de frente implorando para o outro colocar-se no nosso lugar, e assim reciprocamente, em geral estamos nos esquecendo de que há outras cabeças do Dragão da Reunião – que solta fogo pelas ventas – que ainda não foram cortadas.
4. Mensagem: como dizia Marshall MacLuhan, o “meio é a mensagem”, ou seja, o que se diz
está na própria forma e no canal do dizer. A ênfase no lugar da mensagem frequentemente se traduz pela forma de dizer. A forma de dizer está em uma relação de potencial inversão com a referência do dizer, assim como o emissor pode substituir o destinatário ou a recepção. Muitas desavenças acontecem porque as pessoas concordam com o que está sendo dito, mas discordam do discurso. Um caso dramático é a situação de demissão. Mesmo sabendo que sempre encontraremos motivos para um desligamento, é muito comum que nos aferremos ao “modo como isso foi feito” ou ao “modo como isso foi dito” para depositar nossa raiva e nosso inconformismo. Portanto, como entre emissor e receptor, a inversão não pode ser perfeita e completa porque, nesse caso, vira uma evitação do conteúdo ou uma negação da forma. O que vemos aqui é o lugar do hospital como sinônimo de cuidado com a forma como dizemos as coisas. Cuidado implica, por exemplo, tatear a recepção, oscilar o código ou a velocidade do que se diz. Um fortíssimo modulador da mensagem é o afeto que domina a situação: “eu te amo” dito com raiva é diferente de dito com medo ou pena. Qual deles você consegue escutar melhor? Um erro típico de quem desconhece o cuidado com a mensagem é aquela pessoa que quando o outro diz que não entendeu o que foi dito, ela repete com as mesmas palavras, às vezes com a caridosa preocupação de falar mais lentamente ou mais alto.
Essas quatro funções estão em uma relação de inversão mútua:
Inversão hospitaleira entre aquele que fala e aquele que escuta, também conhecida como passagem de turno: falo eu, fala você ou a bola está comigo ou com o outro. Inversão hospitalar entre conteúdo referencial e a forma da mensagem, também conhecida como regra do “meio é a
mensagem”, ou seja, quando a forma como algo é dito é congruente com a substância do que é dito.
Voltando ao nosso conjunto de rock. A partir de uma linha de base, da bateria e do baixo,
que precisa ser observada com precisão, você pode criar um desequilíbrio: “espera aí” um “não” pode ser interpolado. Um “mas” estratégico pode ser infiltrado. Esse desequilíbrio pode aparecer como tensão ou intriga, como surpresa ou desconcerto que será, em seguida, resolvido de alguma maneira, como uma espécie de retorno dos efeitos sobre o agente. Na música, no cinema e na literatura o ponto de inversão é conhecido como “virada”.
Fazer uma virada é responder um pouco aquém ou um pouco além de onde nosso
interlocutor nos coloca. Para isso, é essencial aproveitar os desequilíbrios que a situação traz por si mesma. Uma virada pode envolver a passagem de um discurso cooperativo para um discurso polêmico ou antagonista, e sempre envolve uma violação de expectativas. Por exemplo, na arte do palhaço há três momentos: a criação da situação, o aumento da tensão e a solução. A partir disso, pode-se evoluir em uma solução para um novo problema e daí para uma nova solução.
Assim como vivemos em casa ou apartamentos, com uma arquitetura típica, vivemos em
ambientes discursivos, nos quais os lugares de escuta e de fala se distribuem. Como já vimos, a escuta pede alguma suspensão do tipo de interação que temos no dia a dia. Essa suspensão pode estar marcada pela emergência de um encontro inesperado, pelo riso ou pela suspensão do ordenamento de poder ou de autoridade, arte na qual os palhaços são mestres. A escuta começa pela atenção a certa linha de base, ou de paisagem sonora, de humor dominante que organiza a situação.
Mas uma boa música não é composta apenas por linha de base e viradas. O que a torna
especial é o que alguns poderiam chamar de “improvisação”, ou seja, a inclusão inesperada de algo que deveria permanecer fora ou a exclusão do que deveria permanecer dentro da situação. Escutar é produzir surpresas calculadas como o sentido das palavras.
Cada pessoa, e cada momento de vida dela, requer um lugar de escuta. A graça da viagem
da escuta é que, mesmo que ela comece em um lugar, se der certo, seremos levados para outro. Aquele que não sabe mudar de lugar não sabe dançar, por isso vai querer sempre tocar a mesma música, ser o dono da banda, do contrário, ficará isolado no seu canto enquanto os outros se divertem.
A linha de base, as viradas e improvisações, nos levam a reconhecer a existência de duas
outras funções de linguagem.
Com isso, o Demônio da Reunião pode ser anestesiado, mas não vencido. É aqui que
entram duas outras funções, ou dois outros lugares nos quais palhaços e psicanalistas parecem se especializar:
5. Função fática: quando alguém entra no elevador e resmunga: “Que dia!”, provavelmente
não está realmente querendo discutir as condições meteorológicas ou o andamento do tráfego naquela precisa ocasião. Quando alguém pergunta: “Como vai?”, não está esperando um relato detalhado da sua vida sexual ou da precariedade da sua situação existencial. A não ser que do outro lado esteja um psicanalista. Para ele não existem palavras a esmo, coisas que a gente “diz por dizer” ou apenas para (o pior caso) passar o tempo. Psicanalistas são fanáticos pela linguagem e diante de um “Bom dia!” são capazes de responder com um “Fale me mais sobre isso” ou com uma contrapergunta: “Parece um bom dia para você?”. Isso acontece porque eles não fazem nada sem sentir a temperatura do paciente, ou seja, sem precisar o clima de humor ou de afeto, o lugar de fala e a posição de escuta na qual seu analisante se encontra. Freud descobriu um importante fenômeno que acontece quando falamos livremente. Conforme falamos, começamos a reencenar a peça do que estamos dizendo, tomando nosso interlocutor como um personagem imaginário de nossa própria história. Mais ou menos como se alguém começasse a ler o roteiro de sua vida para outro, mas como o conteúdo e a forma são tão próximos do personagem do roteiro ao ator que lê o roteiro que ele começa a encenar a peça. E isso não estava no roteiro. Isso acontece sempre e não é uma propriedade específica da relação terapêutica. Por exemplo, uma pessoa começa a contar que brigou com alguém no trabalho e, à medida que vai entrando em detalhes e se aprofundando na história, começa a brigar com você. Como se estivesse falando com o tal colega de trabalho, esquecendo que você é você, o amigo que está ali só para… escutar. A escuta do lugar fático acentua a relação entre os participantes da situação. Ela serve para ajustar o humor coletivo, a sincronização de ânimos dos interlocutores ou a sintonia entre as pessoas, antes ou, independentemente do que vamos fazer e de quem
somos, sabemos que “estamos juntos”. O psicanalista Theodor Reik[30] especializou-se em intuir como a forma como o paciente apertava a mão de seu analista, a maneira mais ou menos típica como ele abria a porta, como fazia um silêncio inicial, tirava o casaco ou começava a falar trazia importantes prenúncios do que viria a ser tratado na sessão. Isso que ele chamou de “atmosfera” é o campo da linguagem fática, que trata do reconhecimento de base entre duas pessoas: eu estou aqui, você está aí.
A última função da linguagem está reservada para especialistas ou grandes mestres na
arte da escuta. Eles podem ser encontrados nos departamento de vendas, nas feiras públicas,
no mercado financeiro e em tantos outros casos nos quais percebemos pessoas que têm uma espécie de aptidão espontânea a perceber padrões onde outros veem apenas uma paisagem monótona, ou uma confusão de cores onde eles veem figuras se formando. Essa é a função poética, mas também aquela que é usada pelos que se dedicam a estudar a linguagem em seu funcionamento, também chamada de metalinguagem.
Para a banda tocar é preciso encontrar, de vez em quando, um arranjador profissional ou
um remasterizador, capaz de dizer: escuta só…
6. Metalinguística e poética: Como uma espécie de radicalização da função fática, existiria
ainda uma última função que abarca todas as anteriores e que acontece quando enfatizamos a linguagem em si mesma. Essa é a função que os poetas usam para fazer seu ofício e também o que move o brincar da criança. Podemos chamar esse lugar de função lúdica ou de escuta lúdica, que é a arte na qual o palhaço se especializou. Metalinguagem é o estudo da linguagem como objeto de si mesma. Por exemplo, quando saímos da linguagem ordinária e natural e escrevemos os operadores lógicos da linguagem estamos fazendo metalinguagem. Também quando o poeta se dedica a revirar a língua criando sentidos, nossas formas de dizer e até mesmo novos referentes ele está a reconhecer que há um prazer interno ao uso da linguagem que merece ser valorizado.