O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 38 de 50

Páginas do PDF

O Palhaço e o Psicanalista

Escutando Pela Primeira Vez

36 Escutando pela primeira vez

 

 

Escutei minha primeira paciente ainda no quarto ano do curso de Psicologia. Um momento marcante para todo clínico. A primeira e só haverá uma “primeira” vez em que alguém se disporá a falar de si, colocando-se em nossas mãos e pedindo ajuda para o conjunto complexo e enovelado que costuma ser uma vida. Especialmente no sofrimento pessoas dizem coisas difíceis de ouvir. É nesse instante que você deixa de ser aluno e descobre que está na mais completa solidão diante da tarefa. Na clínica não tem replay, slow motion ou parada técnica, tudo acontece em tempo real.

Estava diante de uma garbosa senhora, altiva e bem penteada, com uma pasta debaixo do braço, olhando fixamente para mim. E aquilo que os iniciantes mais temem aconteceu comigo: silêncio. Recorri ao básico: “O que te traz aqui?”. Recebi de volta o inusual: “Eles ali da frente me disseram para vir aqui”. Aprendemos que indicações malfeitas podem frequentemente prejudicar o início do tratamento por que acontecem, como se diz, fora da transferência. O médico sugere ou a escola reclama ou o sistema judiciário impõe fazer psicoterapia e a pessoa obedece, mas isso não está, por assim dizer, no tempo certo no qual ela gostaria de falar de si, muitas vezes a pessoa nem sente que as dificuldades ou limitações enfrentadas têm alguma relação de implicação ou de responsabilidade com ela mesma. Por isso, a pessoa se apresenta como uma espécie de funcionária ou embaixadora de uma demanda que não lhe pertence. Cumpre ordens e se comporta como o esperado de um paciente: fazer exames, tomar remédios, evitar gorduras. A estrutura da situação parecia feita por algo assim e a posição da pessoa era nitidamente de confronto ou de defesa.

Pergunto à senhora exatamente quem a havia mandado para o consultório e se existia algum problema ao qual eu poderia ajudar. Aprendemos também que, diante do inesperado, é preciso ganhar tempo e que a forma mais simples de fazer isso é pedir esclarecimentos, aumentar o nível de detalhes. Essa é a versão simples do “fale-me mais sobre isso”.

Mas a senhora não estava para brincadeira. Diz então de forma quase exaltada: “O problema, ora, o problema é essa dor de dente”. Por um instante atravessou-me um laivo de alívio. Devia ter sido um engano. O prédio da odontologia ficava bem em frente ao nosso, de tal maneira que ela entrou na porta errada e aqui estávamos: “dor de dente”. Percebendo meu espanto com a resposta, ela prosseguiu:

“É dor de dente, nunca ouviu falar? Estou com essa porcaria aqui há sete anos que não passa e ninguém me esclarece nada.”

“Então… a senhora foi ao dentista?”

“Menino, quem você acha que me mandou para cá? Já não falei?”

O golpe era baixo, duro e entrou direto no narcisismo do jovem psicólogo cujo segundo maior fantasma era deixar o paciente perceber sua inexperiência e que por isso não sabia o que estava fazendo. A palavra “menino” ressoava sem parar na minha orelha, perfurando o martelo até a bigorna, passando pelo ouvido médio, indo das áreas neurologicamente conexas, até o fundo vazio de minha alma. De tal maneira que não conseguia escutar mais nada pelos próximos cinco minutos. Minha sorte é que ela estava ocupando o terreno criado pela minha desorientação, a essa altura visível e risível. Recuperando-me aos poucos, tentei voltar à carga:

“Conte-me como começou essa dor. De que tipo ela é? Vamos falar sobre isso.”

“Rapaz, eu não vim aqui para escutar palestra. Já te disse que estou com esta dor de dente há sete anos e quem ninguém dá jeito nisso. Eu vou para cá, eu vou para lá e a dor continua. Que palestra vai adiantar para isso?”

No corner de novo. Mas não deixei de perceber que em poucos minutos havia evoluído de “menino” para “rapaz”. Também notei que sua animosidade havia diminuído, talvez por piedade, talvez por perceber que, mesmo sob solavancos, eu ainda continuava a me interessar pelo caso. Resolvi aceitar que ela estava apenas obedecendo ordens e que alguém da odontologia a havia mandado para o consultório. Em vez de insistir em uma abordagem direta, pedindo para ela falar de si ou sobre seu dente, mudei a perspectiva para sua relação com a hierarquia, esboçando sair da defensiva para o ataque:

“Quem é esse doutor que te mandou aqui?”

Desta vez a fala veio. Detalhes e minúcias sobre como foi mal atendida primeiro, depois bem atendida, depois a volta, as radiografias, as mudanças de lugar. Sobrevivi assim à primeira sessão.

Discutindo o caso em supervisão veio a ideia de utilizar algumas técnicas de investigação diagnóstica, que poderiam assim organizar melhor a situação. Diante do caos, crie listas e ordene procedimentos: uma receita cujo potencial de ensurdecimento é elevado. Planejamos então começar com um teste específico, o Aperception Tematic Test (TAT), no qual a pessoa olha alguns desenhos relativamente ambíguos e é convidada a contar uma história a partir do estímulo. A história que a pessoa inventa permite que se leia algumas coisas sobre como ela fala de si, sugerindo modalidades de conflito e tipos de defesa que podem ter alguma utilidade diagnóstica. Desconfio de que minha supervisora havia pensado nessa ideia percebendo meu desespero de voar às cegas com artilharia antiaérea pesada do outro lado. O teste era uma tarefa estruturada, que devia ser cumprida, com início, meio e fim. Uma boa forma de começarmos de novo a travessia infinita dos cinquenta minutos. A segunda vez é sempre um alívio, porque você pode começar por:

“E então como tem passado?”

Confiar que a tensão representada pelo desconhecido, o estranhamento e a imprevisibilidade do primeiro encontro seria diminuída. Mas…

“Como sempre… doendo. Qual a parte de ‘está doendo’ você ainda não entendeu? Quer que mostre?” Abrindo levemente a boca e insinuando que poderia colocar o dedão na região exata para ter acesso à “coisa ela mesma”.

Tiro então o tal teste e começo a explicar que desta vez eu tinha uma ideia de como poderia entender melhor o que estava se passando. Isso mostrava que eu tinha me preocupado com ela, que eu me lembrava do encontro passado e estava metodicamente preparado. Como adicional eu deslocava a expectativa para um objeto mágico, que poderia ajudar a enfrentar o problema. Perguntei, em renovada confiança que, se ela não se importasse, gostaria de apresentar algumas pranchas, com imagens, e pedia que ela me contasse, quando fui interrompido pelo mesmo tom da primeira vez.

“Já te disse que não vim aqui para ouvir palestra e agora você quer que eu faça palestra? Isso não vai dar certo, menino. Você quer teste, exame e coisa? Está aqui ó!” E joga o envelope que estava em baixo do braço dela desde a primeira sessão, ao qual eu não havia prestado a menor atenção.

Rebaixado a “menino” de novo. Mais uma vez nas cordas, preso no “fio dental” da história. Porém agora eu tinha aprendido algo. Ela queria levar a conversa para exames, médicos e dentistas. Eu tinha um programa na cabeça que era fazê-la falar de si. Insistindo no meu planejamento, eu simplesmente estava deixando de escutá-la, nos termos que ela me propunha e conforme a possibilidade que ela tinha de falar. Havia cometido o erro básico de não levar a sério a estrutura da situação, aceitando seu ponto de vista antes de qualquer coisa. Não tinha me despido o suficiente de minha identificação com “jovem-aluno-solícito-de-psicologia-tomado-por-boas-intenções” e louco para obedecer ao que a instituição esperava de mim. Essa verdade insofismável estava sendo dita a céu aberto, apesar de minha surdez abissal: “menino”, “rapaz”, “menino” de novo. Por isso coloquei meu rabo psicanalítico entre as pernas da castração e comecei a mexer na vasta papelama, ao que fui premiado imediatamente com um largo sorriso.

“Aqui diz que a senhora procurou tal lugar, em tal época, daí fizeram isso e aquilo. Não deu certo, daí tiveram que extrair o dente.”

Ela assentia com a cabeça. Sua atitude corporal se desarmou. Sentia que estava no caminho certo, ainda que me visse cada vez mais com um impostor odontológico. Foi então que eu me escutei, sendo afetado pela coisa da qual ela estava sendo afetada. Eu tinha acabado de dizer que eles extraíram o dente, há uns três anos. Portanto, como ela podia ter dor de dente se não tinha dente. No exato e preciso lugar que afinal tentara me mostrar, e eu, pudicamente, evitei olhar onde havia um “não dente”, um “vazio”, uma substância carnal que simples e fisiologicamente não podia doer. Um sorriso interior, típico da arte cavalheiresca do pescador de almas se insinuou mansinho… mas, doía assim mesmo.

“Quer dizer então que a senhora tem dor de dente onde não tem dente?”

Por essa ela não esperava. Mas pela primeira vez eu assumia a estrutura adversativa que ela me propunha, devolvendo, com um grão de humor a mais, a interpelação que ela vinha imprimindo no jogo. Reagiu.

“É um jeito de dizer… Você entendeu, né?”

“Sei… um jeito de dizer… tipo palestra?”

Aqui o limite era tênue. Ela podia simplesmente se ofender, escutando o que eu dizia, sobre o que ela disse, como um desejo de contrariá-la e dar o troco. O próximo passo era decidir se entraríamos na cooperação agonística ou no agonismo cooperativo. Eu tinha razão e ela não.

Saber vencer é mais importante do que saber ganhar na arte da escuta. Um sorriso a mais e a boa vitória se transformará em humilhação vingativa do rival. Por outro lado, vitórias são o melhor jeito de provar que o que está em disputa não são as vitórias de um ou de outro, mas o processo de ambos. O erro complementar reside na piedade, que desqualificará a derrota do oponente, tornando seus limites a razão de um fracasso.

Sempre que possível prefira a compaixão à piedade. Compaixão remete a dividir ou compartilhar a paixão com o outro, tomando-a como função de vulnerabilidade comum. A piedade sempre será uma versão da dialética do senhor e do escravo. A compaixão se distingue da pena e da piedade porque se estende a todos os envolvidos na situação com imparcialidade e desejo genuíno de contribuir para que aconteça o melhor para todos. A piedade é um afeto traiçoeiro, pois frequentemente nos faz produzir com o outro uma pena de nós mesmos ou, ainda que furtivamente, uma satisfação por não estarmos realmente no lugar do outro. Para se apresentar como um afeto realmente transformador, e não apenas reprodutor de sofrimento – como, por exemplo, a maior parte dos afetos ligados à culpa –, é preciso aspirar que o outro genuinamente se livre da condição na qual ele se encontra, ou seja, passar da efusão e da emoção para a comoção e desta para a ação. A compaixão interessa a escuta na medida em que mobiliza responsabilidade por fazer algo, ainda que pequeno para que no nosso encontro, e mesmo que este dure apenas um instante, aconteça.

A alternativa B, que ninguém consegue explicar miraculosamente como acontece, é que entramos em uma nova posição. Hospitaleira. Nem aquela senhora nem eu tínhamos razão, nem controle discursivo da situação. Brincar poderia ser mais interessante do que saber quem manda ou sabe mais. A partir de então era o dente que não havia, e que doía assim mesmo, que dava as cartas. Era uma parte dela, que agora compartilhava comigo. Contudo, uma parte que nem ela, nem eu enquanto seres de razão e entendimento conseguíamos apreender. Era no fundo um “vazio” de sentido, de entendimento e materialmente falando, um vazio corporal (de dente, neste caso) que havia sido reconhecido. Mesmo assim, o tal dente tornou-se hóspede e hospedeiro em nossa conversa. Passamos de controle para cuidado. Tínhamos um enigma em comum. Tínhamos um instante de intimidade e estranhamento. Saímos da primeira situação de escuta, na qual a minha tentativa de simpatia se chocava com a antipatia reativa dela, para um momento de escuta empática.

Fez então um daqueles silêncios decisivos. Ela entendeu, em ato, como o jeito de dizer muda tudo, o que por outro lado ela e todos nós já sabemos. Se antes estávamos usando a linguagem para descrever coisas e referenciar palavras com seus objetos no mundo, agora passamos para ela e sua relação com esse vazio. Apesar da absoluta seriedade do assunto e da dor real que a ele se ligava, um pequeno toque de humor foi necessário para que a brincadeira acontecesse.

A partir de então as coisas se organizaram porque ela entendeu, “na prática”, o que estávamos fazendo ali e o que significava ser escutada. Não tive que apresentar nenhum manual para bom uso de psicoterapia. As questões sobre pagamento, frequência e procedimentos institucionais, usualmente conhecidas pelo nome técnico de “contrato”, tornaram-se subordinadas ao que havíamos produzido em termos da lógica do encontro. Aqui está a importância decisiva da primeira escuta. Se isso aconteceu uma vez entre nós, por que não poderia acontecer uma segunda vez? Ou uma terceira? E assim por diante.

Depois disso as coisas começaram a ser esclarecer. A extração do dente tinha vindo junto com uma série de perdas que ela havia atravessado. O marido que a deixou, o filho que morreu. Não estavam mais aí, porém continuavam a doer. Sozinha, ela procura uma igreja e o pastor lhe diz que a fé vai remover a dor, mas ela ainda não acreditou o bastante. Eram palestras que ajudaram muito. Foi só aí que entendi a concorrência inicial entre psicologia e religiosidade, como se ela estivesse se apresentando: “Palestra eu faço com meu pastor! E vamos nos acertar desde início, não é falta de fé”. Também percebi que os exames e tudo mais tornaram-se o meio fundamental pelo qual ela conhecia novas pessoas e recriava para si uma nova vida social. Abordava gente no ponto do ônibus contando seu périplo, suas dificuldades e como os médicos não sabiam o que estava acontecendo. O dente que não estava lá tinha virado o ponto central de uma importante narrativa, por meio da qual seu sofrimento era reconhecido, mas também por meio do qual seu caso adquiria um caráter de enigma e de importância. No fundo, o sofrimento dela era uma forma de se colocar e dizer algo para os outros, algo que era meio difícil de escutar.

O tema é clássico na história da psicanálise: dores que são uma espécie de memória simbólica de passagens da vida de alguém. Depois de alguns meses falando sobre isso, ela faz uma declaração que era mais ou menos assim: “Sabe que a dor diminuiu com essa história de palestra? Diminuiu, mas não passou”, corrigiu-se logo em seguida. Como que a piscar em cumplicidade comigo. Escutamos o silêncio, onde ressoava a palavra impronunciada, sobre o vazio: “menino!”.