O Palhaço e o Psicanalista
“Brinco, Logo Escuto”: A Escuta Lúdica
34 “Brinco, logo escuto”: a escuta lúdica
Outubro de 1962. Crise dos mísseis. Kennedy reúne-se com o alto escalão de seu governo e a cúpula militar americana está diante de um impasse. Os Estados Unidos haviam dado um ultimato à União Soviética para que retirassem suas ogivas nucleares instaladas secretamente em Cuba. O aviso era claro: ou a URSS retirava os mísseis do país caribenho, ou os Estados Unidos bombardeariam Cuba, Moscou e o resto do mundo seria arrastado para o outro mundo.
Nikita Khrushchev, líder soviético, porém, estava irredutível: “Hey baby, mamar na vaca você não quer. Se vocês instalam suas bombas aqui do lado, na Turquia, por que não posso
instalar as minhas aí perto de vocês? Eu tiro os mísseis se vocês retirarem os seus…”.[41]
Passavam-se já treze dias desde o início da crise. O mundo todo na trágica expectativa de uma guerra nuclear. O alto comando militar pressionava fortemente o presidente americano para que ele desse logo a ordem de ataque: “Antes que eles o façam”. Consta que, sem dizer muitas palavras, John Fitzgerald Kennedy retirou-se da sala presidencial retornando a ela duas horas mais tarde, com a esperadíssima solução na cabeça. Ligou então para o líder soviético e disse algo assim: “Tá bom, Khrushchev, se vocês retirarem os mísseis de Cuba, a gente também tira os nossos da Turquia. Mas não pode contar isso para ninguém, por enquanto, tá? É segredo, senão o pessoal aqui vai cair de pau em cima de mim…”.
Proposta feita, proposta aceita. O mundo não acabou e aqui estamos nós para contar a história. Uma pergunta: O que você acha que John Kennedy fez nas duas horas em que se ausentou da sala presidencial? Estudou diplomacia? Traçou um perfil psicológico do líder soviético para saber o quanto a situação estava ruça? Pesquisou como seus antecessores resolveram dificuldades semelhantes?
Nada disso. John Kennedy foi nadar.
Ele poderia ter ido jogar golfe, gamão, passear em um museu ou andar a esmo pela cidade. O importante para nossos propósitos é que ele teve que sair da situação para regressar a ela com uma nova e “solucionática” perspectiva. Há uma prática que nos acompanha desde criança e que nos ensina a recriar o mundo e seus problemas de forma simulada, ainda que séria e atenta, de tal forma que nos prepara para vivê-lo melhor, essa prática é a brincadeira e a atitude necessária para isso é a atitude lúdica.
Em sua célebre obra [43] Homos Ludens , que reflete sobre o papel do elemento lúdico nas sociedades, Johan Huizinga, historiador e linguista holandês, afirma que nós somos regidos por três eixos essenciais.
1. Eixo Sapiens: pensar, representar, planejar.
2. Eixo Faber: executar, trabalhar, ocupar-se.
3. Eixo Ludens: sentir, brincar, criar.
No eixo sapiens, representado pelo nosso cérebro, reside o intelecto, a capacidade de pensar, de fazer estratégias, de refletir. No eixo faber, simbolizado por nossas mãos, está a capacidade de ação, de colocar em prática, de agir concreta e coordenadamente. O eixo ludens, figurado por nosso coração, é onde reside a capacidade de brincar, os sentimentos estéticos e as emoções colaborativas e antagonistas. Para Huizinga, esses três eixos são integrados, mas infelizmente nós não fomos educados para acreditar que estejam em pé de igualdade. Nossa ação útil no mundo é frequentemente creditada apenas às nossas capacidades de pensar e de executar, como se fôssemos apenas cabeças intelectuais e mãos executivas.
Na frente da maioria dos departamentos das empresas, existe a placa invisível, mas que todos enxergam bem: Deixe seus problemas pessoais do lado de fora. Como se a faculdade de sentir e se emocionar fosse coisa de gente fraca. Como se houvesse em nossas costas uma chave profissional-pessoal, ou como se no coração existisse um botão on/off. Poucos dias antes de escrevermos este capítulo, fizemos um treinamento com a equipe de vendas de uma grande empresa. No final da atividade, uma das pessoas da área se emocionou e no mesmo instante alguns fizeram piadas com isso. A ideia de que as emoções são risíveis e ridículas está incutida em nossa sociedade e no nosso meio de trabalho. Isso se liga ao fato de que certas emoções nos fazem sentir vulneráveis e o risco dessa vulnerabilidade se espalhar provoca uma reação defensiva e repressiva por parte do grupo.
Ludens nos conduz à ludicidade que é nossa capacidade inata de brincar, de jogar e que está sempre viva em nossa criança interior. Conectar-se com a ludicidade é permitir que nossa criança, escondida lá dentro, apareça aqui fora. A palavra “criança”, por sua vez, deriva de “criar”. Lembre-se de quando você era pequeno ou pequena. Você não criava e recriava o mundo ao seu redor o tempo todo? Meu quarto poucas vezes foi o meu quarto. Ele era um planeta desconhecido, o deserto do Saara, um oceano revolto, ou um campo de batalha para o qual minha espada era o que eu tivesse à mão: uma régua, uma caneta, um pedaço de papel enrolado. Quem já não fez coisas assim?
Se pensarmos que o maior criador de universo é Deus (e para os ateus, isso vale como metáfora), isso significa que quando silenciamos a nossa criança, estamos silenciando também
nossa capacidade de criar o mundo que queremos.[44] Uma vez aceito isso, devemos nos resignar a viver no mundo que os outros criam para gente, com suas regras que já vêm prontas. Nosso grande desafio é promovermos o encontro do adulto que somos com a criança que acreditamos ter sido, mas que continua viva em algum lugar de nós. Fazer o concílio da experiência com a inocência, essas duas sabedorias complementares, requer alternância de focos e capacidade de sair e entrar nas situações. Assim, quando o adulto titubear, o pequeno lhe puxar para a frente: “Vai!”. E quando a criança interna estiver muito afoita ou imprudente, a experiência do adulto lhe dizer: “Espera… calma…”.
Ludens originou a palavra ludere, que significa ilusão. Costumamos olhar para as ilusões como algo nocivo, que nos tira da realidade, coisa de quem não tem os pés no chão. Mas o que faz o mágico com suas ilusões senão nos mostrar outra realidade que estava ali, bem na nossa frente e que não conseguíamos ver? Ludere, portanto, nos remete a enxergar novas possibilidades ou oportunidades. É no eixo Ludens que reside nosso potencial inovador! A mesma coisa acontece com a palavra “diversão”, prima irmã da ludicidade. Diversão deriva de Di Vertere, que significa voltar-se para o outro lado. Mudar, portanto, o ponto de vista.
Quando John Kennedy, no auge da mais grave crise política mundial, retirou-se para nadar, ele se conectou com seu eixo ludens e permitiu que a escuta lúdica brotasse do silêncio que se faz quando damos uma pausa para o cérebro. Só então ele conseguiu escutar a voz das novas possibilidades que estavam ali, imersas no ruído dos seus pensamentos.
Embora desde sempre brincar faça parte do meu dia a dia, eu nunca tinha pensado sobre escuta lúdica. Foi meu pai quem me apresentou a ela, mas ele nunca soube disso. Veja só no capítulo a seguir.