O Palhaço e o Psicanalista
A Coragem e o Desejo de Escutar
44 A coragem e o desejo de escutar
Podemos elencar alguns valores e práticas que se associam aos gestos com os quais construímos situações de escuta favorecedoras da coragem e da abertura para o dizer:
1. Trabalhar a autoestima do time: Elogiar pequenas ações, apontar pontos positivos.
Criticar no privado, reconhecer em público. Tratar todo mundo com a mesma atenção, celebrar até as pequenas conquistas. Abrir-se para acolher críticas e dar expressão às insatisfações de seus subordinados.
2. Respeito no dia a dia: Dizer um bom dia, olhar no olho, perguntar da família, interessar-se
pelos estados de humor e de ânimo dos outros e reconhecer e respeitar os seus próprios. Não ser grosseiro, não levantar voz para criticar.
3. Gentileza gera gentileza: Pequenos gestos como oferecer café, pegar água, perguntar se
precisa de ajuda em alguma atividade.
4. Dar autonomia: Delegar funções, compreender que o erro faz parte, dar feedbacks sem
alteração de humor.
5. Coerência: Praticar o que se diz, aplicar a mesma regra para todos, cumprir acordos
buscando imparcialidade de tratamento.
6. Transparência: Não falar por trás, deixar claro (verbalizar) o que se espera, o que não se
espera, deixar claros os limites.
7. Valorizar as pessoas: Escutar a equipe levando em consideração cada indivíduo.
Nos treinamentos de escuta que tenho desenvolvido com lideranças corporativas sempre digo algo que soa como uma piada: grupos coesos, unidos, entusiasmados, focados e com alto desempenho, todos eles têm uma coisa em comum: um palhaço na liderança. Passadas as risadas, eu pergunto: “Mas será que é so uma piada mesmo?”. Projeto então o meu tradicional slide com os atributos de escuta de um bom palhaço e proponho uma comparação com qualidades de um bom líder corporporativo:
1. Marginalidade: Como vimos no início este livro, a marginalidade é uma condição muito
favorável à escuta. Alguém de fora sempre consegue ter uma percepção mais ampla e parcimonisosa sobre o todo. Bons líderes são aqueles que têm a habilidade de se entranhar no grupo e ainda assim conseguir estranhá-lo. Esses líderes conseguem aliar a escuta marginal do palhaço com a escuta implicada, do psicanalista, e com isso, ter uma visão sistêmica, clara e imparcial do todo.
2. Vulnerabilidade: Nada pior para um grupo do que um líder que tem todas as respostas, que
não adimte quando erra, que não pede ajuda nem sugestões. Bons líderes, assim como bons palhaços, sabem que vulnerabilidade é um estado de potência que favorece a conexão e abre o grupo para uma escuta cooperativa e empática, apoiada nos quatro “agás”. Lideranças fortes, positivas e escutadoras sabem, ainda que incoscientemente, porque o sapato do palhaço é grande.
3. Escuta quatro “agás”: Líderes escutadores são responsáveis por criar encubadoras de bons
projetos, de ideias, de sonhos. São por isso, não apenas gestores, mas também gestantes. Fazem a gestão e gestação de ambientes em que as pessoas sejam convocadas a incentivar a serem melhores, mais autênticas, felizes e, consequentemente, mais engajadas, criativas e produtivas.
Pedro Salomão[52] diz que falar em felicidade no ambiente de trabalho não é papo de bicho grilo, uma frase de efeito ou um conceito vazio de autoajuda. “Felicidade é estratégia”, diz ele. Bons empresários e líderes escutadores sabem disso. As colheitas realizadas sobre a construção da sensação de pertenciemento, como construção de desejo compartilhado, frequentemente apontam para um ruído na comunicação e a necessidade dos colaboradores de se sentirem mais escutados. Aqui estão alguns enunciados que denunciam a necessidade de aumento dos espaços e das experiências de escuta:
1. Poder contribuir com ideias.
2. Ter liberdade de expressar sentimentos.
3. Saber melhor o que está acontecendo no dia a dia da empresa.
4. Receber treinamentos que acrescentem na vida profissional.
5. Rebecer treinamentos que os façam crescer como pessoas.
6. Reconhecimento financeiro.
7. Ter autonomia para tocar projetos e ter reconhecimento sobre isso.
Uma pesquisa realizada em 2015 pela comunidade de carreira Love Mondays corrobora minha colheita informal dos últimos vinte anos. A análise levou em consideração 3.365 opiniões de usuários do portal, para descobrir quais seriam as reivindicações mais comuns dos colaboradores aos principais líderes de diversas companhias. Desse universo, apensas 368 apontaram o salário em primeiro lugar. “Os funcionários têm a sensação de que estão no comando de seus projetos, mas sentem que não estão sendo valorizados pelos gestores. Com isso, a falta de reconhecimento gera insatisfação com os líderes”, avalia Luciana Caletti, CEO da
Love Mondays.[53]