O Palhaço e o Psicanalista
Competir ou Cooperar?
28 Competir ou cooperar?
Se por um lado não fomos educados a escutar, por outro fomos e continuamos sendo competentemente treinados a competir, sempre e a qualquer custo. Por cada palmo de chão, por cada instante de fala, por mais reconhecimento, por tudo. Esse adestramento segue um fluxo lógico e, olhando para ele, torna-se bem fácil compreender a inevitável consequência. O “modo competição” é próprio da cultura da escassez, em que se entende que os recursos são poucos e insuficientes para todos, portanto é preciso lutar segundo a regra tática de que a vitória de um será a derrota do outro. O outro pode ser um adversário ou um aliado. Ao acatar servilmente o meu papel, acabo sentenciando o papel do outro: ser meu concorrente, antagonista, inimigo. Quando os outros tornam-se oponentes, não nos sentimos mais “componentes” de uma mesma unidade. Por isso, o grande problema para a formação de lideranças é fazer com que a disputa pela ascensão vertical não prejudique ou ameace a coesão horizontal.
A cultura da cooperação desenvolve-se quando percebemos que os recursos são abundantes e estão mal distribuídos ou são tão escassos – e nós tão vulneráveis –, que só conseguiremos alcançá-los por um esforço conjunto. Isso aumenta a implicação e a importância proporcional de cada um, porque não estará apenas obedecendo, mas sentindo-se autor conjunto de uma obra coletiva. Aqui teremos que escutar os outros, não apenas obedecer a ordens ou estratégias de ataque e defesa.
Transitar do modo competição para o modo cooperação, ou seja, passar do oponente ao componente é a tarefa do percurso da escuta. A passagem da hospedagem ao hospital, do hospício ao hospedeiro não é um método, nem uma regra, muito menos um esboço de currículo não pode ser feito por meio de uma disciplina, mas exige certa relação ética com o outro. Essa relação pode ser formada, pode ser incentivada e boa parte das grandes obras de cultura, de arte ou de literatura nos ensinam, pelo seu próprio desafio, como podemos aprender a escutá-la como parte formativa de nós mesmos.
Deve estar ficando claro que a escuta não é apenas uma técnica ou um método, uma arte ou uma habilidade, mas uma ética. Quem fala em ética não fala, no nosso caso, em dizer o que é o bem, mas em bem dizer. Dizer bem, o que nos move. Encontrar as palavras e os tempos que nos aproximam ou nos distanciam. Como diz Eduardo Galeano: “Nós fomos educados para ver o outro como uma ameaça”. E não fomos? Que criança nunca ouviu a frase “Não fale com estranhos”?
Moldados pela competição e pelo medo, pela oposição entre impotência e onipotência, crescemos vendo no outro um predador sempre à nossa espreita, pronto para abocanhar algo nosso muito precioso: o lugar na fila, a vaga no estacionamento, o posto no emprego. Diante desse terrível e ameaçador “oponente”, vou abrir meu coração para escutá-lo, buscando pontos comuns, termos compartilhados e lugares de mediação? Diante dele eu vou criar uma ponte que nos ligue ou um muro que nos separe?
Seria, no entanto, uma ilusão achar que onde há cooperação e solidariedade deveria haver menos conflito. Ao contrário, o ambiente cooperativo possibilita que os conflitos saiam das sombras e se apresentem, sem que necessariamente ocorra o confronto entre pessoas por conflitos de ideias. É justo dizer que a escuta, verdadeiramente cooperativa, hospitaleira e hospitalar, não implica apenas em concordância irrestrita, mas também, e na mesma dose, em divergência e dissenso, pois essas dissonâncias inevitáveis e potencialmente criativas encontram abrigo, destino e encaminhamento. No ambiente de cooperação nos é permitido modular a distensão ou o aumento do conflito, por meio até mesmo de atitudes competitivas, tais como polemização ou tensionamento de posições, que surgem aqui, não para aniquilar o outro, mas com a intenção genuína de instigá-lo, movê-lo, despertá-lo.
Podemos dizer, portanto, que a escuta, no modo cooperação, envolve dois movimentos: trazer à luz o conflito onde há demasiado (e possivelmente mascarado?) consenso e trazer consenso onde há demasiado dissenso. Mas esse passo depende crucialmente de processos que a psicanálise e a psicologia estudaram em torno da simbolização de conflitos. Esses processos podem ser resumidos pela possibilidade de substituirmos conflitos reais por equivalentes simbólicos como o jogo.
A escuta lúdica não é uma escuta inconsequente, mas uma forma de produzir um substituto virtual dos problemas reais para poder regressar a eles com um melhor ponto de vista e uma atitude menos parcial. O estado de jogo, a metáfora ou alegoria são cenários e simulações por meio das quais tratamos o conflito pela palavra, antes de que esta seja substituída pelas ações.
Mas como educar para uma escuta inclusiva, empática, cooperativa? Acreditamos não existir uma única resposta, nem a melhor nem a certa. O que existem são pistas. E, na maioria das vezes, elas são mais valiosas do que respostas definitivas. Essas pistas se encontram nas histórias que vivemos. Às vezes camufladas em metáforas e às vezes bem ali à mostra, concretizadas em ações que deram certo, que não deram muito certo, ou que deram errado mesmo. Cada um de nós com certeza tem um caso de encontro e desencontro para contar. Um dia em que uma única palavra mal compreendida pôs tudo a perder, ou o contrário, um simples gesto promoveu uma grande mudança na qualidade da relação. A ideia deste livro é justamente essa, oferecer algumas pistas.