O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 34 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Fala que Eu Não Te Escuto

32 Fala que eu não te escuto

 

Quando eu estava no ensino médio, o que faz tantos anos que parece outra encarnação, comecei a reparar que alguns professores não nos escutavam. A gente perguntava uma coisa, eles respondiam outra. Às vezes, até escutavam, mas apenas uma parte da fala e por isso respondiam o que achavam que teria sido a pergunta, se ela pudesse ser feita inteiramente. Diante desse diagnóstico, resolvi fazer uma brincadeira que acabou se tornando uma mania na turma do fundão: passei a enfiar palavras absurdas na frase para ver se os professores escutavam: “Professor, qual o resultado dessa evacuação de segundo grau que está na lousa?”. “Professora, na península histérica, quais países fazem fronteira, Portugal e Espanha?” Os queridos docentes nunca perceberam e tampouco entendiam por que ríamos tanto quando me respondiam. O que poderia ter de tão engraçado na fronteira entre esses dois países?

Um dos professores tornou-se nosso alvo predileto. Ele era chato, intransigente, não deixava ninguém ir ao banheiro antes de tocar o sinal. Como vingança pela tortura urinária, passei a fazer com ele o seguinte teste de escuta: “Professor, posso ir ao banheiro?”

E ele: “Não pode! Só no final da aula.”

Um minuto depois, eu repetia:

“Professor, posso ir ao banheiro?”

E ele, ficando irritado:

“Já disse que não. Só depois do sinal…”

Então, eu dava mais um minutinho, e apontando para a porta, perguntava: “Professor, o seu pinto sobe?”

E ele, irritadíssimo:

“Já falei que não, filho! Só depois do sinal!”

Como o leitor pode perceber, a turma do fundão era realmente muito empenhada e comprometida com a nossa aprendizagem. Estudávamos por meio do método científico; observávamos a realidade, pinçávamos um fenômeno observado nessa realidade, levantávamos hipóteses para esse fenômeno e realizávamos experiências para comprovar nossas teses. Trinta anos depois, eu já era um dedicado pesquisador da escuta e resolvi fazer uma série de três vídeos inspirados naquele experimento da escola. A ideia era sair às ruas perguntando coisas absurdas e ver o que acontecia. Chamei dois sobrinhos para brincar a sério comigo. O mais velho filmou e editou e o mais novo fez as legendas. Como a gente não tinha recursos, gravamos tudo com celulares que fizeram papel de microfones e câmeras, quase ocultas. O resultado foi tão hilário quanto estarrecedor: quase ninguém escutou realmente o que eu falava. Em uma das cenas, paro o carro na porta de um condomínio e peço licença para passar dizendo: “Tudo bem, eu vou na rua Piraí sequestrar o seu Antonio”. A resposta do porteiro: “Fique à vontade!”. Em outra cena, também de dentro do carro, pergunto a um pedestre: “Sabe onde tem um banco? Quero estourar o caixa…”. O pedestre pergunta: “Itaú?”. Eu repito: “Sim, um caixa para estourar…” e ele

atenciosamente nos indica o caminho. Cenas assim se repetem ao longo dos três episódios.[36] A série virou um sucesso e conversamos com muita gente sobre os vídeos: jornalistas, psicanalistas, pedagogos, fonoaudiólogos e neurocientistas. A conclusão a que chegamos? Várias. Nada definitivo e todas complementares.

Uma das explicações é que o nosso cérebro naturalmente seleciona parte do que chega até

ele. Isso acontece porque senão dá um [37] tilt . Imagine se todos os estímulos a cada segundo tivessem que ser minuciosamente decifrados. Seria um gasto gigantesco de energia. Para você ter uma ideia, o cérebro de outros primatas consome, em repouso, cerca de 8% de energia do corpo, enquanto o nosso utiliza, também em repouso, 25%. Como não temos pré-catalogada a hipótese de alguém chegar na portaria de um prédio e perguntar educadamente se pode fazer um sequestro, ele descarta essa opção para não gastar preciosa energia com isso. Reza a lenda que, quando as caravelas apareceram em alto-mar pela primeira vez, nossos índios não conseguiam vê-las, porque aquilo era tão inédito, que seus cérebros não registravam.

Outra explicação para não terem me escutado nos vídeos pode ser o estado de saturação em que vivemos. São muitos os estímulos, as solicitações e as responsabilidades: o filho, a filha, o marido, o patrão, o prazo, o condomínio, a escola, a sogra, as redes sociais, o e-mail e nosso sentimento básico é de atraso e insuficiência diante de tantas coisas, pessoas e demandas para escutar. Se já é função natural do cérebro selecionar para economizar energia, aí é que ele te coloca no automático mesmo.

Chamamos esse automatismo de Teoria da Coca-Cola. Segundo o instituto de pesquisas Thebas-Dunker, 93% das vezes em que você pede Coca-Cola só com limão, você recebe Coca-Cola com limão e gelo. Já passou por algo parecido? Faça um teste. Quando comprar alguma coisa na padaria ou farmácia, na hora de pegar o produto adquirido e ir embora, não diga “muito obrigado”, e sim, “até logo, um abraço”. Conte quantas vezes ouvirá de volta: “de nada!”.

Outra hipótese para a surdez social revelada pela web-série é que há nos vídeos uma incongruência entre o que digo verbalmente e o que é “dito” pela minha linguagem corporal e posição de classe denunciada em meu modo de vestir e falar. E essa incongruência que deveria confundir as pessoas é suprimida do circuito da comunicação.

Estudiosos da paralinguística,[38] ou seja, a ciência da linguagem não verbal, argumentam que quase 60% da mensagem é determinada por propriedades da linguagem como entonação, melodia, volume e tom de voz. Se há uma “sincronia” ou “simpatia”, nosso eixo corporal se alinha com o do nosso interlocutor em uma atitude corporal de espelhamento espontâneo. Um cruza as pernas ou braços, o outro faz isso também. Se um usa as mãos, o outro tende a acompanhar. Isso não vale apenas para a interação cooperativa, mas também se estamos em uma relação agonística, um levanta a voz, o outro segue, se um silencia, o outro também. Isso é particularmente chocante na interação entre adultos e crianças muito pequenas. Nós ajustamos “automaticamente” nosso tom de voz, nossa posição no espaço, de tal forma a entrar no campo de captação visual ótimo para a formação do foco, tudo isso “sem saber”. Mães são capazes de reconhecer o choro de seus filhos em meio a uma multidão de bebês semelhantes. Bebês são capazes de reconhecer e se acalmar com a presença do ritmo cardíaco preciso de suas mães. Esses sinais de simpatia podem ser revertidos quando queremos detectar “discordância” ou “antipatia”, por exemplo, cruzar os braços, quando você não cruzou os seus, elevar o volume da voz quando você não o fez, desalinhar a posição do torso. Isso sem falar em sinais de ansiedade, como tocar-se na face ou nos cabelos, ou de sedução, como mostrar delicadamente a palma das mãos.

Muitos neurocientistas e divulgadores das novas ciências do cérebro insistem em truques que podem nos fazer parar de antecipar sentidos e franquear zonas de suspensão e descontinuidade em nosso cotidiano. Aparentemente isso preserva o funcionamento cerebral e talvez previna certas formas de demência. Por exemplo, faça um novo caminho para o trabalho ou para a casa, escove os dentes com a mão esquerda (se for destro), varie a posição na mesa para almoçar ou jantar. Isso literalmente muda o ângulo que você vê as coisas. A variação de estímulos estéticos segue a mesma direção: crie uma lista inusitada de músicas, tipo canções folclóricas da Malásia. Há exercícios para surpreender-se, por exemplo, peça para o garçom escolher seu prato. Finalmente, há as dicas para recuperar certas conexões entre cognição e psicomotricidade, como, por exemplo, escrever uma carta para alguém usando caneta e papel ou criar um concurso de mentiras no próximo encontro de amigos. Todas essas recomendações tentam, de uma forma ou de outra, recuperar sua capacidade de se fazer presente, atento e receptivo para diferenças. De fato, essa é uma atitude importante para poder escutar os outros.