O Palhaço e o Psicanalista
A Escuta em Ambiente Digital
41 A escuta em ambiente digital
Nós que não nascemos depois de 1995 somos seres meramente adaptados, não somos verdadeiros nativos digitais. Sabemos muito bem usar um programa de computador, jogar videogame e mandar e-mails, mas nossa subjetividade não se formou nesta nova forma de linguagem que estamos chamando aqui de ambiente digital. Dois traços são marcantes neste ambiente: a relação entre texto e imagem se alterou substancialmente e a mistura entre aspectos da linguagem falada e escrita dão origem a um novo código de comunicação. Os memes e as gírias de internet são exemplos respectivos desses dois aspectos.
Estamos marcando essa diferença geracional e tecnológica porque desconhecer as características do ambiente digital é o primeiro passo para deixar degradar sua capacidade de escuta. Sendo mais claro: quando você está trocando mensagens de WhatsApp com alguém você não está falando com este alguém. Não, não é a mesma coisa que uma conversa face a face, mas um ambiente que potencializa os efeitos imaginários do monólogo interior; como você não vê seu “interlocutor”, você acaba implantando um espelho de seus próprios afetos e reações para “dar corpo ao outro”. Não, isso não é o mesmo que um telefone porque no telefone você escuta o tom de voz, a altura, as pausas e o ritmo da troca de turno. Mesmo quando vemos o outro em uma tela de Skype é muito importante lembrar que o outro assumiu um tamanho reduzido de tela, com brilhos e contrastes inexistentes na relação in natura. Há partes do corpo que se tornam opacas ao nosso olhar. Há uma privação de aspectos sensoriais como o cheiro, o tato, sem falar na intrusão causada por uma queda ou perturbação da conexão.
Algumas ilusões espontâneas que o ambiente digital favorece:
1. Sentimento de que sua presença ou manifestação é muito importante. Qualquer “clique” ou
“curtida” tem algum valor, logo você é alguém que a “rede” reconhece e ambiciona incorporar, ou seja, que os outros estão muito interessados em você. Por mais que você se ache irrelevante, ignóbil ou inadaptado, o ambiente digital promete e entrega uma
comunidade onde esse sentimento pode ser acolhido e tratado. A comunidade dos nerds, dos enjeitados, dos excluídos, onde podemos exercer nossa liberdade de ser diferentes entre iguais, cria assim uma espécie de alternativa ao mundo real, cada vez mais institucionalizado, vertical, burocrático e desigual.
2. Portanto, não se manifestar, dar um unfolow ou fechar-se a todo aquele que te causa
embaraço, constrangimento ou desagravo é uma atitude natural de represália e feroz reação de defesa. Logo, se você decide sair daquela rede social, muitas pessoas ficarão sedentas pelo seu retorno, afinal você é muito importante. Uma alternativa paralela, e profundamente antiética, no sentido da ética da escuta, é recorrer a um perfil falso, um nick name ou um avatar. A ideia é ótima quando se trata de dizer coisas que regimes políticos e disciplinas discursivas impedem de ser ditas, como no personagem Anonymous, nas práticas de resistência do ativismo hacker, presentes nos diversos movimentos Occupy que atravessaram o mundo nos anos 2012 a 2016. No entanto, essa estratégia foi subsequentemente colonizada por muitos que empregam nomes falsos e robôs simplesmente para agredir os outros e criar “massas digitais”, sem enfrentar as consequências de suas próprias palavras.
3. Essa sobre-estimação de si, associada com uma inconsequência da palavra, é correlata da
redução do tamanho do mundo. Isso produz a perigosa ilusão de que aquilo que eu não reconheço não tem direito à existência, ou seja, que assim como eu controlo o tamanho de meu mundo, nós (extensão coletiva de “eu”) controlamos “do que” e “de quem” o mundo é feito e “quem” está ou “que” deveria estar fora dele. Isso explica o fortalecimento da lógica da segregação e do preconceito, moral, religioso e cognitivo nas primeiras gerações expostas ao ambiente digital.
4. A redução do tamanho do mundo e o aumento do volume do eu nos torna hipersensíveis a
contrariedades e expostos a uma oscilação entre a existência gloriosa e a insignificância absoluta. Essa oscilação é potencializada pelo fato de que em ambiente digital estamos expostos à “função palco”, ou seja, um grupo de “n” pessoas que está observando, percebendo ou lendo, aplaudindo ou vaiando as mensagens que postamos nas redes sociais. Com isso, confundimos duas coisas muito diferentes: o palco, onde falamos com os outros, tendo uma plateia como posição terceira, e o mundo, onde falamos com o outro, em situação pública ou privada. O grande déficit criado por essa confusão entre o mundo e o palco não é apenas a exposição de aspectos da vida privada, como o que você comeu ou quantos quilos perdeu, em cena pública, ou, inversamente, o uso de gostos e opiniões privadas, como
alavanca política no espaço público. O grande déficit criado pelo ambiente digital não é a confusão entre público e privado, mas o déficit de intimidade e seu efeito devastador de solidão.
5. A escuta é o meio privilegiado pelo qual construímos experiências de intimidade.
Intimidade não acontece quando gostamos das mesmas coisas, consumimos os mesmos objetos ou temos os mesmos traços de personalidade. Com vimos, isso causa simpatia, não empatia. Intimidade acontece quando compartilhamos dúvidas, incertezas, crises e diferenças. Intimidade é uma experiência produtiva de indeterminação. Frequentemente encontramos casais platônicos que se “conversam” por meses em ambiente digital, certos de que são feitos um para o outro. Quando estão definidos que estão a casar e já pensam no nome dos filhos, algo irrompe devastadoramente: a realidade. E a realidade se mostra, devastadoramente, quando percebemos que estávamos, cada qual, falando sozinho, com nossa fantasia, e o outro servindo de emulação e suporte para esse engodo, achando que isso é amar o outro “de verdade”.
A escuta em ambiente digital deve ser uma escuta prevenida sobre essas ilusões e deformações. Falar não é escrever, ler não é ouvir e ouvir não é escutar. Nunca sabemos em quais condições a mensagem foi redigida e em quais ela será interpretada. Alguém pode escrever dirigindo ou cozinhando, nervoso ou em efusão com a vida, sorrateiramente, durante uma reunião de trabalho ou uma aula chata. Isso afeta sobremaneira o humor de quem escreve, certo? Mas isso não é lido pelo destinatário, que, por sua vez, pode receber a mensagem sentando no trono do seu banheiro, junto com as contas do mês ou ouvindo aquela música insuportável do vizinho pela décima vez. Agora combine a possibilidade de alteração de humor ao longo do dia, com ou sem TPM (e acredite, há uma versão masculina da dita cuja). Calcule a probabilidade de match entre o seu momento romântico sensível especial, quando você manda aquela mensagem tipo “ursinhos carinhosos” e a recepção “ostrogoda” de alguém que recebe sua mensagem enquanto está tomando uma bronca do chefe ou preso no trânsito infinito, possuído pelo “coração gelado”.
Certo, ninguém precisa responder uma mensagem imediatamente quando a recebe. Ocorre que aqui entramos no principal fator para a construção de uma escuta digital: o tempo. Em condições normais de pressão e temperatura, você perceberia que seu interlocutor está em uma fria, aplicando um desvio padrão no teor e na forma da resposta. Aqui entra outro complicador. Se você não responder “na hora” ou “quão na hora você responder” torna-se uma mensagem ela mesma. Uma mensagem que decide o nível de envolvimento que você tem na conversa, logo no outro. Portanto, não responder, torna-se assim mesmo uma resposta, e uma resposta de recusa ou menos-valia para o outro.
É por isso que rapidamente se estabeleceu um código de exagero nas mensagens por internet. Ou seja, abra a mensagem dizendo, explícita e pirotecnicamente, que você, está interessado no outro, que está tudo bem e que você só quer uma resposta. Evite ambiguidade. Seja informativo e evite a prolixidade. Seja organizado. Sim, você está vendo ressurgir aqui as regras conversacionais de Grice, que discutimos anteriormente, e que são uma espécie de antimodelo da escuta lúdica e empática e da escuta quatro agás. Isso ocorre com um agravante. O ambiente digital promove a expectativa de que você está acessível e disponível o tempo todo, que você está respondente o tempo todo. Ou seja, o ambiente digital leva a uma aceleração da expectativa de resposta, que tem consequências terríveis quando é levada para o mundo.
Para escutar os outros em ambiente digital evite, portanto, a aceleração da resposta. Evite interpretar a não resposta como recusa. Evite identificar o que o outro realmente pensa e quer com o que ele diz no anonimato e no palco digital. Clínicos experientes têm recomendado sumariamente: nunca tome uma decisão importante tão só por um diálogo digital, do tipo começar ou terminar uma relação, sair ou entrar em um emprego, decidir uma viagem ou uma mudança importante na sua vida. Em um diálogo digital é muito mais difícil de saber o nível de “seriedade” do que está sendo dito. Ele nos abre para um nível de inconsequência com a palavra que não tem correlato no mundo real.
Aplique a tudo que é dito em ambiente digital uma espécie de efeito de deflação narcísica. Imagine que ao vivo o tom não seria esse, a valentia não seria essa, a força de enunciação não estaria parasitada por um “nós” imaginário e seu palco de fantasia que transforma declarações íntimas em discurso de Estado. Essa deflação narcísica envolve reduzir permanentemente o nível de conclusividade e de confiabilidade do que é dito digitalmente. Checar estados de ânimo, alterar perspectivas, de longe e de perto, e não se deixar tomar por convicções reativas são desafios para toda e qualquer pessoa que quer interagir em redes sociais.
Em grupo, qualquer um de nós se torna mais valente e inconsequente. Em grupo, dizemos coisas e agimos de modo que jamais faríamos se estivéssemos sozinhos. Muito do que fazemos em uma balada ou em uma festa, que nos leva à ressaca moral no dia seguinte, não tem a ver com substâncias psicoativas desinibidoras, mas com a função desinibidora da massa. Agora imagine que no ambiente digital qualquer um pode, a qualquer momento, entrar em “estado de massa”. Neste você não está mais falando com seu namorado, com seu grande amigo de infância ou com sua querida mãe. Em estado de massa, o outro se torna um “outro tipo”, ele não vale mais por sua singularidade, mas pela classe na qual ele se inclui: branco ou preto, mulher ou homem, palmeirense ou corinthiano, esquerda ou direita. Pessoas tipo não são escutáveis, pois o tipo se constrói e se define por um discurso no qual “já sabemos o que aquela classe de pessoa diz ou pensa”. Quando temos muita gente participando da conversa, e esse é um dos aspectos democráticos e salutares do ambiente digital, fica mais difícil gerir e reconhecer diferenças, daí nossa tentação espontânea a criar classes ou grupos que facilitam nossos juízos de aproximação e a regulação automática da distância. Esse “já” é traço da antecipação e da aceleração que o bom escutador saberá ler e evitar na conversa. Nunca, jamais, em tempo algum apressar conclusões quanto ao seu interlocutor, se você quiser realmente escutá-lo.
Nesse ponto, você dirá que são muitas as conversas e uma das coisas boas que o ambiente digital trouxe é a possiblidade de escutar muitos ao mesmo tempo. Não caia nessa ilusão. Nossa capacidade de escuta é limitada e o que se ganha de um lado se perde do outro.