O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 37 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

O Relógio do Pai

35 O relógio do pai

 

Na parede da casa dos meus pais tem um relógio antigo, que badala a cada hora cheia. Foi esse relógio que me alertou que estava acontecendo alguma coisa com meu pai. O “seo” Nelson, como as pessoas o chamavam, era um homem simples, afetuoso, muito bem-humorado e de muita sabedoria. Estava sempre rodeado de gente, tomando seu uisquinho, jogando conversa fora, contando causos. Meus amigos o adoravam, e não raramente iam até a casa dele para papear ou pedir conselhos.

Certo dia, ele já estava com seus 85, 86 anos, nós estávamos na sala papeando e, quando o relógio da parede soou, ele disse: “Ó!… esse relógio quem me deu foi a minha mãe!”. Conversamos brevemente sobre o relógio e nosso papo seguiu o seu curso. Mais tarde, já estávamos jantando, ele ouviu o badalar do relógio e novamente exclamou: “Ó!… esse relógio quem me deu foi a minha mãe!”. Percebi que ele estava repetindo, mas não dei muita bola. Mas desse dia em diante ele passou a esquecer e a repetir coisas com mais frequência. Provavelmente aquilo devia estar acontecendo havia algum tempo, mas eu e minha mãe não havíamos percebido. Ficamos preocupados. Minha mãe o levou ao médico algumas vezes, mas o processo foi se agravando a ponto de o dia inteiro, a cada badalada do relógio, ele falar a mesma frase: “Ó!… esse relógio quem me deu foi a minha mãe!”.

A nova realidade me desestruturou. Eu, acostumado com aquele pai tão sábio, tão lúcido, fiquei sem saber como agir. “Pai, você já falou isso agora há pouco, lembra?” “Pai, presta atenção, você já me contou isso.” Não foram poucas as vezes que eu me flagrei irritado. Nunca vou esquecer o dia em que recebemos uma visita e, quando ele começou a repetir “a frase do relógio”, eu fiquei com vergonha. “Desculpe, viu, meu pai não está muito bem”, disse em voz baixa.

Essa realidade doída começou a mudar no dia em que, buscando um jeito de não sofrer com a repetição, me propus um desafio, como uma brincadeira comigo mesmo: cada vez que o meu pai falasse aquela frase, eu teria que fazer uma nova pergunta sobre o relógio.

Essa ideia, aparentemente simples, mudou tudo. Ela me fez perceber como eu estava sendo estúpido. Meu pai nunca repetiu aquela frase. Ele sempre a falava pela primeira vez. Eu que não tinha maturidade e sabedoria para fazer o mesmo e também escutar pela primeira vez. Ter deslocado aquela situação do campo do problema para o campo do jogo possibilitou que eu acessasse uma escuta lúdica que me fez escutar que havia outra realidade oculta dentro daquela aparente, que no que eu considerava um “problema” existia um convite. Uma grande oportunidade de conexão com meu pai. A escuta lúdica me habilitou a ser empático, nos colocou no mesmo “lugar” e passei a ser companheiro do meu pai naquele estado. A partir desse dia e até o final da vida dele passamos a ter incríveis novas conversas sobre o velho relógio: “Ó!… esse relógio quem me deu foi a minha mãe.”

“E de que madeira será que ele é feito, pai?”

“Acho que é peroba, vamos ver…”

“Ó!… esse relógio, quem me deu foi a minha mãe.”

“E como ele veio parar na família, pai?”

“Ah, meu pai ganhou do irmão dele.”

“Ó!… esse relógio, quem me deu foi a minha mãe.”

“Onde será que ele foi construído?” “Onde será que se arranja peça para ele?” “Será que ele não fica melhor naquela parede?”