O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 16 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Sete Regras para Ser Melhor Escutado

14 Sete regras para ser melhor escutado

 

Na atitude preliminar de escuta, em geral, vale a regra da reciprocidade. Ou seja, se você quer confiança, confie; se você quer autoridade atribua autoridade; se você quer proximidade, ofereça proximidade. Há alguns exercícios que favorecem a experiência de vulnerabilidade e abertura

para a experiência, necessárias para uma boa escuta.[12] Esses procedimentos permitem que a gente se vulnerabilize, possibilitando que o acolhimento do outro aconteça mais facilmente e que com ele nos tornemos melhores hospedeiros das palavras dos outros e das nossas próprias. Tais procedimentos estão baseados na aplicação deste princípio geral de reciprocidade ao campo da fala e da escuta:

1. Falar em primeira pessoa

Nada de começar por “a gente acha…”, “nossa empresa pensa” ou “nós ficamos com a impressão…”. Primeira pessoa é: eu, no singular. “Eu achei”, “Eu fiquei com a impressão”. A vulnerabilidade começa por assumir para si, e não sumir de si. Falar em primeira pessoa é um antídoto natural para um terrível vício dos não escutadores: falar pelo outro, colocar palavras em sua boca, antecipar sentidos, conclusões por procuração e intenções supostas. Sem contar que apropriar-se das palavras que o outro “teria dito” ou antecipar intenções nos outros é uma forma de violência e de intrusão indevida sobre o silêncio dele. Falar pelo outro, tomar seu lugar de fala, desautoriza e minora o seu interlocutor. Ao privá-lo de suas próprias palavras você o silencia no sentido de amordaçá-lo. É possível que a partir disso a conversa se torne um conjunto de correções irritantes de parte a parte, como por exemplo: “Não ponha palavras em minha boca”, “Não foi isso que eu quis dizer”, “Não é isso que está em questão”, “Não é isso que importa”. A pessoa começa a se defender de você e não só do que você diz ou pensa. Preste atenção: se algum dos envolvidos na situação de escuta está começando reiteradamente suas frases com um “não”, algo está errado na estrutura da brincadeira. Experimente mudar o sentido do discurso ou criar um silêncio de ruptura ou reinício de conversa.

Fazer isso ajuda a assumir a responsabilidade sobre o que se sente. Por exemplo, você pode afirmar “Estou triste porque você viajou”, deixando no ar que o outro criou um estado desagradável para você. Em vez disso, a formulação poderia ser: “Estou triste porque eu necessito me sentir seguro e sua viagem me desestabilizou”. Sobre a primeira situação, você não pode agir muito, é o outro quem tem que voltar de viagem, enquanto isso você vive a ausência dele passivamente. Ao contrário, no segundo caso, você tem uma tarefa pela frente: como virar-se com uma vida em que o outro não está com você? Dessa vez, o desafio exige uma resposta ativa e implicada. Na primeira situação, você é vítima. Na segunda, protagonista.

2. Responsabilidade com o que se diz

Qualquer situação compreende algum grau de implicação de cada um dos envolvidos, mesmo que seja a implicação no cuidado consigo e com os outros. Se numa determinada ocasião você acha que errou, diga: “Eu errei”. Repare que depois de “errei” vem ponto-final e não o abominável “Mas é que você também…”. Culpar os outros é frequentemente um sinal de que não estamos conseguindo reconhecer nossa própria implicação ou responsabilidade no curso dos acontecimentos. Um dos piores tampões de escuta é a tendência à comunicação em espelho. Toda vez que você sentir que está falando com um espelho que só devolve, de forma invertida, o que você falou, pare e volte para o início da conversa. Confie que todas as situações têm pontos de ruptura e recomeço. Perceba também que há conversas que, uma vez começadas, tenderão a se reproduzir mais uma vez, em todos os seus detalhes irritantes e sórdidos. Quando você se perceber capturado no espelho, não hesite em sair: dê-se uma pausa, interrompa a situação, peça para voltar ao assunto no dia seguinte (e, desta feita, não deixe que “aquela” conversa recomece).

O principal vilão que nos leva à inconsequência com o que dissemos é nossa tendência a “falar o que o outro quer ouvir”. E dizendo o que o outro que ouvir, o que a situação exige, o que a rotina impõe, vamos nos acovardando. Assim, vamos também embrutecendo e empobrecendo nossos modos de dizer. Ao final, sentimos que só estamos fazendo o que o outro “nos faz fazer” e renunciamos, quase sem saber, à liberdade oferecida pela linguagem.

O tempo é o segundo vilão que nos convida à irresponsabilidade com o que dizemos o que foi dito naquela hora, naquela circunstância, naquele afeto, que pode não ser toda a verdade no momento seguinte. O “Te amo para sempre” pode não resistir à ressaca do próximo dia. Como suportar então que não somos nós mesmos, que as palavras têm a ver com aquele tempo, e que o tempo muda e logo depois nos tornamos outros?

3. Exponha o que se sente

Expor com sinceridade o que se sente, mesmo que sejam afetos menos nobres, ajuda a sustentar a posição de autor, sem que esta seja tomada pela reflexividade imaginária em espelho. Lembre-se: qualquer coisa pode ser dita para qualquer um, desde que encontremos as palavras certas e tenhamos o tempo necessário.

Evite começar uma frase por “você”. Evite descrever, atribuir ou colocar intenções, ideias e desejos no outro. Em vez disso, fale de si, sinceramente, sempre que possível. Discorra demoradamente sobre suas impressões sobre o outro. Faça uma dieta da sua tendência telepática. Se você não consegue, ao menos evite a sequência na qual você descreve a mente alheia seguida de um qualificativo ou uma extensão temporal do tipo “você sempre…” ou “toda vez você…”.

Trazer o foco para você (quer dizer, para o pronome “eu”) contribui para diminuir a pressão sobre o outro, criando um espaço para que ele possa continuar te escutando. Mas expor o que se sente não é lavar a alma em um esfrega-esfrega afetivo que teria a função de justificar qualquer atitude. Partilhar sentimentos é manter-se fiel ao fato de que eles são mais bem vividos quando não têm a função catártica de nos desfazer de seu peso interior. Expor afetos não é o mesmo que vomitar emoções ou obrigar o outro a vivê-los compulsoriamente da mesma maneira que você. Se estiver precisando de uma sessão de descarrego, de botar os bofes para fora, de gritar, espernear, xingar até as paredes, melhor que seja com alguém não envolvido com a questão. Para isso que servem os amigos, os padres, os psicanalistas e os palhaços.

4. Cuidado com a denegação

Na introdução, dissemos que este livro não é um manual de regras para aprender a escutar, mas repare que neste capítulo é justamente isso que está acontecendo. Novidade. Freud descreveu um processo que ajuda muito a construir a situação e a escuta, que é chamado de “denegação”. Sabe aquela pessoa que começa uma frase com “Não quero te ofender, mas…”, ou então, “Não é isso que eu estou querendo…”, ou, ainda, “Sabe este sonho que estou te contando? – pois é, essa mulher no meu sonho, eu não sei quem é, mas tenho certeza de que não é minha mãe”. Ou seja, uma negação sem contexto, exagerada ou muito assertiva, pode ser lida exatamente com o sentido contrário: “Quero te ofender”, “É isso mesmo que quero dizer” e “No sonho é minha mãe mesmo”. Portanto, quando olhar para uma situação, tente localizar onde está o “não” que a organiza. Além disso, preste atenção e tente evitar frases que começam por “não”. Principalmente: perceba quando for a quinta ou sexta vez que você repete um “não” ou um “mas” quando responde ao seu interlocutor.

Portanto…

Evite começar frases repetidas com a palavra “não”. Pense naquela pessoa que está sempre corrigindo o que você disse ou substituindo o que você falou por palavras dela mesma, sem alterar muito o sentido que você havia dito. Geralmente, quando essa pessoa diz “não”, ela está, na verdade, praticando o “sim”, ou seja, dizendo não para suas palavras e se apropriando do sentido como se fossem dela. “Não” para você, “sim” para ela. É assim que aquela sua brilhante ideia acaba sendo apresentada como uma solução original de seu chefe… e ele nem percebe. O truque para identificar a denegação está na aparição de uma ênfase desnecessária, ou uma reatividade defensiva (ninguém está dizendo que a pessoa está fazendo isso, mas ela se defende da ideia como se estivesse sendo gritada pelo outro). Ou seja, ninguém está dizendo “x”, mas a pessoa escuta “x” mesmo assim (= radioatividade denegativa na área). É pela força exagerada ou pelo deslocamento de contexto que se percebe quando estamos em denegação. Quando isso acontece, é melhor mudar de posição de escuta, pois você está sendo marcado pelo outro, de tal maneira que ele não consegue te escutar direito, ele está se defendendo de você.

5. Respeite o fluxo: pedir, receber, dar e retribuir

Em geral, as conversas são trocas sociais que começam por uma demanda. Localizar o que alguém precisa, quer ou o que a situação simplesmente exige é o primeiro movimento que precisa ser respeitado. Falar é pedir, ainda que não saibamos o que estamos pedindo. Compreensão, atenção, dinheiro, amor, obediência, respeito, tanto faz o que se está sendo pedido, mas é pelo pedido que a relação de fala é uma relação de troca.

Pedir é um risco porque traz consigo efeitos do poder e da exposição de vulnerabilidade. Contudo, a arte da escuta envolve passar da situação em que uns têm (os que dão) e outros não (os que pedem) para a situação de compartilhamento. Pedir é potencialmente compartilhar o vazio, mas também aceitar que poderá receber um não (do contrário, estamos diante de uma ordem e não de um pedido). Compartilhar o que nos falta e o que temos ou teremos. Quem não consegue pedir, em geral, está demasiadamente dependente de experiências de possessão. Quem não consegue pedir terá dificuldade para escutar. Pedir é uma tarefa muito difícil para alguns e bastante fácil para outros. Mas, pensando bem, pedir é o início de uma sequência de trocas que nos liga ao outro. Pensemos no exemplo anterior. A demanda é necessidade de segurança. O fato: o parceiro ou a parceira foi viajar. Pois bem, o que você pediria para quem foi viajar no sentido de te ajudar a superar ou suportar a sua insegurança? Um telefonema? Uma lembrancinha tipo: “Estive em Fortaleza e lembrei de você”?

Diante do pedido cada qual terá que receber a mensagem. É isso que ensinamos às crianças, como pedir direito, com modos, no tempo certo. Mas o fato é que o pedido sempre demanda mais esclarecimentos, ele exige tradução, antes de ser sancionado e estabelecido como um pedido pertinente. O momento de tradução do pedido do outro, sem ferir nem submeter a língua na qual ele é formulado, é muito importante. A tradução pode ser feita em voz alta, como em “estou entendendo que você me diz x”, ou “estou tomando sua colocação no sentido y” ou pela manutenção do silêncio, que “pede” por mais esclarecimentos.

Quando o pedido e a recepção foram suficientemente negociados, podemos entrar no ato de doação. É o momento em que a troca é selada, o contrato é assinado ou o assunto é decidido. Ele poderia ter como legenda o “dou minha palavra”, ou “prometo”, ou, ainda, tudo aquilo que leva o casal de amantes até o pé da cama. Escutar é dar seu silêncio e atenção, assim como falar é dar palavras para o outro. Escutar é receber as palavras que o outro te envia, receber com cuidado e com rigor, como se recebem presentes, mas também como se recebem ordens, ou uma carta, que requer leitura e intepretação.

Por fim, quando realmente escutamos alguém, isso nos coloca na situação de alguém que recebeu um presente. As palavras do outro são aquilo que muitos têm de mais precioso, no entanto, em geral, é dado mais valor aos objetos que circundam a troca de palavras. Por isso, para escutar alguém é preciso algum sentido de generosidade que nos coloca em gratidão pelo que recebemos. A retribuição é um tipo de dívida, que não se dá entre um e outro, mas de ambos em relação à experiência partilhada. É por isso que muitas trocas se encerram com um agradecimento, tantas vezes feito de modo meramente formal ou vazio, mas ainda assim índice de que a retribuição é a regra de fechamento de uma conversa. Muitas vezes retribuímos retransmitindo o que recebemos: boas piadas, experiências familiares, lendas urbanas, e, também, histórias engraçadas ou trágicas. Quem escuta se faz testemunha e portador de um patrimônio que, no fundo, poderia ser de todos nós e que alguns chamam de cultura, outros, de memória coletiva e em alguns casos chegamos ao nível da arte.

Inversamente, podemos pensar naquelas atitudes que contrariam leis simbólicas a seguir. Há aquele que retém as palavras para si, como um avarento que não quer dividir nada que lhe seja precioso. Há também aquele que só quer falar, que se arroga o direito à importância de se apossar da palavra, e que, portanto, não deixa que aconteça a doação do tempo, da atenção e do cuidado, porque se comporta como se isso fosse uma obrigação ou um dever do outro. Há aqueles que se recusam a retribuir, por exemplo, os que são tratados com respeito e decoro, mas não são tratados com reciprocidade. Outro caso refere-se àqueles que encaram a retribuição uma regra rígida demais, por exemplo, se te conto uma intimidade, sinto que você está “forçado” a me contar uma intimidade sua, se você não me participou de todos os detalhes sinto que você está traindo nosso pacto.

6. Corra riscos… com cuidado

Escutar é uma atividade de risco, quem quer ficar em um ambiente seguro e sob controle deveria se afastar das palavras alheias. De fato é isso que muitos fazem, uma vez que a escuta compromete, cria equívocos e implicações. Fomos ensinados desde pequenos a não falar com estranhos. Quem visitou a Índia já ouviu um conselho que soa muito deselegante para os brasileiros: nunca responda a qualquer um dos inúmeros vendedores ambulantes que trabalha nas cercanias dos grandes monumentos. Nem mesmo um “não, obrigado” deve ser pronunciado, pois isso significa que você abriu conversações e que o tal sujeito pode segui-lo por três ou quatro quarteirões abaixando o preço ou pedindo explicações sobre por que o produto dele não é tão bom assim, ou, afinal, o que ele poderia te trazer de interessante ou, que serviço ele poderia te prestar.

Nunca se sabe o que virá quando se abre uma porta. Por isso é compreensível a atitude de bolha na qual indiretamente regulamos quem e o que queremos escutar e quem deve ficar de fora de nossos circuitos de escuta.

Podemos nos sentir mais ou menos dependentes do outro a partir da economia de nossos pedidos, mas essa sensação de dependência não deveria interferir no sentimento de autonomia. Pelo contrário, pedir nos desloca da posição de observador passivo para uma posição ativa, de autor comprometido. Isso só pode acontecer se o pedido sincero comportar uma negativa sincera. Confira se o quanto você se autoriza a pedir é compatível com o quanto de recusa você está disposto a aceitar. Essa regra vale para a progressão da intimidade em um relacionamento: ofereça um pouco a mais ou um pouco a menos de intimidade do que o outro se propõe, e, se está disposto a lançar-se no abismo escuro, esteja pronto para bater com a testa no chão.

Escutar é um ato de coragem. Isso tem uma relação como chamado “poder discricionário da linguagem”, ou seja, quem determina o sentido da mensagem é quem a recebe, não quem a envia. Estamos relativamente livres para receber a mensagem do outro, facultando a quem escuta variar o ângulo e o acento de sua recepção, privilegiando um aspecto ou outro do que foi dito. Quanto mais alternativas de recepção alguém tem, mais escutador se torna. Os que pouco escutam restringem-se a um ou dois ângulos, do tipo aprovar ou reprovar, exercendo, assim, de forma muito opressiva, o poder de decisão do sentido da mensagem. Isso é crucial porque para o bom escutador importa abrir o sentido para a indeterminação produtiva, ou seja, nem o que eu quis dizer, nem o que você quis dizer, mas o que um terceiro: o mundo, a experiência, as coisas em si, o que o inconsciente, quis dizer. Precisamente porque se abriu o momento da dúvida, do espanto e do não saber que podemos pesquisar juntos para ver do que é feito o sentido naquele encontro.

Quem pede se coloca diante do risco, pode ou não ser atendido, pode ou não ter seu pedido sancionado como válido (ainda que seja insatisfeito), pode ou não despertar alguma generosidade no outro.

Atenção: pedido não é ordem. Aliás, esse é o sinônimo pior que pode haver para ser escutado, ou seja, ser obedecido. Quando o pedido é atendido, gera uma expectativa de retribuição, que novamente pode ou não ser atendida. Mas lembre-se: as coisas que mais queremos não devem ser pedidas, por exemplo, amor, respeito, confiança e autoridade. Elas são efeitos da relação e não devem ser postos na posição de causa ou condição. Se você pede para ser amado e o outro te dá flores, você nunca vai saber se as flores são um sinal de que ele livre e espontaneamente te ama ou está te obedecendo apenas porque você pediu. Se um professor grita na classe: “Exijo que respeitem minha autoridade”, ele está simplesmente declarando que não a tem.

Mas se não podemos pedir o que realmente importa, o meio para criar esses sentimentos sociais como o respeito e a autoridade é simplesmente oferecendo eles ao outro. Se você quer conquistar a confiança do outro, coloque-se em situações nas quais ele pode confiar em você. Jamais espere que à sua atitude de desconfiança, o outro responda de outra forma que não replicando, em espelho, a sua atitude.

A tomada de risco na escuta diz respeito justamente a esse tipo de aposta que fazemos contra o estado de ânimo básico e funcional que comanda nossas trocas sociais mais comuns, e por isso elas são sentidas tão frequentemente como superficiais, pois elas foram feitas para transmitir segurança genérica para as trocas, principalmente as econômicas.

A coragem da escuta está em contrariar o que é esperado por um determinado contexto. Por exemplo, contrariar os sinais não verbais de “me deixe em paz”, contrariar a atitude de “mantenha distância” do chefe enfezado, contrariar a atitude de “me deixe em paz” do adolescente drenado por seu fone de ouvido. Naquela reunião onde todos estão lutando para fazer valer seu ponto, vender seu peixe ou impressionar o outro, um comentário fortuito, que rompe com a rede de expectativas, pode fazer toda a diferença entre ser escutado pelas palavras que você diz e ser escutado como reprodutor da posição ou papel que esse já espera de você, ou que você construiu para si como seu castelo defensivo.

Quando pensamos em coragem, nos ocorre a virtude guerreira clássica e a situação de competição ou antagonismo. Contudo, existe outra forma de coragem, a qual poderíamos chamar de coragem cognitiva, aquela que nos faz correr o risco da vergonha ou da inadequação em torno de uma ideia ou opinião. Corajosos desse tipo devem dedicar-se a amealhar um bom repertório de informações, dados e sabedoria para que o risco tomado, por exemplo, quando se discute um assunto, fora dos códigos que o envolvem, não seja apenas a tolice de quem desconhece o perigo.

7. Distinguir: culpa, responsabilidade e implicação

Escutar é, frequentemente, uma atividade que se desenvolve em torno da procura das causas, da tomada de decisões ou da procura de respostas. Daí se depreende que a estrutura mais geral da conversação está nas perguntas ou nas questões que nos movem a procurar o outro. Aristóteles dividia os discursos em três gêneros: o judiciário, o deliberativo ou político e os elegíacos ou de louvor. Nos três casos há uma causa, que organiza e orienta o diálogo, esteja ela no passado, no futuro ou no presente. No caso dos discursos político e judiciário, a orientação é para a disputa do antagonismo; no caso do discurso de louvor, ela é colaborativa. Podemos dizer que essa causa é a determinação da culpa no discurso judiciário, a distribuição de responsabilidades no discurso político e a escolha da implicação no discurso elegíaco. No caso do discurso político e do elegíaco, o sentido é para o que fazemos juntos, ao passo que no discurso judiciário é para os fatos do mundo e para as coisas.

Implicação é um termo lógico que tem a ver com a consequência que damos às palavras. Responsabilidade é um termo jurídico relacionado ao nível de autonomia que dispomos para criar, seguir e justificar nossas regras de ação. Culpa é um termo moral ligado à violação de preceitos, ideais ou expectativas. A implicação produz sujeitos e desejos, a responsabilidade produz compromissos e reparações, já a culpa produz vítimas e carrascos, santos e vilões. Mas, com frequência, produzimos culpados unicamente para não nos perguntar sobre nosso nível de responsabilidade, e nos contentamos com a responsabilidade jurídica ou moral, apenas para não confrontarmos nosso próprio desejo. A responsabilidade e a implicação acontecem em silêncio, a culpabilização e a denúncia são ruidosas, por isso exteriorizam em palavras o que não conseguimos conciliar com o silêncio em nós mesmos. Responsabilizar aponta para a solução. Culpar aponta para o problema.