O Palhaço e o Psicanalista
Simpatia Não É Empatia
18 Simpatia não é empatia
O termo empatia foi introduzido por Robert Vischer em Sentimento ótico da forma (1873) como
“projeção do sentimento humano para o mundo da natureza”.[19] Edward Titchener traduziu o termo alemão Einfühlung, usando a derivação grega de páthos, para empathy. Páthos, em grego, remete tanto à paixão quanto ao sofrimento e, ainda, à capacidade de afetar-se com o outro. Menos do que doença, páthos é conflito. O termo alemão continha o radical ein (um) e o verbo fullen (sentir) o que nos leva ao sentimento de unidade. Vischer tentou discernir esse sentimento de unidade de experiências conexas como o “sentir com” (Mifüllen), o “sentir junto” (Zuzamenfüllen) e o “sentir próximo” (Nachfüllen). Ele também tentou separar “sentimentos” (Füllen) de “sensações” (Empfindung).
A polêmica terminológica seria apenas um preciosismo, se não atentássemos para a importância da diferença entre identificação e empatia. A cultura da simpatia se dissemina pela popularização de imagens digitais e pela condição, cada vez mais importante, de uma afinidade estética preliminar como condição para a produção de sentimentos de admiração, respeito e interesse: animais de estimação, crianças felizes e sorvetes de morango são simpáticos. Freud leu Lipps, que leu Vischer, e usava o termo Einfühlung para designar os encontros mais promissores entre analista e analisante. A empatia, combinando sua versão alemã com a inglesa, é um percurso de reconhecimento, não apenas um afeto pontual. Se a empatia é a atribuição de traços humanos à natureza, podemos dizer que ela é ao mesmo tempo psicológica, política e estética, como é também a ideia de catharsis, ou seja, purificação ou “cura” que decorria da encenação das tragédias gregas.
Mas simpatia não é empatia.
Syn é um prefixo grego, que significa “junto com”, por exemplo, em “sincronia” (junto no tempo), ou em “sintoma” (o que corta ou cai junto). Páthos é um termo grego que remete a quatro linhas de tradução, todas mantendo uma relação muito íntima com a experiência da escuta:
1. Páthos indica aquele que sofre a ação, sugerindo, portanto, passividade, como a que
encontramos na palavra “paciente” ou no próprio termo passividade. Paciente e paciência nos remetem à atitude humilde de quem recebe, espera, dá hospedagem ao outro.
2. Páthos opõe-se à razão, indicando sentimento e afetos, tidos habitualmente como fonte de
nossas paixões e de nossas loucuras. Para Platão, havia dois cavalos que a alma conduzia em seu passeio de contemplação das ideias antes de ela encarnar em um corpo específico. Um dos cavalos representava a razão (logos) e o outro a paixão (páthos). Quando o cavalo da paixão estava muito irritadiço levava a alma a se ocupar demais com ele e, portanto, perdia tempo de contemplação das ideias, as essências que depois são objeto de nosso conhecimento.
3. Páthos aparece também como radical ligado ao adoecimento e ao conceito moderno de
doença. Anatomopatologia é a ciência que estuda os transtornos dos órgãos e tecidos. Uma descoberta patológica é aquela que tem valor diagnóstico para o reconhecimento de sinais patológicos e, portanto, pode nos levar a uma pista prognóstica, sobre como a doença pode evoluir. O patológico se encontrará aqui como o objeto que cuidamos quando vamos para o hospital.
4. Em último lugar, páthos significa, também na filosofia, disposição ou capacidade de ser
afetado pelo outro. Deixar-se marcar pelo outro envolve abertura para que o encontro com ele faça memória, deixe um traço. Ser afetado é diferente de assumir o ponto de vista do outro. O ponto de vista é um conceito da ótica e da geometria que reduz o sujeito a um ponto, um ponto em vista, um ponto de onde olhamos. A capacidade de afecção (affectio) tem a ver com o arco de afetos, emoções e sentimentos reverberados pela escuta no contexto da existência de um corpo. Quando nos tornamos hospedeiros da potência das palavras e do dizer que as acompanha, não é porque retemos o sentido ou os conceitos do que foi dito, mas porque incorporamos, tornamos aquilo parte de nosso corpo.
A simpatia é parte da empatia, sugere “sentir junto”, identificação e alinhamento entre iguais. Simpatia acontece quando sentimos que o outro gosta das mesmas coisas que nós, que ele faz as coisas como nós fazemos ou como gostaríamos de fazer. O simpático, portanto, é um “nós” ampliado, o acontecimento de nos reconhecermos, com pequenas deformações, para mais ou para menos no outro. Isso é muito importante, e sem simpatia a escuta pode ser prejudicada. Simpatia e tolerância são importantes para a escuta, mas não suficientes. Há psicanalistas importantes e eficientes que se notabilizaram por sua antipatia, falta de educação, secura ou maus modos. Simpatia não é suficiente para nos transformar porque ela nos mantém no “nós”, e a transformação só acontece quando incorporamos uma diferença “Eu + 1” como dizem os
ribeirinhos do rio Xingu.[20] Quando há simpatia sem empatia, estamos no domínio das convenções e da manutenção da circulação sabida e conhecida do sentido e dos lugares constituídos.
Simpatizar ajuda muito a sobreviver a um primeiro dia de trabalho ou de aula no colégio novo. Por isso, quando chegávamos na classe logo batíamos o olho para encontrar alguém com uma camiseta do KISS, que usasse um tênis parecido, qualquer sinal mínimo de identificação neste mundo cruel. A verdade é que essa busca por sinais simpáticos, no meio do oceano de vergonhas e medos, ocorre o tempo todo sem que a gente perceba. Isso acontece porque antes de acharmos uma pessoa simpática, nosso cérebro vai “olhar” para ela e compará-la com os vários padrões acumulados durante a vida: jeitos de falar, palavras que usa, microexpressões faciais, modos de olhar, de andar etc. Feito isso, o cérebro vai nos emitir a percepção se a pessoa é simpática ou não. Assim, não adianta muito o esforço para ser ou parecer simpático porque no final não é isso que se transmite. Nossas intenções são muito poderosas e potencialmente comunicantes. Quando, por exemplo, uma pessoa quer mostrar que sabe alguma coisa, o que chega ao outro é exatamente isso: a sua intenção de “mostrar que sabe”, e não que ela simplesmente sabe. O resultado é que a gente acaba achando-a só metida ou “antipática” e não inteligente. O mesmo acontece com quem “quer ser” simpático. Querer ser, obriga a pessoa a uma série de interpretações teatrais que pouco transmitem de simpatia, mas podem facilmente ser chamadas de inconveniência, inadequação ou só chatice mesmo.
Consideramos a simpatia como a primeira e essencial etapa da escuta, que faculta o contato inicial, a criação de intimidade, as conversas animadas em mesas de bar, os almoços de domingo com a família. Mas é preciso ir além dela se quisermos construir relações mais sustentáveis e uma sociedade mais tolerante, inclusiva. É preciso passar da simpatia para a empatia.
A empatia compreende a simpatia, mas vai além dela. O termo remete à noção de sentir com (Mit-fühlung), que é antes de tudo uma experiência estética. A empatia poderia ser definida então como o nó ou o circuito que liga ou dá unidade aos nossos modos de escutar o outro:
1. Hospitalidade, como acolhimento do viajante estrangeiro ao qual nos dobramos e tentamos
falar sua língua. Até aqui a simpatia é bem-vinda e necessária.
2. Hospital, pois quando ele começa a falar, caminhamos para um ponto de partilha de nossa
vulnerabilidade, de nossas insuficiências e problemas. Nesse ponto, descobrimos que há coisas que o amor não cura e que o acolhimento não resolve. É o momento diagnóstico da escuta.
3. Hospício, pois escutar não é resolver os problemas dos outros, oferecendo soluções e
caminhos que ele não vê, mas também aceitar o que alguém tem de incurável e de louco em sua demanda. Passamos então para o terceiro estágio, no qual a escuta se reúne com a criação e com a experimentação.
4. Hospedeiro, pois depois de acolhido, tratado e reconhecido, a escuta nos transforma, assim
como o mundo introduzindo uma diferença produtiva no encontro ocorrido.
A empatia não é um afeto básico, mas um percurso que dá unidade aos vários modos e momentos de escuta. Muitas vezes precisamos de mais hospitalidade do que hospício. Outras vezes dá-se o contrário: falta loucura em nós. A escuta é tão mais empática quanto mais informa o seu interlocutor que todas as opções estão disponíveis.