O Palhaço e o Psicanalista
A Escuta que Cura e o Teatro da Loucura
10 A escuta que cura e o teatro da loucura
No século XVII, Erasmo de Rotterdam[7] dizia que existem dois tipos de pessoas. Os “loucos sábios”, que sabem que a vida é uma loucura na qual as pessoas dizem uma coisa e pensam outra, em que nós representamos nossa própria comédia ou tragédia pessoal, para um auditório imaginário. A vida é uma loucura feita de ilusões e o domínio que acreditamos ter sobre nós mesmos e nosso corpo é enganador. Um teatro de som e fúria que nada significa, como disse Shakespeare. Nossas crenças e princípios mais sólidos se desmancham no ar da vida prática. Ocorre que há um segundo tipo pessoa: os “loucos-loucos”. Estes não sabem que a vida é uma representação, que somos confusamente atores e personagens, diretores e roteiristas de nossa própria vida. Os “loucos” são os que acreditam em si mesmos, que amam seus personagens mais do que a si mesmos, pois eles se transformaram, sem saber, em personagens de si próprios.
O palhaço é um louco sábio que sabe que toda vida é uma loucura e tenta tirar as pessoas das suas próprias loucuras loucas.
Nossa loucura é outro nome que damos para a vulnerabilidade, condição essencial e matéria-prima de nosso trabalho, mas, também, meio e caminho para que algo diferente seja criado. Escutar o outro é concorrer para que sua loucura produza algo mais e além de… mais loucura.
Ora, ninguém confronta a sua própria loucura em estado de conforto e segurança. Isso é sempre um passeio pelo lado escuro da força. Um passeio que envolve, do ponto de vista da prática da loucura, uma espécie de trabalho da dúvida e da incerteza. Onde a certeza prospera, o palhaço-psicanalista trará a dúvida e onde a dúvida prevalece o palhaço-psicanalista trará a incerteza. Esse movimento de equilíbrio e desequilíbrio envolve passagens mais ou menos regradas do modo competição ao modo colaboração, como será apresentado no capítulo 28. No cinema ou no teatro, na literatura ou na dança, esse movimento segue uma regra geral que é da tensão-distensão. Aumento de suspense ou desenlace? Incremento de angústia e indeterminação ou reasseguramento e tranquilização? Na prática da escuta, isso está coordenado primeiro pela arte de dosar o silêncio e encontrar a justa posição de escuta, e depois pela arte de colocar perguntas.
Quem escreve roteiros enfrenta um dilema estrutural: o que devo fazer a cada momento? Desenvolver o personagem, descrever sua vida interior, sua biografia, seu trabalho de memória,
ao modo de Proust em [8] Em busca do tempo perdido e de aprofundamento que investiga “quem é o personagem” ou então retratá-lo no interior de uma ação, uma batalha ou um romance, tomando decisões e desenrolando acontecimentos que “mostram como o personagem age”, ao modo de Star Wars. Focar no personagem aprofunda o eixo vertical da história, focar na ação privilegia o eixo horizontal da narrativa. Na técnica de improvisação teatral, os dois principais movimentos são Expandir (eixo vertical) e Avançar (eixo horizontal). Cabe aos atores-improvisadores, ao vivo, escutarem o que a cena está pedindo. Se realmente estiverem conectados com o aqui e agora (hospedagem), saberão quando é hora de colocar uma ação para avançar a cena ou estender o momento aprofundando os detalhes, dando um respiro para a plateia se reposicionar ou digerir os acontecimentos.
Quando sentimos que a conversa está parada demais é porque a relação do personagem com outros personagens e situações não evolui. Quando sentimos, ao contrário, que as coisas se passam depressa demais, às vezes produzindo uma sensação de superficialidade, é porque estamos muito concentrados no eixo horizontal da narrativa, e provavelmente a plateia deve estar sedenta por descobrir qual será o próximo capítulo ou cansada de tanta correria.
A luta entre representação e apresentação remonta aos antigos tratados de retórica e aos primeiros discursos sobre arte. Pode assumir trajetos inesperadamente complexos quando pensamos no diálogo de sedução entre amantes em potencial, uma situação onde poderíamos ficar indefinidamente verticalizando nossos afetos e emoções. Mas é por isso que todo romance que se preze intercala estes momentos “fechados dentro de nossa bolha de amor” com a intrusão de um vilão ou problema inesperado, a luta contra um inimigo comum ou a aparição de inquietações internas insuspeitas. Não é por outro motivo que um dos primeiros romances
modernos se chame [9] Ligações perigosas , de Choderlos de Laclos. Uma maneira moderna de ler nossas experiências de conflito e sofrimento é acusando uma separação entre a forma como representamos o mundo, os outros e nós mesmos e a forma como agimos sobre o mundo, sobre os outros e sobre nós mesmos. Por isso a escuta também é a arte de nos tornarmos outros para nós mesmos, e deixar que o outro se torne um habitante de nós.
Na arte da escuta estamos sempre, hospitaleiramente, equilibrando e desequilibrando nosso interlocutor, medindo, procurando e tateando o ponto no qual o conflito se mostrará mais interessante e produtivo. Na clínica, o ponto máximo dessa arte é a interpretação; na arte do palhaço, é o ponto imediatamente anterior ao desenlace da cena. O ponto máximo de suspense e de preparação da surpresa, envolve alta capacidade de reter o silêncio e de trabalhar com o vazio, de preparar a hospitalidade para a chegada do estrangeiro inesperado, mas também o momento no qual a loucura, como jogo entre o sentido e a falta de sentido, dará sua palavra.
Há três grandes imagens que encontramos frequentemente na literatura, para descrever o que se passa em uma psicoterapia: o teatro, a viagem e o jogo. Há ainda uma imagem que parece sintetizar estas três, que é a imagem da guerra, com perdedores e vencedores, que envolve sair de seu território ou invadir o território alheio, assim como compõe-se de uma série de movimentos táticos e de estratégias para enganar o adversário e criar uma situação política ou belicamente interessante para um dos lados. Tanto o teatro quanto o jogo e ainda a viagem são práticas que envolvem etapas ou regras, roteiros ou preparações.
Quando Freud inventou a psicanálise, ele inspirou-se no teatro grego, nas tragédias em particular e na experiência da catarse como ab-reação dos afetos. Revivendo o que se passou, e reacomodando os afetos com as ideias, muito de nossa experiência de vida encontra a sua cura. Essa lição está na origem das psicoterapias em geral. Elas funcionam porque nós pensamos e analisamos nossa própria vida, como se estivesse diante e nós, num laboratório, mas curam ainda mais porque vivemos uma experiência com o terapeuta. Uma experiência de confiança e entrega, mas também de dúvidas e antagonismos que se repetem como se estivéssemos em um teatro no qual protagonista e coadjuvante não sabem de antemão qual é o roteiro.
Podemos olhar para a situação de fala e escuta com as três primeiras imagens em mente. Nelas o estar-junto, ou seja, a qualidade do encontro, tende a ser mais importante do que meramente chegar ao objetivo pretendido. Aliás, quando o sujeito quer muito chegar ao fim do jogo é porque a situação não está tão legal assim. Certa vez, atendi um jogador de tênis que tinha um problema em concluir suas partidas. Ele chegava em posição de grande vantagem no jogo, mas na hora do último ou do penúltimo game algo acontecia e ele começava a jogar pior e a arriscar bolas desnecessárias, o que invariavelmente tornava a partida mais difícil e às vezes levava a derrotas inusitadas. Trocamos “muitas bolas” até que ficou claro que ele era um jogador um tanto incomum para um profissional, pois ele realmente gostava de jogar. Não tinha entrado ainda no esquema tão massacrante de treinos e viagens que destrói a relação de tantos bons jogadores com o esporte que inicialmente amavam. Mas esse tenista gostava tanto de jogar que não queria ver o jogo acabar. Se ele ganha, a partida se encerra, ele tem que ir para o vestiário, falar com pessoas, e o tênis que é bom termina. Portanto, por que não “alongar” um pouco a coisa que estava tão legal? Agindo assim ele se colocava em risco, mas o caso nos mostra como o processo pode ainda ser mais importante do que o produto.
Inversamente, muitos jovens terapeutas têm dificuldades com o início do tratamento porque querem concluí-lo rapidamente. Dizem coisas que são verdadeiras, urgentes e valorosas, mas fora do tempo em que o outro pode escutar, ou pior, sancionando em demasia a gramática da situação em torno de avaliação-problema-solução. A rápida solução de um problema local pode ser o desperdício franco de uma ocasião para entender como aquele problema é um fragmento que revela algo estrutural muito maior e muito mais importante. Portanto, se antes de investir contra o problema tivéssemos examinado, viajado pela paisagem subjetiva onde ele acontece, teríamos ganhado mais. Ademais, a aceleração da fórmula avaliação-problema-solução cria um problema subsidiário que é o fechamento da escuta. Tudo passa a girar em torno de demandas e da solução de demandas, à medida que elas vão sendo resolvidas, isso pode ser muito bom para a empresa, mas é péssimo para as pessoas que se sentem vazias, mecanizadas e funcionalizadas como máquinas de desempenho.
Saber jogar ou brincar é importante para se formar na arte da escuta, mas o teatro também é. Trivialmente, criticamos alguém que encena, dramatiza ou que se apresenta como condutor impessoal de um papel, como um ator, do qual temos a impressão de falsidade. Contudo isso é apenas uma forma de dizer que aquela pessoa está praticando muito mal o teatro social, deixando transparecer uma relação pouco congruente entre o ator e o personagem, ou, ainda, com interrupções do diretor da peça ou do autor do roteiro no meio da encenação.
Escutar o outro implica alguma capacidade ou esforço para fazer o papel que este exige ou pede. Ora, quando alguém fala, este alguém vai construindo um mundo, com seus pressupostos, com sua história e com seus futuros possíveis. Neste mundo há um palco, e no centro do palco está o protagonista que estamos a escutar. Por isso, quando vamos entrar em cena, é preciso calcular, ainda que seja uma estimativa de afetos e afinidades, de que lugar vamos participar daquele mundo. É preciso entrar nele com cuidado e respeito, como quando entramos na casa de um desconhecido. Esse é também o desafio de um bom mestre de palhaços: criar o universo seguro de pesquisa para acolher o mundo que o outro lhe apresenta. Um picadeiro hospitaleiro e hospitalar o necessário para que seus aprendizes consigam acessar ao menos uma centelha genuína de si mesmos, escutem essa descoberta, e consigam compartilhá-la com a plateia. Roberto Benigni, protagonista e diretor de A vida é bela, diz que um palhaço interpreta a si mesmo. Ou seja, o mestre de palhaços não deve medir esforços para que, no final da jornada – e cada viagem é sempre única e sem GPS –, o seu aprendiz, no meio do picadeiro, não seja apenas um ator, mas um palhaço.