O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 19 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

A Potência do Silêncio

17 A potência do silêncio

 

É muito importante não confundir o silêncio do desinteresse da indiferença ou da reprovação com o silêncio da atenção e do acolhimento. O silêncio da escuta é ativo, pulsante, vigilante e repleto de interpolações, daí que é melhor quando não seja percebido. Vale aqui a regra médica de Hipócrates: produzir os maiores resultados com o mínimo de intervenção. Escolher com precisão o momento em que poucas palavras trarão grandes efeitos. Essa é a atitude de cuidado que esperamos no hospital. Não só cuidado que o outro nos dispensa, mas o cuidado que temos conosco.

Quando recebemos um paciente em psicanálise, há um período inicial de entrevistas preliminares. Durante as entrevistas, que podem durar algumas semanas, e às vezes tomam meses, analista e analisante avaliam a necessidade e as condições para a viagem de escuta que se avizinha. Considera-se, por exemplo, se aquele analista será o melhor para aquele analisante, se há tempo e dinheiro, se as questões diagnósticas são tratáveis pela psicanálise. De tal forma que estamos em uma espécie de preparação das malas para a jornada, ou na abertura, ou nos primeiros movimentos de um jogo de xadrez. Surge assim uma pergunta clínica: quando saber que a análise começou? Trata-se não apenas de uma decisão técnica, mas principalmente ética, que é a de acolher e aceitar a aposta com aquela pessoa. Há extensas discussões teóricas a respeito e vários modelos possíveis para entender esse ponto. Tenho para mim um critério prático, que tem se mostrado bem efetivo ao longo do tempo. A análise começa quando podemos ficar em silêncio.

Ora, isso coloca, obviamente, a necessidade de ler o silêncio, e há vários tipos deles. Há o silêncio agoniado daqueles que precisam ocupar o vazio com qualquer coisa, ainda que sejam palavras vazias. Há o silêncio constrangido dos que não sabem onde colocar as mãos, e por isso elas se avolumam de modo insuportável. Há o silêncio que pergunta desesperadamente: o que ele quer ouvir? E há o silêncio morto, vazio que surge como uma espécie de branco. Há muitos silêncios, mas há aquele que às vezes pode durar muito pouco, do ponto de vista da sua extensão, podendo aparecer com um pequeno suspiro ou um sorriso de soslaio, mas que diz de alguma forma que podemos ficar em silêncio. Quando esse silêncio torna-se possível uma vez, é sinal de que o trem apitou e podemos embarcar para a jornada do inconsciente.

O silêncio da escuta hospitaleira e hospitalar ameniza a prontidão com que estamos acostumados a sentenciar perguntas e respostas, problemas e soluções, ofertas e demandas. É um silêncio robusto suficiente para neutralizar os anticorpos da negação e escutar o que o silêncio do outro, que se infiltra no meio das palavras dele, pode estar te falando. Mas a hospitalidade da escuta é primordial para que aconteça o fundamento e a base de toda escuta possível, ou seja, para que o sujeito se escute.

Pense, o que haveria de tão mágico em algumas palavras trocadas durante meia hora ou cinquenta minutos, algumas vezes por semana, de tal forma que isso teria força para transformar a massa movente e inercial de uma vida? Muito pouco, a não ser que consideremos, como já dissemos, que a parte mais importante da análise acontece fora das sessões. Os encontros são a oportunidade para que uma pequena fagulha se insinue, para um pequeno empurrão ou uma perturbação inquietante se instale, como uma pequena pedra jogada em um imenso lago. As intervenções devem adquirir uma eficácia que ultrapassa o encontro, e que atua a partir da hospitalidade como pílulas de “re-escutamento” de longo prazo.

O vazio é o espaço interno onde o silêncio age. A arte da escuta poderá ser comparada à arte da produção de um vazio. Um vazio que nos tira do lugar e permite o movimento. O vazio que resta quando tiramos nossas vestes, nossos papéis e nossas identidades. O vazio que se manifesta como silêncio ou incerteza é o ponto de partida e de chegada para a fala do outro. O oco essencial para que as palavras do outro ecoem e este seja capaz de ouvir. Tempo necessário para que as emoções tenham espaço para reverberar e encontrar a ressonância comum entre quem fala e quem escuta. O vazio é antes de tudo um lugar oferecido ao outro para que ele te habite. Quando você escuta o outro, está dizendo para ele: eu tenho um lugar para você em mim. Esse lugar que já está em cada um de nós agora pode receber um nome. É o lugar de tudo o que é estranho, incompreensível e enigmático em nós. É o lugar de nossa própria loucura. É o lugar onde acolhemos e cuidamos para que o outro expresse a dele. Lugar onde ambos se permitem ser como são. Uma boa escuta não deve se intimidar diante da experiência do hospício. Ela deve atravessá-lo como parte decisiva do encontro e da redescoberta do mundo e de si.

Isso requer renúncia e coragem. Renúncia como suspensão provisória do que você pensa e sente a respeito do outro ou do que ele está dizendo acreditar, saber ou protestar. Coragem porque nem sempre o que o outro fala é agradável aos ouvidos. De médico e de louco todos nós temos um pouco, de psicanalista e palhaço, cada qual tem sua parte. A escuta chata, normalopática, otimizada, é aquela que deixa nossa loucura de lado, considerando que tudo aquilo que não tem caminho fixo – reto de preferência – e objetivo definido é desperdício, poesia ou brincadeira inútil. O oposto da conversa funcional é o que alguns chamam, no gênero elegíaco “jogar conversa fora”, no gênero deliberativo “papo-furado” e no gênero político “bater boca com os outros”. A escuta hospicial não está nem em forçar a normalidade da troca social, nem trucidar o sentido e a consequência de nossas palavras, mas uma espécie de caminho do meio entre as duas coisas.

Em geral o hospício não é assunto preferido das pessoas. Preferimos papear sobre coisas positivas e nos dedicar aos planos que guiam a realização de nossas metas e objetivos. Além disso, os hospícios têm uma história péssima, quando se convertem em manicômios, pois sua invenção faz o louco passar da condição de sujeito de uma experiência trágica, em comunhão com deuses e outros mundos – mas ainda assim portador de uma verdade –, para a condição de objeto de uma consciência crítica, sem voz própria e sempre falado pelos outros como juízes, médicos psiquiatras, psicólogos e… ainda sob controvérsia: psicanalistas. Os hospícios nasceram no Ocidente cristão, do reaproveitamento dos leprosários, onde antes essa doença terrível do corpo era excluída do mundo visível. Os leprosários deram origem aos hospícios, ao substituir a lepra como o grande mal que pode acontecer com alguém. O louco foi silenciado. Não havia nada mais a ouvir nem a escutar na loucura. Ela era apenas expressão da desrazão, da insanidade, da perda da realidade ou da consciência de si. Por isso o juiz, o médico, o alienista… e depois os psicólogos e psiquiatras, passaram a “falar por ela”. Os doutores da loucura sabiam muito sobre seus objetos. Conheciam as formas de delírios e os tipos de sintomas. Gradualmente eles já sabiam tudo que a loucura tinha a dizer. Sabiam tanto que a loucura não tinha nada mais para

dizer, por ela mesma.[18] Por isso, é muito importante detectar o quanto antes, na situação de escuta, onde e por que ocorre um silêncio desse tipo. O silenciamento da loucura é também o abafamento da palavra inconsequente, da palavra livre da palavra errante, da palavra que brinca ou faz poesia.

Ora, palhaços e psicanalistas partem do pressuposto de que é possível e necessário voltar a escutar a loucura. Que na loucura há um fragmento de verdade que precisa ser dito por ela mesma. Que nunca deveríamos colocar “palavras na boca da loucura alheia”. E é exatamente por esse gesto que nossa loucura cotidiana começa. Antecipamos palavras. Colocamos o que já sabemos sobre o outro à frente dele. Em geral, fazemos isso baseados na negação de nossa própria loucura. Repetimos discursos e regras de escuta que são uma espécie de recusa ou de surdez metódica, contra a loucura do outro, o que, como já vimos, é uma forma de recusar e não dar guarida ou hospitalidade para a própria loucura, expulsando-a para outro mundo.

Na nossa loucura sempre se insinua, ainda em voz confusa ou abafada, um fragmento de nosso desejo. E por isso uma vida que não enfrenta as próprias loucuras, inocências, contradições ou irracionalidades é uma vida pobre, que adia a questão do desejo. Quanto ao que queremos na vida e ao que somos, deixemos isso para depois. Quanto às perdas, decepções e incertezas, o amargo remédio universal: trabalha que passa.

Assim, tendemos a achar que aquele que se revela vulnerável, ou seja, que não esconde muito bem sua loucura, no fundo é um fraco que está pedindo misericórdia ou pena, ou um desajustado que precisa de mais controle, quando não de uma camisa de força. Se ele admite não conseguir resolver um problema sozinho, se não possui os bens simbólicos ou materiais ser necessários para ser “alguém na vida” ou ainda porque se revele desorientado e não saiba aonde pretende chegar, sentenciamos que sofre de algum déficit de independência ou de autonomia.

Estar perdido ou sem lugar, estar sem meios ou empobrecido, ou sozinho e desacompanhado são as três figuras fundamentais da vulnerabilidade, e são objeto dos tratamentos hospitalares mais variados, e também são as expressões de nossa loucura: estar fora de si (fora da casinha), desorientado, falando sozinho.

Elas são a parte escondida de nós e que concorre para que nos tornemos surdos àqueles que insistem em se fazer espelhos de nossa vulnerabilidade, dependência e loucura. Daí a importância de reconhecer e experimentar sua própria vulnerabilidade, para poder reconhecer e acolher a vulnerabilidade do outro.

Mas o que fazer com isso?

Depois de acolher, de cuidar e de nos perder para nos reencontrar, há ainda uma espécie de fecho da escuta. O momento no qual o viajante retoma sua jornada, que volta para o mundo do trabalho, o mundo onde não há parêntese e o encontro é raro ou inexistente. O momento em que deixamos e levamos algo, que nos sentimos mais fortes ou municiados para uma nova aventura, é o momento em que nos tornamos hospedeiros. Momento em que passamos a carregar – e, possivelmente, transmitir – as experiências da hospitalidade, do hospital e do hospício. Aqui entra em jogo o que se pode chamar de silêncio elaborativo, aquele que decorre de uma palavra que “cala fundo” e que demora para ser escutada. Suportar o silêncio envolve, nesse caso, suspender a reação, dar tempo para que o que foi dito ressoe e seja reconhecido em toda a sua consequência e extensão. Deixar que, como uma doença que precisa de um tempo de incubação, coisas subterrâneas e invisíveis aconteçam antes de aflorar com uma novidade. Essa é a função do silêncio na etapa hospedeira da escuta. Respeite esse momento antes de publicar essa descoberta incrível no Facebook ou Instagram.